Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte I
Acabei de terminar um ótimo livro sobre as histórias. Tem vários temas que eu já tinha alguma curiosidade ou que vinha pesquisando, mas o mais importante é sua contribuição para entendermos a importância psicológica das histórias, e nos dá parâmetros para entender se uma história é boa ou não.
O livro, em si, tem uma estrutura não muito linear, precisando voltar a assuntos já falados. Eu compreendo a necessidade disso, pois pode ser preciso que o leitor tenha uma visão geral antes de aprofundar em algo já dito, porém eu não gosto. Eu prefiro algo mais organizado, mesmo que seja um pouco mais cansativo. Acredito que essa escolha ocorreu para refletir como BOOKER desenvolveu seu próprio raciocínio. Eu farei este resumo segundo mais ou menos como eu organizaria essas ideias.
Apesar do título ser sobre os 7 tipos básicos de enredos, há vários outros elementos trabalhados no livro: os principais tipos de personagem, a distinção entre luz e sombras e entre feminino e masculino nas histórias, além de depois apresentar outros tipos de enredo. Também tem uma parte muito interessante sobre a história do mundo, mas com uma grande ênfase nos últimos séculos.
Adianto também que eu tenho uma discordância com a visão do autor. Eu diria que BOOKER é um humanista, no sentido de colocar o homem no centro de seus estudos - o homem num sentido mais pleno, maduro. Eu considero que esse humanismo, com todas as suas vantagens, acaba desprezando o aspecto espiritual, transcendente, e o considera apenas como um aspecto do ser humano, enquanto eu o vejo como o aspecto central. O centro, mesmo do homem, é Deus. Eu poderia modificar uma excelente frase encontrada no livro para o seguinte: os católicos acreditam em Deus, os humanistas acreditam no Homem, e depois se acredita só em si mesmo.
1. Conceitos elementares
1.1. Ego e Self
A distinção entre Ego e Self vem da psicologia e é importantíssima para o livro, apesar de eu a considerar problemática. De forma bem resumida, é natural dos seres humanos terem essas duas partes: o Ego e o Self. O Self é uma parte mais primitiva e mais inconsciente, mas está mais próxima da "boa" natureza humana; é o Self que busca o equilíbrio, o desenvolvimento pleno, a boa relação com a sociedade e com o próximo. Enquanto isso, o Ego carrega uma certa dualidade (que posteriormente associaremos ao deus nórdico Loki). Por um lado, o Ego tem uma parte mais desenvolvida, que é a consciência, que carrega a potencialidade de criar, desvendar mistérios, descobrir soluções; por outra, o Ego também desperta o egoísmo, fruto do individualismo exagerado, desejando apenas a própria satisfação, a própria glória, mas esses desejos são desequilibrados, se afastado da felicidade verdadeira que só o Self proporciona.
Por que eu não gosto dessa distinção? No início, ele funciona bem, e mesmo em certos elementos mais profundos, ele nos aponta o problema real de uma forma bem direta, mas me parece que ao aprofundar e explorar esses elementos, eles acabam se tornando insuficientes. Parece-me simplista considerar que o Ego é a parte consciente e dada a excessos, enquanto o Self parece incapaz de causar desequilíbrios. Mas não pretendo me aprofundar nisso agora.
1.2. Luz e sombra
A dualidade luz e sombra aparece, de certa forma, como efeito da distinção entre Self e Ego. Vale a pena dizer que Self e Ego são partes da alma humana, e não se pode eliminá-los. A nossa luta em nós mesmos e na educação da próxima geração é domar o Ego. Self e Ego continuam coexistindo, mas um deles pode ter uma dominância. Aí falamos de luz e sombra na personalidade. Um personagem-luz é aquele que representa os valores do Self, enquanto um personagem-sombra, os do Ego. Por serem personagens, representações, eles não precisam conter claramente elementos do que eles não representam. Mesmo na vida real, podemos apontar pessoas que são símbolos do Self ou do Ego, ou seja, que são luz ou sombra, ainda que internamente tenham as duas partes coexistindo.
Vimos o que é luz e sombra, agora uma consequência importante é seus efeitos sobre o "ciclo da vida". O Self não só é um meio para a própria felicidade, mas para uma sociedade saudável, em que os mais velhos dão lugar aos mais novos. O Ego, ao querer a própria satisfação, tem um apego não saudável aos filhos e à sua posição de poder, então bloqueia a sucessão dos mais velhos pelos mais novos. Aí entra a figura do tirano, de um monstro que impede qualquer um de governar, do monstro que sequestra a princesa, da mãe dominadora, da amante, do pai autoritário.
Ainda sobre luz e sombra, devo apontar para o personagem "trickester", que chamarei de ambíguo (a tradução literal seria "enganador", "embusteiro", "traiçoeiro", mas não me parecem ter um sentido adequado). É um personagem muito interessante, pois não é bem luz nem sombra. De modo geral, personagens-luz são bons, fazem coisas boas, produzem resultados bons, enquanto os personagens-sombra são o oposto. O personagem ambíguo aparece como misterioso, capaz de coisas boas e más, gerando problemas e soluções, fazendo coisas boas, mas cobrando um preço alto. Pode ter significado diferente nas histórias. Certos personagens ambíguos representam os ganhos e os riscos que aparecem ao mesmo tempo com as inovações científicas, podendo tender para o bem ou para o mal, mas não sendo típico. Outros podem parecer maus por forçarem a mudança, imporem ao herói sair da zona de conforto, o levando a um ser assustador e perigoso, mas, ao mesmo tempo, lhe dá meios para escapar e amadurecer - nesse sentido, eles são uma força inconsciente (involuntária) para o herói amadurecer, pois nem sempre o jovem escolhe amadurecer, mas é forçado, e o amadurecimento traz também oportunidades e forças.
Esse tipo de personagem curiosamente tem sumido das nossas histórias, o que BOOKER não explicou. Bom, na verdade, as histórias recentes possuem mais personagens ambíguos no sentido de não serem bons nem maus, mas cinzas, "realistas", como se houvesse uma tese de que não precisamos ser bons para sermos felizes; são o malandro, o anti-herói. Mas esses personagens não são os "tricksters" de verdade, em sua importância para as histórias. O personagem ambíguo não é só ambíguo, mas ele é como uma força da natureza humana, algo entre o consciente e o inconsciente, mas só pode ser compreendido dentro de um quadro de valores. Se eu puder fazer um palpite, o personagem ambíguo é incompreensível ao ponto das histórias modernas (tomadas pelo Ego) terem medo de seu potencial de transformação profunda. O Ego teme olhar para si mesmo, teme os riscos imprevisíveis, teme sair da zona de conforto, e é isso justamente o que o Trickster faz.
1.3. A família-luz e sombra
Após termos uma noção do que é luz e sombra, podemos classificar os personagens entre alguns tipos comuns. Basicamente, cada tipo luz tem um tipo sombra contrário. BOOKER usa, para isso, a comparação com a família: pai, mãe, irmão/irmã do mesmo sexo, a criança e o par romântico.
