Héroi de Mil Faces (Campbell) - crítica
Terminei de ler o livro O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell. O livro é citado quando se analisa histórias e filmes de aventura, para se observar o desenvolvimento do personagem durante sua jornada. Aponta-se que Campbell apresentou uma estrutura comum a várias histórias e que permite ajudar a analisar uma história. Chamamos essa estrutura comum de Monomito ou jornada do herói. Posteriormente, outros autores apresentaram seus modelos que são variantes da estrutura de Campbell. O autor analisou os mitos de várias culturas, além de fábulas, para seu livro.
Devo começar dizendo que aquilo que li na internet sobre o livro não é muito preciso e ignora certos elementos do livro. Talvez usem informações de outros autores ou de outros escritos de Campbell.
Desde o prólogo, pude notar que o autor teve forte influência da psicanálise mais jungiana (pelo pouco que conheço de psicologia) e de elementos gnósticos.
Como não sou gnóstico, vou acabar me afastando de certos elementos gnósticos do livro. Esses elementos são importantes para certas histórias, mas eu não colocaria como regra de interpretação em geral. Campbell me criticaria, pois ele veria o mecanismo gnóstico como a ferramenta correta para a psicologia e mitos, enquanto eu não. Em outra postagem, posso tentar fazer outra análise da gnose no livro. Nos resumos pela internet sobre o livro, geralmente não há referências a esse elemento gnóstico.
O livro não é escrito como se quisesse apresentar de forma clara os conceitos trabalhados, muitas vezes apresentando um exemplo para ilustrar o conceito sem delimitá-lo.
A tese de Campbell é que o mito contém elementos que fornecem um modelo de processo psicológico ou espiritual de adaptação, crescimento. Há uma relação próxima entre o mito e o sonho, pois são símbolos de processos internos, e entre o mito e ritos religiosos, pois ambos indicam modelos preparatórios para mudanças na vida.
O monomito de Campbell
Pois bem, na verdade, o monomito de Campbell contém elementos que podem estar ou não presentes, e que alguns elementos são opostos entre si, mas que podem estar presentes na mesma história. A estrutura é o seguinte:
a) O herói vive no mundo quotidiano, geralmente sendo alguém habilidoso ou estimado. Ele terá um chamado à aventura, geralmente após cometer um erro (na verdade, um desejo escondido) que o fará entrar em contato com algo que não é do mundo normal. Fala-se aqui do arauto, que é uma manifestação do mundo misterioso e que irá chamar o herói. O chamado pode ser tanto uma promessa de algo bom quanto a ameaça de algo ruim acontecer se o herói não for. O arauto não precisa ser uma pessoa, podendo ser uma profecia, um animal, um fenômeno, um objeto. O arauto costuma ser uma figura repugnante (como um sapo) ou misterioso.
Exemplos (por mim): Hagrid chama Harry Potter para estudar em Hogwarts, a fada madrinha aparece para Cinderela.
Em seguida, o herói reage ao chamado. Campbell coloca que pode recusar ou precisar de ajuda para seguir o chamado.
b) Recusa do chamado - muitas vezes o herói não aceita o chamado. Isso leva a dois desenrolares, mas sempre o herói começa a sofrer por sua recusa. Ele se sente tédio por seu mundo e parece viver uma vida sem sentido. Caso ele insista, ele caminha para sua desintegração, para um estado de petrificação, imobilidade (precisando ser resgatado para a história continuar; pode acontecer com um personagem secundário da história também). O herói também pode acabar aceitando o chamado [muitas vezes sendo forçado].
Exemplos: Marlin em Procurando Nemo tem uma atitude de recusa ao chamado; neste caso ele é forçado à aventura pelo desenrolar da história. Um outro caso é o da Fera (A Bela e a Fera), que se nega a dar abrigo à velha e é amaldiçoado - note que o encantamento tem um prazo, e, findo o prazo, a Fera e os criados serão condenados a permanecerem para sempre em seu estado. Simba, após a morte do pai, foge do reino (recusa o chamado) e vive uma vida de prazeres sem sentido até ser resgatado por Nala.
c) Auxílio sobrenatural - Ao aceitarem a aventura, os heróis costumam contar com a ajuda de uma figura protetora que irá dar a eles conselhos, armas, amuletos etc. que os ajudem na aventura. Indica a força benévola do destino para ajudar o personagem a seguir seu caminho.
