A mulher no tempo das catedrais
A historiadora Regine Pernoud tem vários livros bons sobre a Idade Média, como o livro sobre mitos da Idade Média. Gostaria de falar de outro livro: "A mulher no tempo das catedrais".
Qual é o tempo das catedrais? Podemos dizer que é a Idade Média, porém também poderíamos ser mais precisos e dizer que foi mais ou menos nos séculos XI ao XIII. Se não fosse nessas datas, poderíamos citar outras mulheres que o livro não cita, então saiba qual a proposta do livro.
Também, introdutoriamente, gostaria que evitemos a confusão entre Idade Média e Idade Moderna. Muitas das críticas à Idade Média são, na verdade, críticas à Idade Moderna e ao final da Idade Média. Mas Pernoud irá ajudar a explicar isso no livro que resumirei.
Introdução
O livro é dividido em 3 partes: antes do tempo das catedrais, durante e depois. Pernoud situa a idade feudal entre o século X e o final do XIII. O objetivo da autora é mostrar mulheres que foram tão influentes nesses tempos que não terão equivalentes por séculos; as mulheres voltará a efetivamente ter importância nas mudanças da sociedade no século XX.
Antes do tempo das catedrais
A historiadora se questiona quais mulheres importantes se poderia citar antes do cristianismo. Digo, importantes por seus feitos, e não por serem famosas na época por algum motivo. Não há muitos exemplos.
As mulheres cristãs antigas tiveram grande importância na evangelização, como Clotilde no reino dos francos, Teodolinda na Itália, Teodósia na Espanha, Berta de Kent na Inglaterra. São Bonifácio, o grande evangelizador da Germânia, teve ajuda de várias religiosas.
Em Roma (e no mundo antigo pagão em geral), a mulher não era sujeito de direitos; era semelhante a um objeto ou a um animal em sua condição jurídica. Ela não tinha papel oficial na vida política nem na administração (não podia ser senadora, nem magistrada, nem tribuna), inclusive apenas o adultério da mulher era punido até o Baixo Império (embora o homem adúltero não fosse punido com a morte). A mudança ocorreu com a pregação do Evangelho, que pregava uma igualdade fundamental ("Quem quer que repudie a sua mulher e despose outra comete adultério; e, se a mulher repudia o marido e desposa outra, comete adultério" - Mc 10, 11-12; Mt 19,9), e as mulheres têm papel importante em vários momentos do Evangelho.
Encontramos várias mulheres importantes nos primeiros séculos do cristianismo; quase todas moças novas e mortas pela fé. Várias vinham de famílias patrícias (basicamente, pertenciam à elite) e impressionavam o povo pagão por recusarem o esposo escolhido pelo pai para guardarem a virgindade, isso em um mundo em que o pai podia escolher se o filho vivia ou morria, inclusive muitas vezes matando as segundas filhas.
Não é preciso dizer que a afirmação da vontade da mulher contra a sociedade e a família era uma novidade radical, abalando o fundamento da sociedade. Somente em 390 a lei civil tira o direito de vida e morte, o que indica o que viria a ser chamado de dignidade da pessoa humana: todos os seres humanos têm valor e merecem viver, não se devendo selecionar uns e outros (especialmente os nascidos fracos ou deficientes).
Para não cometer um anacronismo, as sociedades antigas valorizavam a mulher especialmente como esposa e mãe, porém sua importância estava necessariamente ligada à vida familiar (mesmo a virgindade da Roma pagã para servir ao fogo sagrado da cidade não era uma opção da mulher, mas uma escolha feita pelo pai).
Desde o começo da Idade Média, as mulheres tinham um papel importante na sociedade. Podemos citar os mosteiros femininos, que serão importantes como os masculinos. As abadessas serão pessoas muito influentes no período. Elas aprendiam e ensinavam a ler, copiavam textos clássicos e, inclusive, produziam obras, como teatro, músicas, livros sobre o equivalente à ciência na época. Pernoud cita a preocupação das mulheres com a educação, inclusive com obras sobre educação e com os mosteiros femininos se preocupando em instruir as mulheres leigas (não religiosas) a ler. Com a influência do Renascimento, no final da Idade Média, é que as mulheres começarão a se distanciar da instrução.
A Idade Feudal
Pernoud descreve vários inventos do medievo (para citar alguns, a chaminé, a atrelagem do cavalo na espátula e não no pescoço, o melhoramento e a difusão do moinho) que ajudaram a aliviar o trabalho e permitir que especialmente as mulheres fossem poupadas do trabalho braçal.
Pernoud trata também da cultura da corte, próprio dessa época. Para a mulher, a cortesia era uma cultura que a valorizava e criava um padrão de moral e virtude para os homens. Nesta época, a cortesia não era exclusiva da nobreza, pois afirmava as virtudes e os modos acima do nascimento. O amor, a paixão, nessa época se transforma em uma arte, uma filosofia, popularizando as poesias destinadas à amada do poeta. A ética cortês não estava separada da cavalaria; a cavalaria prezava pela força, mas pregava que fosse à serviço do mais fraco.