Pai e mãe significam a geração anterior. Num sentido arquetípico mais profundo, eles representam o potencial (luminoso ou sombrio) do herói ou da heroína: ou seja, um tirano significa o potencial negativo do herói, enquanto um rei bondoso mostra seu potencial positivo. Não se resumem a isso; podem ser simplesmente pessoas que bloqueiam o ciclo da vida (frequentemente na comédia o pai-sombra não é o potencial negativo, mas apenas alguém que impede o relacionamento amoroso). Se significa o potencial negativo do herói, vencer o pai-sombra significa vencer o próprio potencial negativo, as próprias sombras internas.
Essas figuras não significam pais e mães dos personagens, mas figuras que lembram esse tipo de papel. O monstro muitas vezes é um pai-sombra, por ser um uma figura autoritária, masculina, sombria. A mãe-sombra muitas vezes é a madrasta ou a bruxa.
Os irmãos e irmãs de mesmo sexo significam concorrentes do herói e da heroína. São pessoas de status semelhante, seja idade, riqueza, missão. Se forem luminosos, são companheiros. Se forem sombrios, são concorrentes - podem ser príncipes que disputam o trono, ou irmãs que querem conquistar o príncipe. Eles costumam ter uma função de evidenciar as qualidades dos protagonistas principais - um companheiro pode ser forte, enquanto o herói protagonista é inteligente; a heroína pode ser abnegada, enquanto suas irmãs são materialistas e superficiais.
A criança é uma figura que aparece geralmente com heróis mais velhos. É muito raro haver uma criança-sombra; geralmente, a criança é símbolo de luz, de esperança, de renovação, de continuidade. A criança pode ser o personagem capaz de despertar o Self do herói por ser indefesa, frágil, sincera, inocente. O herói é convidado a assumir responsabilidade pela criança que, caso contrário, poderia morrer, e tem alguém que precisa dele, que gosta dele, que confia nele. A criança-sombra me parece mais uma fantasia, e, pela raridade, parece melhor procurar compreender sua simbologia em cada história em que aparece do que ter uma regra geral.
O par romântico luminoso recebe um nome especial: animus (masculino) e anima (feminino). Em termos de arquétipos, o par romântico é masculino + feminino e não do mesmo sexo, pois a união dos dois sexos significa a união de qualidades opostas e também o potencial de renovação da vida. Mas não são apenas personagens "exteriores" ao protagonisa, mas também podem significar algo "interno". A anima não é só o par romântico do herói, mas representa as qualidades femininas que o herói precisa. Assim, a anima não é uma mulher feminina qualquer, mas é uma mulher que tem as qualidades femininas que aquele herói específico precisa. Por vezes, o par romântico luminoso também possui características do outro sexo (como uma anima que possui também força física e vontade para ajudar o herói que está preso, incapaz de usar suas qualidades masculinas) desde que sejam o que o herói precisa.
Vale dizer que à rigor o animus/a anima não são necessariamente o par romântico. Usamos esse termo para encaixar numa estrutura, mas na verdade são personagens do sexo oposto com características complementares. Um herói bem jovem pode ter uma anima na história que o ajuda, mas com a qual ele não desenvolve uma relação amorosa - justamente por ser muito novo.
Há o par romântico-sombra, que podemos chamar de tentador ou de tentadora. Eles poderiam ser o par romântico verdadeiro, mas, por serem sombra, egoístas, eles não são apropriados. Como potenciais pares românticos, eles têm um poder atraente sobre o protagonista, mas, por ser sombra, eles não amam de verdade, mas querem o protagonista como meio para obterem fama, poder, para satisfazer seus afetos egoístas.
Por fim, vale dizer que essas figuras não são estáticas na história. Um personagem mau pode ser convertido em um personagem bom, ou um personagem pode participar da história tendo papel ora de mãe ora de par romântico em relação a um personagem (como uma namorada que se comporta como mãe) ou de vários (é mãe em relação aos irmãos pequenos, mas é um par romântico em relação ao herói).
1.3-A. Personagens forças do inconsciente
Existem ainda alguns personagens-luz ou sombra que não se encaixam na família. Foi o caso do personagem ambíguo de que falei, mas o mais comum são animais normais ou mágicos. Eles, por não serem bem humanos, tendem a representar forças do inconsciente. Podem ser ameaçadores, mas muitas vezes são bondosos, mostrando forças do inconsciente. Geralmente, quando o personagem amadureceu no final da história, sua relação com essas forças do inconsciente é diminuída ou deixa de existir - como o gênio que vai embora após realizar os 3 desejos. Isso se explica pelo amadurecimento também significar dominar, incorporar, essas forças inconscientes; conhecer a si mesmo.
Tem outro tipo de força inconsciente que é a fada madrinha e, pelo que me parece, o velho sábio (e outras figuras semelhantes). A fada madrinha faz como os animais e ajuda a heroína, mas ela parece não ser tão inconsciente como eles, mas ainda não é uma personagem principal e consciente (não é uma amiga no sentido pleno da palavra). O velho sábio é um homem maduro completo que, geralmente pela velhice, não pode participar da história ativamente, mas revela segredos ou introduz o herói em sua jornada.
Seria meio difícil imaginar figuras-sombra desses personagens, mas teoricamente é possível. Eu diria que quando há aquele diabinho na cabeça do herói, esse diabinho parece um animal-sombra, principalmente se ele atuar em um nível mais inconsciente, só plantando a sementinha do mal, e não forçando o herói. Se esse diabinho for uma ameaça, ele se torna um monstro, que é outra figura.
1.4. Masculino e feminino
Aqui, não há uma teoria sobre sexo ou gênero, não há uma fundamentação muito profunda, apenas um esquema sobre o masculino e o feminino nas histórias. Essa distinção é simbólica: há características que são masculinas e outras que são femininas, e há uma relação de complementariedade entre elas ao ponto da união das duas significar o amadurecimento pleno, a personalidade bem formada.
Em um nível mais externo, a complementariedade entre masculino e feminino se relaciona com o final feliz do casamento de um herói com uma heroína.
Mas podemos trabalhar com qualidades masculinas e femininas. Basicamente, podemos dizer que as qualidades masculinas são força e ordem, enquanto as femininas são sensibilidade e compreensão.
- Força - não é só força física, mas também força de vontade, liderança, engenhosidade. Pode ser simbolizado por uma arma mágica. Envolve coragem, atrevimento, capacidade de se impor, de se fazer ouvir, de convencer, de dominar. A força tem seu lado negativo que é a opressão, o crime, a tirania, mas tem seu lado positivo de proteger, combater o mal, defender a verdade.