Exemplos: fadas madrinhas em diversas histórias, o dragão Mushu e o treinamento marcial em Mulan (animação). Obi Wan também ao ajudar Luke (Star Wars).
Eu chamo atenção para o fato de que as histórias modernas costumam colocar um traidor para a história ter uma reviravolta no final. Muitas vezes o traidor é o próprio mestre ou protetor do herói. Simbolicamente eu não acho uma boa opção, mas é uma opção ainda assim.
d) O herói ainda está no mundo conhecido, dentro das fronteiras de sua cidade ou tribo, ainda no mundo dos homens. Ele precisa passar pelo primeiro limiar, que é a fronteira entre o mundo quotidiano e o mundo misterioso. Muitas vezes, o limiar é guardado por seres maus ou ambíguos. O herói pode negociar, enganá-los, derrotá-los etc.
Exemplos: Ariel (A pequena sereia) é mandada para a superfície, Luke vai para o espaço na Millenium Falcon, Harry Potter embarca no trem para Hogwarts.
e) O ventre da baleia - Esse é um dos capítulos em que Campbell não explica o significado exato do termo. Mas é a morte simbólica do herói para os humanos normais quando o herói é engolido pela baleia. Na verdade, o herói sobrevive e irá viver sua aventura dentro da baleia. Ele irá sair da baleia e retornar ao mundo normal como um novo homem (fala-se aí de ciclo de morte e renascimento).
Exemplos: Em Piratas do Caribe III, os piratas precisam resgatar Jack Sparrow do baú de David Jones, e, para isso, precisam ir até o fim do mundo e cair da borda do mundo, aí há a morte simbólica deles (a morte simbólica de Jack foi com o Kraken), mas irão sobreviver e começar a aventura. Outro exemplo: quando Mulan deixa os pais para se alistar, ela é simbolicamente morta para a vida antiga, não podendo usar o nome antigo e nem voltar para casa e os familiares não têm esperança que ela retorne.
Em seguida, o herói está propriamente na aventura, no mundo mágico, encantado, sobrenatural, profundo.
f) O herói passa por provações. É desafiado, ameaçado, mas supera os desafios com a ajuda que recebeu antes.
Muito comum em várias histórias: Harry Potter e seus amigos usam os conhecimentos, feitiços e habilidades para alcançarem a pedra filosofal; o Capitão América derrota os inimigos graças ao soro do supersoldado.
Agora também é uma parte complicada. O herói passou pelas provações e irá obter a recompensa. Há várias opções que Cambell cita: o casamento, a sintonia com o pai e a apoteose. Há outro elemento no meio caso haja o casamento.
g) O encontro com a deusa - O herói busca a deusa que é símbolo da perfeição e das bênçãos que o herói busca. Pela influência psicanalítica, Campbell associa com a figura materna de uma forma ou de outra. Mesmo se na história for a irmã, a noiva, a filha, ainda simboliza a mãe - no aspecto mitológico, a própria mãe-terra. A deusa pode conter elementos positivos da mãe (afeto) como também os negativos (superprotetora, dominadora, ausente).
Mas basicamente, é a busca pelo feminino. É a busca do herói pelo amor, não tanto pela glória. Ainda assim, a figura da deusa nos remete ao feminino que é poderoso, digno.
Exemplos: Sayori de os Cavaleiros do Zodíaco, creio que possamos ver Elsa de Frozen assim também.
h) A mulher como tentação - É um elemento que pode estar presente após o encontro com a deusa. É a realização da agonia de Édipo. Para entender isso, precisamos dar um passo para trás. Parece que o ciclo do herói de Campbell leva o herói a se identificar com o pai. É ele assumindo ou herdando a posição do pai, mas também uma espécie de processo de busca de perfeição. Um dos meios disso acontecer no mito é por intermédio da figura feminina. O herói conquista a deusa, mas logo depois ele se choca por ela simbolizar a carne, o pecado, a tentação. Esse choque, a decepção, irá impulsionar o herói para continuar a história (ou o herói será destruído). Especialmente para a jornada mais espiritual do herói, a matéria pode ser negativa.