Um detalhe que eu achei interessante é que, no casamento, era comum tanto a mulher adotar o sobrenome do esposo quanto manter o próprio; a situação seria diferente no século XVII, em que era obrigatório a mulher adotar o nome do esposo. Apesar de haver diferenças regionais, na idade feudal, em regra os homens podiam casar aos 14 anos, e as mulheres, aos 12, e não dependiam da aprovação dos pais. Havia casos de casamentos arranjados, mas eles dependiam do consentimento dos noivos e ocorriam mais nas famílias nobres.
No século XIII, a mulher que casa permanece proprietária dos bens que possuía; só ela poderia vender; no século X era comum ela doar terras (sem homem participar do contrato) e ela dar o consentimento caso o marido doasse um bem da família. Se a mulher praticava o comércio, podia testemunhar de forma juridicamente válida sobre tudo ligado a esse comércio; se o marido era comerciante, a mulher podia substituí-lo sem autorização prévia no caso de ausência ou impedimento. Só no século XVI é que ela perderá a capacidade jurídica (no século XIX, com Napoleão, essa situação seria bem mais consolidada; sem capacidade jurídica, a mulher é como uma criança, sem poder, em regra, ter bens, vendê-los, assinar contratos, processar e ser processada etc.).
As profissões que hoje são consideradas femininas eram, na Idade feudal, exercidas majoritariamente por mulheres (há exceções; algumas eram masculinas e outras eram igualmente exercidas pelos dois sexos), como os ofícios ligados a vestuário. Elas apareciam ainda profissões ligadas ao metal (talhes para fazer cutelos, caldeiras, agulhas, serras; confecção de brincos...), talvez por substituírem o esposo, mas ainda tocavam sozinhas a profissão. Muitas trabalhavam com alimentos: pães, salsichas, forno, queijo... Além de trabalharem como mensageiras, vendedoras diversas, criadas. Isso tudo na cidade.
No campo, a mulher tinha poder idêntico ao homem, em feudos grandes e pequenos. Várias mulheres recebiam e prestavam homenagens (em rápido resumo, homenagem é a cerimônia em que o vassalo jura fidelidade ao suserano e recebe terras). [Na língua inglesa, inclusive, "dame" era usada para se referir a baronesas com título em nome próprio, enquanto uma mulher que tinha título por intermédio de outrem, como o marido, é "lady"].
No século XIII, era comum o reinado de uma mulher, inclusive em domínios extensos. No século XVIII, ainda haveria resquícios como Catarina da Rússia, mas na França já não seria assim. Pernoud aponta que elas não buscavam imitar o governo masculino, mas exerciam sua autoridade sendo mulheres, tendo mais atenção, sendo cortejadas, empregando soluções mais femininas para os problemas.
Não vou me alongar nisso, mas Pernoud cita a história de várias mulheres importantes: Adélia, condessa de Blois, Ana da Rússia, Matilde da Toscana, Inês, filha de Inês de Borgonha, Leonor de Castela, Joana d'Arc e Santa Catarina e Siena (estas duas últimas, são depois do período feudal, mas são mais frutos do medievo do que da modernidade).
Após o tempo das catedrais
No século XIII, vemos o final da cultura cortês, substituída por pensamentos humanistas, sentimentalistas, materialistas. Ainda neste século encontramos mulheres que podiam ter estudos universitários, mas no século XIV, elas vão sendo excluídas da universidade. Neste século, as mulheres foram proibidas de exercer medicina sem diploma; as que já tinham puderam continuar exercendo, mas as novas mulheres já não podiam estudar medicina para obter o diploma.
Sem o acesso das mulheres ao ensino superior e com muitas mortes na peste, a instrução básica feminina foi muito prejudicada (vale notar que os conventos femininos eram muito importantes na educação das jovens mulheres).
Conclusão (minha)
A autora apresentou uma visão muito diferente do que se imagina da mulher na idade feudal. Muitas vezes, nós pensamos que a Idade Média em geral era uma versão piorada da Modernidade (embora também haja exageros), mas isso é falso em muitos pontos, e um deles é na liberdade da mulher.
A rigor, o conflito homem x mulher, que é feito pelas feministas, é, no mínimo, anacrônico em se tratado da Idade Média. Lá ambos os sexos eram valorizados. O conflito que havia especialmente no começo e no final é entre homem e mulher e a família. Não que a família fosse um mal, mas o direito romano tinha uma família hipertrofiada ao ponto de prejudicar todos exceto o pai. Com a influência bárbara e cristã, a família voltou a ser mais equilibrada, valorizando a esposa e os filhos. O Renascimento tratá o direito romano e o pensamento pagão e islâmico inclusive no que desfavorecia a mulher.
O livro é muito bom para se compreender como era a dignidade da mulher na Idade Feudal. Não que fosse um paraíso ou que não tivesse problemas, mas é muito melhor do que se supõe hoje. Vale notar que a autora apresenta essa "nova" visão da Idade Média a partir de estudos recentes, usando documentos da época e do acesso de historiadores aos arquivos do Vaticano, que deram acesso a muitas informações que contradizem o que os iluministas falavam da Idade Média.
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