- Ordem - enquanto a força busca dominar o mundo independente das regras, a ordem cria estabilidade, valores, princípios, hierarquias. Envolve disciplina, trabalho metódico e dedicado, organização social de propriedade, hierarquia, valores como justiça, lealdade, honra. Ordem se relaciona com a capacidade de fazer distinções (entre meu e o seu, entre o melhor e o pior, entre bons e maus, entre um caminho e outro, entre um objetivo e outro). A ordem pode ser boa (dar um direcionamento à vida para um propósito elevado, seleciona os meios corretos, emprega valores corretos), mas também má (quando se torna inflexível ao ponto de negar o ciclo da vida ou se apegando a um valor ou à segurança ou à unidade nacional em vez de outros valores).
- Sensibilidade - envolve tanto a percepção (capacidade de notar pequenas coisas, delicadeza, atenção aos animais pequenos, ou às crianças em dificuldade) como afetividade (amor, paixão, compaixão, empatia, alegria). A sensibilidade pode ser má quando a pessoa vive em função apenas do sensível e não de valores ou de necessidades mais profundas.
- Compreensão - é a visão do todo. Muitas vezes aparece na forma de uma intuição capaz de penetrar numa realidade inconsciente. Significa ver as consequências das ações, significa ver o lado do outro, mesmo que esteja errado. Também envolve compreender seu lugar no mundo, seu papel, suas limitações, quando deve ou não intervir. Envolve pensar não em dominar ou ordenar, mas em acolher e equilibrar. Talvez, a compreensão seja a mais difícil de se corromper, mas seu grande problema é a compreensão sem poder, sem meios.
Note que heróis e heroínas podem ter todas as características. Uma heroína legitimamente pode ter força e um herói legitimamente pode ser sensível. Ao analisarmos se a história é imaginação ou fantasia, eu diria que o padrão das histórias é o herói ter ou desenvolver bem as qualidades do seu gênero e ter uma abertura às qualidades complementares - o herói é bom no que faz e reconhece que lhe falta algo, o que é representado pela anima. Da mesma forma a heroína desenvolve bem seu lado feminino, mas é ou se torna aberta ao masculino. Essa é a regra, mas as histórias podem sair dessa regra, e nesse caso se deve estudar se se justifica esse desvio - por exemplo, o herói está preso ou enfetiçado e a heroína precisa agir sendo feminina e masculina enquanto o herói não é nem masculino nem feminino enquanto estiver preso.
De forma geral, o herói é apresentado desde o início aberto ao feminino, e na história precisa desenvolver seu lado masculino. É possível, mas menos frequente que ele seja masculino, mas tenha que se abrir ao feminino (como na Bela e a Fera).
No livro, é inevitável deixar de notar que a Sombra se associa às qualidades masculinas. As qualidades femininas mesmo desequilibradas não chegam a ser tão perigosas quanto as masculinas, ao menos não sem serem reforçadas pelas masculinas. Uma mãe-sombra dominadora, por exemplo, tem o lado masculino de dominar, e isso a torna mais perigosa.
1.5. Imaginação e fantasia
Alguns estudiosos propuseram uma distinção entre imaginação e fantasia, ao perceberem certas mudanças nas histórias de seu tempo (início do século XIX). A imaginação envolve histórias "saudáveis" para o imaginário, pois possuem um significado profundo ligado aos valores do Self. Enquanto isso, a fantasia é um auto-engano; ele usa as histórias, os arquétipos, os clichês, os símbolos, mas sem o seu significado profundo, apenas para satisfazer seus próprios desejos. A fantasia por ser mais neutra como se imaginar em uma viagem, ou se casar com uma princesa, mas sem a necessidade de amadurecer, de adquirir virtudes, de se esforçar. Mas essas fantasias vão seguindo em direção ao moralmente ilícito [curiosamente, na República, Platão aponta essa transição da democracia em que se valoriza os próprios apetites, para a tirania, em que se valoriza os próprios apetites ilícitos]: aí histórias com violência brutal contra os seres mais inofensivos e com motivos cada vez mais banais, cenas de sexo cada vez menos ordenado, a obsessão em princesas sendo injustiçadas.
Curiosidade, "obsceno" originalmente significa aquilo que deveria se passar "fora da cena", fora do palco. Uma peça de teatro poderia ter uma história com as piores monstruosidades, mas na Antiguidade, certos atos de brutalidade só poderiam se passar fora do palco. Fazer essas cenas se passarem no palco faz parte de um movimento sensacionalista, de querer impressionar o público para conseguir chamar atenção. Isso envolve peças polêmicas, mas também filmes, como o Psicose.
Num exemplo mais atual, podemos comparar o primeiro Digimon com atuais animesde isekai (são histórias em que o protagonista vai para outro mundo). O Digimon tem um lado fantástico, mas se importa com o desenvolvimento dos personagens, com o amadurecimento, com as virtudes, tratando-se, portanto, de uma imaginação. Hoje, a tendência dos isekai é colocar um humano sem nada de especial em um mundo fanástico e com poderes inimagináveis e desproporcionais, ou seja, onde ele não precisa amadurecer e ter responsabilidade ou treinar para conseguir prestígio, poder, mulheres - são histórias de fantasia.
A fantasia é ruim? Moralmente, ela pode ser negativa ou neutra. Pode ter um valor como entretenimento. Mas é um degrau mais baixo do que a imaginação.
Outra observação é que existem fantasias em escalas diferentes, assim como há imaginação em escalas diferentes, mas pelo critério que divide as duas, a imaginação é moralmente, psicologicamente, superior. No livro, ao conhecermos os enredos básicos e o significado dos seus elementos, adquirimos ferramentas intelectuais para diferenciar as duas histórias.
1.6. O objetivo da imaginação e os símbolos do Self
Talvez, BOOKER tenha uma visão meio simplista, mas ao menos é uma boa base para refletirmos. A imaginação serve expressar como se amadurece, como se lida com os desafios, como se torna uma pessoa completa, feliz, conforme os valores do Self. É uma visão ao meu ver melhor do que as interpretações de linhas mais freudianas de que as histórias se interpretam apenas pelo amadurecimento sexual; a linha de pensamento do livro segue uma amadurecimento mais espiritual, psíquico.
Na verdade, 4 das 7 histórias básicas do livro tratam diretamente do amadurecimento, enfatizando elementos diferentes, mas chegaremos nisso em breve.
Pode ser difícil dizer se o herói realmente amadureceu, então um meio empregado é usar símbolos que representem esse amadurecimento, que represente o Self. Há vários, mas existem símbolos principais:
- Casamento - casamento significa que os valores masculinos e femininos foram equilibrados e também significa a continuidade do ciclo da vida. É um símbolo poderoso e universal. Também vemos no casamento algo que "separa os meninos dos homens", pois não é só um romance ou um caso amoroso, mas significa responsabilidade, dedicação, amor verdadeiro, família, filhos.
- Sucessão - a sucessão significa que o herdeiro está apto para governar. Significa que a geração anterior pode descansar e que a nova geração pode assumir o poder e a responsabilidade. Na imaginação, só se sucede quem é digno, apto. Também, suceder pode significar que um candidato é melhor que os outros, pois ele passou pelas provas, pois ele é o verdadeiro rei, pois ele é quem conquistou a princesa.
- Morte do monstro - um símbolo cuja força varia conforme o poder e o significado do monstro. O monstro bloqueia o ciclo da vida e cria uma sociedade triste e paralisada. Mas o monstro também significa o Ego dentro de si, e vencê-lo é vencer seu lado mais sombrio. Vemos, por exemplo, o quanto Harry Potter é associado a Voldemort, ou o quanto há em comum Luke e Darth Vader, pois esses vilões significam o lado negro do herói, e vencê-los significa que o herói amadureceu, venceu a si mesmo.
- Tesouro inestimável - mais do que um tesouro de ouro (o que é ainda material), há em várias histórias tesouros "espirituais", impossíveis de se estimar, com propriedades milagrosas. Exemplos: o Santo Graal, um animal mágico como o Pássaro de Fogo, o fogo dos deuses no mito de Prometeus. Frequentemente, envolvem elementos não só masculinos, mas femininos, mas o mais importante é que tal tesouro significa a completude, o "elixir da vida" de Campbell, significa força e renovação da vida, significa glória e paz social.
Para BOOKER, esse tesouro significa o Self, a maturidade. É símbolo de que quem o alcançou é digno. Eu discordo, pois para mim o tesouro pode ter um sentido maior que a maturidade, que é a transcendência, a vida espiritual.
- A terra santa ou a cidade santa - Outro símbolo do Self pode ser um lugar. Esse é um lugar perfeito, um Éden, um paraíso, Jerusalém celeste, Eldorado. Como terra santa, é uma espécie de oásis, de local em que há abundância de vida, de possibilidade de construir um novo lar. Mas o mais interessante é a figura de cidade santa, principalmente para os antigos em que a cidade tinha um simbolismo muito mais forte do que hoje. Cidade significa um mundo estruturado, organizado, hierarquizado, com vários tipos de oportunidades e trabalhos, na segurança das muralhas, com recursos e pessoas que seria difícil de encontrar no campo. Significa leis e até eventualmente direitos ao cidadão. Obviamente, há cidades ruins poluídas, com vários problemas, mas não é esse o símbolo da cidade como Self.
Como símbolo do Self, a cidade é mais tecnológica, com homens mais civilizados e cultos, com governantes benevolentes, com proteção, com oportunidade, com uma história até mágica.
1.7. Acima e abaixo da superfície
Vale a pena falar ainda de uma distinção importante. As diversas culturas tendiam a imaginar o universo em 3 níveis: um nível celeste, o nível da superfície e o nível subterrâneo. O nível celeste é próprio dos deuses, de alguns mortos grandiosos. O mundo da superfície é o mundo cotidiano. O mundo subterrâneo envolve monstros, tesouros, até mesmo os mortos.
Dificilmente há histórias em que os heróis vão para o mundo celeste. No máximo, o mundo celeste pode ser um símbolo do Self. Assim, não é tanto nosso objeto de análise.
O importante, então, são dois mundos: o mundo acima da superfície (ou o mundo da superfície) e o mundo abaixo da superfície. E eles têm uma simbologia também. O mundo acima da superfície é o mundo das aparências e da consciência, enquanto o mundo abaixo da superfície é o fundamento escondido da realidade e também o mundo inconsciente. Entrar no mundo subterrâneo significa entrar em contato com partes da sua personalidade que estão inconscientes, e isso pode mudar o herói profundamente.
O mundo acima da superfície é o mundo mais visível, das aparências, inclusive sendo enganado pelas aparências. Um mundo de ordem exterior pode ter grupos rebeldes subjacentes, por exemplo. Não é preciso que o mundo "abaixo da superfície" seja literalmente subterrâneo; o importante é que seja escondido, oculto, mas que reflita uma realidade mais profunda e fundamental. O tirano pode impor a ordem, mas haverá grupos revoltosos que só se manifestam nas sombras.
Idealmente, os dois mundos estariam em harmonia, mas quando surge uma sombra no mundo da superfície, a luz se refugia no mundo abaixo da superfície. O livro não apresentou uma história em que a Sombra está abaixo da superfície sendo uma real ameaça, pois o Ego é uma força consciente, de aparências, de poder externo; mas não importa quanto o Ego tente, ele não consegue eliminar o Self; no máximo o faz se refugiar no interior da consciência. Ainda assim, é possível uma história em que o Self seja o mundo acima da superfície, como em que se luta contra alguma seita bizarra, mas a simbologia pode começar a ficar confusa.
Sobretudo o Ego, por ser consciente, tem medo do inconsciente. Tem medo de se olhar no espelho e ser forçado a se enxergar como é e não como se apresenta. Tem medo de ir tão fundo onde não possa mais ter controle ou ter uma visão do que está acontecendo. Mas mesmo a um herói alinhado ao Self, o mundo abaixo da superfície é perigoso, pois lá há monstros, perigos e tentações, mas só passando por eles é possível se alinhar totalmente ao Self.
A distinção entre o mundo superior e o mundo inferior, entre o mundo do consciente e do inconsciente, varia em importância e forma nas histórias. Em certas histórias, o herói só precisa adentrar no mundo inferior brevemente; em outras, praticamente a história toda se passa abaixo da superfície; em certas histórias, os dois mundos são próximos, se distinguindo apenas pela perspectiva; em outros, são mundos distantes, separados por um abismo ou um portal, sendo perigoso tanto ir quanto voltar.
1.8. Versões sombrias e sentimentais
Nem toda história é boa (no sentido de ter valores bons). Nem toda história boa tem um final feliz (como a tragédia). Nem toda história com final feliz é boa. Temos que admitir essas verdades. Podemos dar valor a uma história que não é boa, mas é válida como entretenimento, por exemplo.
Antes de prosseguir, devo falar da versão sentimental, no sentido de sentimentalista. Esse tipo de história até pode ser boa, mas se distingue por querer agradar o Ego: envolve muitas gratificações, muita fantasia, e vai se esvaziando do Self. Versões muito sentimentais vão se tornando sombrias.
Há histórias sombrias, que são histórias que não são boas - no sentido de não poderem ser vistas pela perspectiva do Self. Podemos dividi-las em tipos conforme o Ego vai dominando (seguindo até um curso histórico)
- Histórias sombrias em sentido estrito - São histórias em que há espécie de inversão nos valores. Não são sempre ruins, mas indicam algo psicologicamente anormal, que é a ascensão do Ego. É o caso de Frankenstein, em que o monstro é bom. Uma história mais chocante é Mob Dick, uma história de tesouro, em que o objetivo é destuir a baleia, mas percebemos algo estranho: o tal monstro é bondoso, enquanto o capitão e a tripulação são maus e desequilibrados. Essas histórias podem continuar com um Self forte presente durante toda a história, mas há uma sensação incômoda de que o mundo está se corrompendo e que o Self é apenas um deus distante.
- Histórias sentimentais em que o Ego não consegue se livrar do Self - São histórias em que o protagonista é egoísta e termina egoísta. Frequentemente, o autor se imagina vivendo as aventuras fantásticas, mas o autor é egoísta e não quer passar por uma transformação interna, não quer abandonar seu egoísmo. Aí se imagina se tornando rico, poderoso, casado com uma mulher importante e bonita, sendo admirado.
Quando o Ego começou a dominar as histórias, havia ainda resquícios dos valores do Self. Mesmo que os autores imaginassem felicidades terrenas que satisfaçam seu Ego, eles percebiam no fundo que eram vazias, vaidades. É por isso que nessas primeiras histórias o protagonista não termina feliz. O final pode ser mais sombrio, com ele sendo morto violentamente pelo mal que ele mesmo causou. A punição demora, mas não tarda.
- Histórias sentimentais vazias - São histórias apenas de fantasia, mas com o Self sem força para afirmar seus valores. O protagonista não é necessariamente mau ou egoísta, mas não passa por uma transformação verdadeira. Um caso simples é de histórias que não passam de um sonho como Alice no País das Maravilhas.
- Histórias sentimentais do Ego - Há histórias em que o Self desapareceu e seus valores não existem, mas além disso o Ego é quem dita a história. BOOKER chama isso de "inversão sombria". Frequentemente, são histórias "ideológicas", o sentido de não se querer fazer uma boa história, mas sim fazer uma história para agradar seus próprios sonhos, ideologias e teorias.
O Ego não consegue (facilmente) dizer que é bom viver uma vida egoísta, de luxos, de sensualidade, então ele cria uma narrativa como uma máscara para tais sonhos.
Vejamos as histórias de James Bond. São histórias de fantasia, de alguém se imaginando como um super espião, salvando o mundo, vencendo seus inimigos perversos, e salvando mulheres bonitas. Agir pelo interesse de sua nação contra um inimigo terrível é apenas um disfarce para o Ego se imaginar agindo de forma violenta para resolver facilmente seus problemas; a gratidão dessas mulheres bonitas em serem salvas mascara o mero desejo de se relacionar com mulheres que são apenas bonitas, mas sem nenhuma profundidade; e depois o herói não precisa amadurecer, não é promovido, mas pode permanecer em um estado de certa infantilidade, de obediência, visão estreita, prazeres.
Mas há histórias muito piores. Vou citar a história horrível The misfortunes of Virtue - Justine do marquês de Sade. Nela, a mulher que se torna prostituta, faz vários crime e mata o marido termina bem, enquanto uma mulher boa que evita cometer crimes ou imoralidades passa por todo tipo de abuso e injustiça. Nessa história, o Ego nem se esforça tanto em se justificar, talvez apenas se limite a dizer que o mundo é assim.
Uma pista de que o Ego está apenas se autojustificando é que a história apenas tenta dar uma justificativa para apresentar violência brutal e para se alongar em cenas de sexo - se quebra o limite do obsceno (obsceno é aquilo que não deve ser mostrado "em cena", mas apenas pressuposto). Quando percebemos uma violência exagerada, mesmo por parte do vilão, podemos começar a desconfiar que há um propósito de apenas justificar a exibição dessa violência e não uma preocupação com a sua moralidade. Também, quando há muito sexo explícito, podemos perceber que em parte é uma pornografia apenas disfarçada, apenas justificada. Como apontei, esses exageros podem não estragar a obra, mas indicam um Ego tomando lugar. Note: mesmo se o abuso for cometido pelo vilão, isso pode ser feito apenas para acobertar o desejo do Ego.
Talvez outra pista seja vermos a vida dos autores. Quando pessoas equilibradas escrevem histórias, as histórias tendem a ser mais equilibradas. Mas sabemos que tanto hoje quanto no passado havia pessoas com problemas psicológicos, frustrações, perversões, escrevendo histórias e muitas vezes usavam as histórias para expressar suas fantasias ou sua visão de como o mundo deveria ser. Podemos tentar ver se autores antigos foram internados em hospitais psiquiátricos ou se tinham alguma perversão, podemos ver hoje se o autor se envolveu com alguma seita estranha.
Outra pista, ainda, é ao notarmos quais mudanças o autor introduz ao fazer uma adaptação. As mudanças se explicam por uma necessidade de adaptação (algo em teatro pode não ficar bom no cinema, por exemplo; algo foi cortado ou simplificado para a história ser mais curta ou mais infantil) ou foi uma mudança causada pela visão de mundo do autor? Se foi o último caso, afeta o simbolismo envolvido na história?
2. Os 7 tipos de história
Devemos criar dois sub-grupos. 4 histórias são próximas e tratam do amadurecimento "normal". As outras 3 são muito particulares e trabalham com certos desvios ou particularidades.
As primeiras quatro se diferenciam pela ênfase em determinado elemento: monstro; transformação/sucessão; viagem; e tesouro. As outras 3 histórias são: comédia, tragédia e história de renascimento.
Devo também fazer um alerta de que todos esses 7 tipos de históris possuem interrelações. Há histórias que são mistas, por assim dizer; mesmo não sendo mista, uma história pode ter elemento de outras de forma secundária.
2.1. Derrotar o monstro
As histórias podem ter monstros "menores" que devem ser vencidos pelos heróis em suas jornadas, porém existem histórias em que existe um monstro principal, o "chefão", que ameaça a vida de todos desde o início. Nas histórias de derrotar o monstro, toda a trama tem como objetivo vencer esse monstro para se conseguir trazer paz à terra sob sua sombra.
O monstro é um símbolo clássico do Ego. Esse monstro pode ser um tirano que tomou o lugar do rei justo anterior; pode ser um monstro que raptou a princesa e que rouba os tesouros e os animais da população.
Esse monstro costuma exercer certos efeitos, mas não é obrigatório:
- Gera uma atmosfera de medo, de impossibilidade de crescimento e mudança sobre um local.
- Impede o ciclo da vida, seja sequestrando a princesa, seja causando algum mal ao rei.
- O monstro guarda um tesouro, que pode ser a própria princesa ou também algum item mágico ou valioso. Significa que o herói que o derrotou se mostrou digno para ter acesso a esse tesouro e usá-lo para o bem.
O monstro costuma ser descrito não como um ser humano completo, mas com alguma deformidade, com comportamentos animalescos, traços selvagens. Isso significa justamente que ele não é um modelo de amadurecimento, mas é alguém mal formado, mal educado. Pode ser que seja um monstro literal, mas pode ser um ser humano com tais traços.
Exemplos de monstros: gigantes, bruxas, ogros, quimeras, minotauro, ciclopes, serpentes gigantes, dragão, medusa.
O monstro age por vários meios, como usando a força bruta, mas também veneno, poderes mágicos, manipulação, armadilhas. Tomemos o tipo de monstro mais clássico, que é uma criatura forte e violenta, representando o masculino sombrio. O herói está em certa desvantagem, pois o monstro é mais forte, mais ardiloso, traiçoeiro, então como herói pode ser capaz de vencê-lo? Frequentemente, o herói recebe ajuda de animais, deuses, podendo receber alguma arma mágica, por exemplo; isso representa ou forças inconscientes ou uma espécie de iniciação - os mais velhos ajuda mos mais novos a amadurecer de forma saudável.
Também há outra explicação para a vitória: o monstro mesmo sendo poderoso, tem um ponto fraco. Frequentemente, esse ponto fraco se relaciona com uma "cegueira do monstro", que é uma cegueira do Ego. O Ego pode achar que é tão poderoso que ele brinca com o herói; ou pode achar que seu poder gera tanto medo que ninguém o poderia trair; ou pode depender de certa arma ou armadura; ou pode achar que sua armadura é invencível, mas desconhece que ela tem uma fraqueza. No fundo, significa que o Ego que se tornou arrogante se torna vulnerável. Em certas histórias, o monstro é vencido por ser solitário, enquanto há um grupo de heróis com habilidades complementares. É importante que as histórias, sobretudo as mais complexas, tentem trabalhar bem essa fraqueza do monstro - o monstro deve ser apresentado como arrogante, pode até zombar do herói por depender de amigos ou por ouvir conselhos.
Há monstros que não são tão fortes, mas usam da astúcia, e aí o monstro é facilmente derrotado desde que o herói consiga se libertar das mentiras. O importante não é o herói se tornar forte para vencer o monstro, mas sim se tornar mais sábio, com uma visão mais compreensiva das coisas.
2.2. Transformação/sucessão
Obs.: BOOKER se refere a essas histórias como de "trapos" para "rico", ou seja, de transformação do herói; e também diz que são histórias que tratam do amadurecimento de forma mais central. Eu considero que o melhor seria chamar tais histórias de histórias de sucessão, mas trabalharei com os dois conceitos.
Como história de transformação, enfatiza-se a mudança entre dois estados de vida:
- No começo, o herói tem uma vida de pobreza, sendo humilhado e zombado. Mas ele é digno, no sentido da "abertura ao feminino" (ou, se for uma heroína, ela é feminina), o que nos gera empatia por ele. Para enfatizar esse estado, o herói pode ter irmãos ou colegas que zombam dele (irmãos-sombra) ou mesmo a comunidade e os adultos de modo geral. Pode ter algum dos pais ou amigo que lhe dá força. Esse herói é bondoso, mas isso lhe basta - ele pode precisar de alguma força ou meios ou mesmo de reconhecimento.
- No início, o herói tinha uma bondade inocente em meio a uma situação de pobreza e humildade. Ao longo da história, ele provou que não é preciso nascer com privilégios para ser um ser humano completo, maduro. Sua bondade foi provada e já não é inocente, mas consciente. Ele já é consciente de sua própria dignidade e de seu potencial, e já é aceito. Ele revelou sua origem e superou qualquer desentendimento por conta disso. Agora, há a cena de "transformação", em que ele aparece pela primeira vez em roupas que refletem seu interior belo.
Vale a pena apontar duas histórias desse tipo, uma de heroína e outra de herói.
- Heroína - Cinderela é uma pessoa bondosa que passa por pobreza e humilhação, mas mantém suas virtudes femininas. Mas ela não consegue superar seu estado sozinha. Vem o convite do baile, e Cinderela recebe ajudas de forças inconscientes (animais, fada madrinha) e vai sendo reconhecida por quem realmente é no baile - em que suas roupas belas refletem seu interior belo, mas não basta que ela seja admirada em suas roupas belas; é preciso que ela seja reconhecida mesmo em sua vida humilde, mesmo depois da madrasta quebrar o último par do sapatinho de cristal.
- Herói - Aladdin é um menino pobre, mas de bom coração. É levado a tomar uma lâmpada mágica que lhe concede três desejos. Aladdin usa os desejos para tentar se mostrar em uma boa aparência (condizente com sua bondade) e se aproximar da princesa. Ele acaba desmascarado e precisa provar que não é digno pela sua aparência, mas continua digno mesmo pobre, mesmo sem a ajuda mágica do gênio. Depois ele consegue se casar com a princesa e suceder.
Notemos que essa transformação só é válida realmente se ela condiz com o interior, e não é suficiente se o protagonista é indigno. É por isso que frequentemente o herói mesmo digno e mesmo tendo passado pela transformação deve voltar ao estado inicial de pobreza e humildade para se provar uma segunda vez e ser reconhecido mesmo nesse estado. Se o importante é o interior, por que a aparência importa? Pois sentimos que a aparência deve refletir o interior de alguma forma (é por isso que o monstro é animalesco ou a bruxa é feia), mas também pois o mundo da superfície depender muito da aparência, mesmo que ela não seja suficiente.
Esse tipo de história tem um impacto muito interessante, pois significa que independente da origem uma pessoa pode ser excepcional, uma princesa, um príncipe, um super-herói. A cena de transformação é um gatilho bem forte para atrair a atenção do público, pois nós sabemos que a aparência significa algo.
Por que eu considero que essa história na verdade não é de transformação, mas de sucessão? Eu acredito que falar de sucessão nos ajuda a entender melhor a história. A transformação chama atenção para a mudança exterior (ainda que seja acompanhada por certo amadurecimento interior, por certa provação), enquanto eu falar de sucessão ajuda a entender o todo da história.
As histórias de sucessão começam com algum tipo de crise sucessória: a princesa Jasmine rejeita todos os pretendentes; o príncipe em Cinderela está procurando uma princesa digna; o rei pode estar doente e querer escolher um sucessor entre seus filhos. Às vezes não há tanta ênfase nessa crise sucessória, como na história do Patinho Feio, mas ainda vemos basicamente um personagem nobre, digno, ainda que imaturo, em um meio impróprio; e sua jornada é para chegar a um lugar ou posto condizente.
De qualquer forma, mesmo em histórias em que a crise sucessória não é tão evidente, a história ganharia muito simbolicamente se houvesse mais ênfase - por exemplo, na história do Patinho Feio, falar dos seus pais que perderam o filho que poderia ser destinado por uma profecia a se casar com a mais bela cisne.
O ponto é que a crise sucessória pode até fazer parte do ciclo da vida - pois não é incomum que haja um atrito na mudança entre gerações. Mas a crise ocorre em parte porque é preciso fazer um rearranjo da situação: é preciso que a princesa se torne rainha e o príncipe se torne rei; é preciso que encontrem um par digno, e pode ser que seja difícil encontrar alguém digno. É nessa situação que o herói deve se provar digno, e superar as dificuldades da pobreza e da humilhação apenas enfatizam que ele é signo, que ele se sobressai em qualquer meio, que ele não depende de título ou roupas.
[Também poderia haver uma crise sucessória pelo herdeiro prioritário não ser digno, e daí viria uma história em que ele precisa provar seu valor.]
2.3. Tesouro
No original, seriam histórias de busca, de missão, mas acho que soam estranho, então chamo de histórias de tesouro.
Esse tesouro pode ser uma terra, como na viagem dos israelitas do Egito para a Terra Prometida.
Eventualmente, apesar de BOOKER não focar nisso, poderíamos pensar que a princesa pode ser o tesouro.
Numa variação, podemos dizer que O Senhor dos Anéis é uma história de busca/tesouro. Seria paradoxal chamar de história de tesouro, pois na verdade não há tesouro. A busca nessa história é meio diferente, pois consiste em destruir algo, mas a estrutura é semelhante às outras histórias de tesouro.
Há uma semelhança na história de tesouro com a história de derrotar o monstro, pois nas duas toda a jornada possui um objetivo bastante específico, que afeta as decisões dos heróis, que os guia, que os motiva. A diferença é que o monstro é negativo (é o Ego, que deve ser combatido, destruído), enquanto o tesour é positivo (simboliza o Self, que deve ser conquistado, recuperado). [Nesse sentido, o Senhor dos Anéis pode se aproximar da história de monstro.]
Eu defendo que esse tesouro pode ser até algo superior ao Self; algo transcendente. É por isso que muitas vezes nas histórias de tesouro vemos homens adultos em um grupo; muitas vezes são homens maduros, completos, até reis, mas eles buscam algo superior.
Aqui vale a pena falar de histórias com grupos de heróis. Na verdade, o grupo pode ser uma multidão indiferenciada (como o povo de Israel), ou pode ser composto por pessoas com habilidades diferentes e complementares (como um grupo de RPG), mas mesmo um grupo com pessoas semelhantes e diferenças menores de personalidade. Outro grupo interessante é aquele em que há qualidades opostas (não só complementares) como Dom Quixote e Sancho Pança, em que o importante não é a complementariedade, mas que as qualidades de um reforcem a do outro.
Note que nesse tipo de história (e no próximo), há um mundo bem maior. O tesouro pode estar escondido em terras distantes e desconhecidas; pode ser preciso procurar por pistas, por mapas, conhecer povos diferentes e lendas complementares. Podem encontrar pessoas amigáveis no caminho, podem encontrar tentações, podem encontrar monstros menores.
Pode ser (e seria bem interessante) se o tesouro estiver escondido no mundo "abaixo da superfície" (lembrando: não é necessariamente um mundo subterrâneo). Podemos citar aqui uma possível história dos três reis magos. Eles encontram o que buscavam - o Filho de Deus - numa casa humilde, numa manjedoura, o que significa um certo mundo "abaixo da superfície" - pois a superfície seria um palácio como de Herodes.
Complementando, Campbell se refere a esse tesouro como o "elixir", tendo um significado mais gnóstico, inclusive. Em geral, esse tesouro/elixir se relaciona com a renovação da vida, podendo ser uma galinha de ouro (que garanta riqueza ao lar do herói), um objeto encantado que traz chuvas para um local assolado pela chuva ou mesmo um novo lar. Às vezes o tesouro também não é para o herói ou o povo diretamente, mas pode ser um presente para o rei - e o rei, em troca, poderia conceder a mão de sua filha, por exemplo.
1.5. Viagem
No original, são histórias de viagem "e retorno", mas eu acho que é suficiente falar só em viagem. É verdade que nesses casos frequentemente há um objetivo de voltar para casa. O retorno tem certa importância, que é o herói voltar e se perceber mudado pela experiência, também o retorno tem significado de lar, de final verdadeiro, de volta ao mundo "real", embora seja possível que algum herói não volte (o que geralmente é um final ruim, mas pode ser bom se bem trabalhado).
A história de viagem também envolve um mundo maior, como a história de tesouro. A diferença principal é que na história de viagem não há um objetivo claro e explícito. Muitas vezes, o objetivo é realmente voltar para casa, mas pode ser simplesmente sobreviver ao mundo desconhecido, ou pode envolver várias sub-tramas. Há grande liberdade da história seguir rumos inesperados, justamente por faltar um objetivo tão claro.
Em geral, essas histórias começam com um personagem no mundo "normal", acima da superfície, mas que é preguiçoso, acomodado, fraco de algum modo. Ele pode ser forçado à viagem ou pode querer se aventurar, mas ele ainda é imaturo, egoísta, acomodado, e a viagem o leva para um local onde ele passará por desafios.
Talvez a transformação mais importante nesse tipo de história decorre do contato com o diferente. O herói começa a história com crenças erradas, com um ar até de superioridade, superestimando a si mesmo. Mas pode ter companheiros de culturas diferentes, habilidades diferentes, perspectivas diferentes. Pode ter que se adaptar a regras culturais estranhas, aprender habilidades que antes desprezava. Sua mente é forçada a se abrir também. Essa história é a mais apta a trabalhar com essa virtude da compreensão.
Nós, leitores ou expectadores, também normalmente somos atraídos por esse mundo maior ao ler essas histórias. Mesmo não sendo história de viagem, Star Wars atraiu muitos por apresentar planetas diferentes, costumes diferentes, espécies diferentes. Estamos mais abertos a sermos surpreendidos, e gostamos disso.
Vale dizer que nessas histórias é comum e até natural haver um começo em que o herói e nós-leitores, nos sentimos perdidos, sem saber o que está acontecendo, o que é uma sensação um tanto ruim, mas é um sentimento normal, que pode se associar com mudanças na vida das pessoas, como ao deixar a escola e ir para a vida adulta, muito mais aberta. Mas também é importante que essas histórias não fiquem só num mundo louco, mas tenha uma ordem interna, uma organização que vamos entendendo melhor com o tempo. O herói termina conseguindo dominar esse mundo novo, o que significa que ele amadureceu e pode retornar para casa.
Geralmente, essa história não termina com uma união com o sexo oposto, pois a ênfase é outra. Também não há um grande monstro a ser vencido. O Self é muito difuso nessa história.
1.6. Comédia
Definir a comédia é bastante difícil, mas acho útil apontar para o seguinte: a comédia se dividiu em histórias de amor e histórias engraçadas, mas não se confunde com elas: a comédia não é necessariamente engraçada, e nem necessariamente é uma história de amor.
Desde a Grécia Antiga, se identificou que a comédia possui um elemento central: o "reconhecimento" (anagnorisis): um personagem é levado a descobrir algo importante sobre si mesmo. Há, assim, uma mudança da ignorância para o conhecimento. Exemplo: descobrir que está apaixonado, descobrir que o outro está apaixonado, descobrir que tem um vício que é igual ou pior ao dos outros a quem critica, descobrir que uma briga foi um mal entendido.
Parte do efeito cômico vem do público conhecer a situação de forma mais ou menos completa, enquanto os personagens não. O público logo reconhece quem está apaixonado, ou qual a fonte do desentendimento, por exemplo.
O reconhecimento é também a solução para o problema da história. Na comédia, em regra o mal não precisa ser destruído; basta que olhe para si mesmo ou compreenda o que realmente aconteceu. Assim, a comédia não precisa ser violenta e não costuma enfatizar sentimentos negativos. A comédia é uma oportunidade para o próprio público olhar para si mesmo, para suas próprias contradições, ou para as contradições dos outros sem se preocupar em ensinar uma lição. Assim, a comédia nasceu se prestando para denunciar problemas dos grandes, que em outras situações não poderiam ser criticados.
A comédia é uma história que mais tende a trabalhar com o conceito de mundo superior e mundo inferior, mas são mundos muito unidos. O mundo superior é das aparências, muitas vezes dos pais, dos governantes, dos planos, da rigidez, dos interesses. O mundo inferior é o mundo do que realmente acontece, do amor verdadeiro, dos filhos, dos servos. No mundo superior, estão os personagens ignorantes, autocentrados, cegos, que se recusam a ouvir. No mundo inferior, estão os personagens que percebem os reais problemas, mas têm dificuldade de resolver o problema de forma direta, no mundo superior, então realizam armadilhas e métodos indiretos (que fazem parte do efeito cômico).
A comédia se associou muito a histórias de amor, mas há outro tipo de história comum: aquela que gira em torno do personagem tentando descobrir a própria identidade ou escondendo da própria identidade ou com alguma outra questão ligada à sua identidade (como tendo um irmão gêmeo).
A comédia de amor se tornou muito comum, talvez por dois elementos: primeiro, pelo próprio amor como sentimento e como consequência da individualidade; e depois pela figura sombra: o pai. Na comédia de amor, é frequente haver um pai querendo casar a filha com alguém, mas a filha não gosta dessa pessoa. Toda a história é para o pai reconhecer que está agindo de forma exagerada. Quando começou a aparecer o triângulo amoroso, muitas vezes um pretendente tenta se aproximar da moça pelo pai enquanto o outro tenta conquistá-la de verdade.
A comédia costuma envolver muito elementos de engano: personagens se passando por outros, ou escondidos, ou interpretando errado alguma ação ou palavra. Esse engano pode até assumir proporções absurdas como vários pares coincidentemente se confundindo, e esses absurdos são aceitos pelo público ao saberem que estão vendo uma comédia. O disfarce muitas vezes significa a mudança entre o mundo da superfície e o mundo abaixo da superfície.
A comédia precisa equilibrar seriedade e humor. O humor faz mais parte do efeito cômico, mas a seriedade é necessária também, primeiro para não haver um mundo completamente maluco e sem regras. Na verdade, há um mundo sério (superior) e um mundo mais descontraído e autêntico (inferior). Na verdade, o humor é, de certa forma, temporário, no sentido de ser consequência de uma situação temporária: existe um mundo real e sério, mas nele há um desentendimento. Esse desentendimento inevitavelmente será corrigido, então é temporário, mas a comédia narra justamente esse período em que o desentendimento, a confusão, existe.
2.6. Tragédia
Eu já estudei um pouco sobre a tragédia e eu teria bastante a acrescentar ao que BOOKER descreve, mas vou tentar me ater à linha de pensamento dele.
A tragédia tem um tom mais sombrio, não de sentimentos negativos, mas também mostra a ascensão do Ego, mas a tragédia não é uma história sombria, no sentido de nela os valores do Self prevalecerem norteando toda a história. Desde o começo sabemos que o errado é errado e não passará impune.
A tragédia é a história da queda, da corrupção. É a história de um personagem sendo dominado pelo seu egoísmo e se tornando um monstro. Ele começa como um personagem mais bom que mau, mas vai caindo de tentação em tentação e se tornando mau. De alguma forma, ele tem sucessos em suas maldades, mas esses sucessos são sempre parciais, nunca são satisfatórios, sempre o levam para mais tentações. No final, o herói se tornou um monstro, um tirano. E, como um monstro, precisa ser derrotado, destruído. Ao menos essa é a estrutura clássica, da história cada vez mais sombria, e do herói trágico se enrolando cada vez mais em suas próprias mentiras.
Mas há variações, como em Rei Lear, em que a tragédia é também a história de uma queda, com o rei cada vez piorando em sua loucura, mas ao mesmo tempo vemos um lento processo de sofrimento expiatório, em que o culpado vai se curando pelo sofrimento, mas incapaz de resolver a situação.
Outra variação é aquela em que o herói ainda que egoísta não se torna um monstro, como na história de Ícaro, que quer voar muito alto, ao ponto das asas de cera derreterem.
A tragédia é um alerta para como o Ego é autodestrutivo, em como corrompe até os melhores, em como suas promessas de liberdade são falsas.
2.7. Renascimento
Existem, a rigor, duas histórias de renascimento, grosso modo a versão feminina e a versão masculina.
- A versão feminina parece mais uma história de sucessão. A heroína não se torna sombria, mas é paralisada pela força sombria, como a Branca de Neve e a Bela Adormecida. Para ela acordar/renascer, é preciso do animus, que tem a força dinâmica capaz de libertá-la.
- A versão masculina é mais complexa e será a que abordarei abaixo.
Vimos que a tragédia é uma história de um personagem se corrompendo, da ascensão do mal. Mesmo em alguma hipótese em que ele se arrependa, ele ainda precisa ser destruído para tentar corrigir seus erros. Mas é possível que seu arrependimento seja eficaz, e aí vem a história de renascimento: nela, o herói é ou se torna egocêntrico, mas há um ponto em que ele muda, em que ele desperta, renasce, e gradualmente vai lutando para se tornar um personagem luminoso, frequentemente com ajuda a anima.
A história de renascimento parece ser uma fusão da comédia com a tragédia. Da comédia, vem um ambiente de mais esperança e da possibilidade de corrigir os erros pelo reconhecimento. Frequentemente, é preciso que os personagens tenham o reconhecimento de algo - como reconhecerem que amaram outro personagem.
Uma história de renascimento é A Bela e a Fera, em que o príncipe egoísta foi amaldiçoado e vai piorando até encontrar Bela. A Fera precisa que ela o ame, e no processo há um momento em que a Fera é forçada a reconhecer que ama Bela. Mais tarde, é Bela que passa pelo reconhecimento de que ama a Fera.
É frequente que seja o amor a força capaz de curar. O personagem egocêntrico vive preso em um mundo em que não acredita no amor, em que não acredita que não haja interesse. Ser amado de verdade o faz perceber que há algo muito mais valioso do que seus interesses mesquinhos.
Outra história de renascimento é o Cântico de Natal, do velho Scrooge, que é forçado a reconhecer que tem uma vida vazia e que o lhe falta é o amor, no caso, de uma pessoa que ele vê como seu filho, mas que tem desprezado e ignorado.
Finalizando essa parte, devo lembrar que esses 7 tipos de enredo não são exclusivos; ou seja, uma história pode ter mais de um enredo principal - além de conter elementos de outro tipo que não mudam o tipo de história.
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