Esse elemento pode estar no meio da aventura também, se afastado de Édipo e aumentando o significado da tentação da matéria.
i) A sintonia com o pai - A figura feminina serve de intermediário entre o herói e a figura paterna. O pai é aterrorizador para a criança lidar diretamente. Em certo momento, a criança precisa se afastar da mãe, da casa, para aprender o ofício do pai, o que exige transformar sua relação com as imagens masculinas. Ele precisa mudar de criança para adulto, e o mito ilustra essa passagem.
No fim da aventura, o herói percebe que o pai não é tão terrível quanto pensava inicialmente e percebe o significado de tudo, entrando em sintonia com o pai.
j) Apoteose é o momento em que o herói é divinizado. Para Campbell, o significado desse momento no mito é profundo: o herói renasce como um ser iluminado, completo. Ele é divinizado pela ação do pai, que se torna também sua "mãe", já que o fez renascer nesse estado. Na vida social, que o faz renascer como adulto hábil para os deveres adultos.
k) A bênção última - Campbell, em sua influência gnóstica, precisa reconhecer que os deuses não são os seres realmente poderosos, mas no máximo guardiões desse poder. O herói deseja o poder último, que é guardado pelos deuses, mas que é maior do que eles. Para isso, o herói precisa normalmente se mostrar digno, porém também pode enganar, roubar, matar o deus.
Exemplos: a galinha dos ovos de ouro de João e o pé de feijão, o poder de descongelar o reino em Frozen.
Após completar sua missão, o herói deve retornar ao mundo quotidiano. Mas ele pode recusar, ou ser forçado ou ser chamado pelo mundo. Pode, ainda, ser o emissário dos deuses, ou seja, ser enviado dos deuses de volta.
l) O herói recusa. Há diversos motivos. O herói está satisfeito no mundo misterioso, pois o venceu. Ele teme voltar ao mundo comum, em que seria mal compreendido. O mundo comum também é desafiador, ou é corrupto.
Exemplo: Ripchip nas Crônicas de Nárnia, Peter Pan.
m) A fuga mágica - caso o herói tenha roubado a bênção, matado os guardião, ou os deuses não queiram que ele retorne, ele passará dificuldades para voltar para casa. Muitas vezes terá que fugir sendo perseguido pelos seres sobrenatuais, e terá que usar objetos e poderes, além de armar ciladas e enganos.
Exemplo: de certa forma, Aladin após pegar a lâmpada mágica. João e o pé de fejião também foge do gigante.
n) Resgate com auxílio externo - O herói não quer retornar, mas é chamado pelo mundo. Lembramos que o mundo vê seu estado como semelhante à morte. Ele pode insistir em não ser resgatado e ainda assim ser resgatado pelo mundo.
o) Passagem pelo limiar do retorno - O herói cruza a fronteira de volta ao mundo quotidiano. Muitas vezes ele preserva os poderes que obteve antes, mas é comum ele perder por um erro.
p) Senhor dos dois mundos - Caso não frequente do herói que tem a liberdade de transitar entre os dois mundos sem contaminar um com o outro.
q) Liberdade para viver - O herói que retornou lidera um mundo novo com a bênção conquistada.
Conclusão
O livro tem grande importância para a discussão da jornada do herói, em se conseguir identificar elementos comuns às histórias, sejam fábulas, mitos ou sonhos. Conhecer o livro é importante para quem deseja compreender melhor essa estrutura de transformação do herói e sua comunidade em uma história.
Dito isso, não é possível que eu me esquive de apontar elementos negativos ou certas imperfeições. Campbell identificou esses elementos, mas é possível que haja outros elementos não identificados; ou seja, sua lista não é exaustiva necessariamente. Outro problema é que nem sempre o autor define com precisão dos elementos. E aponto ainda a presença de elementos gnósticos no livro.
Os resumos sofrem a influência dos pontos positivos e negativos que apontei. Elogiam o trabalho, apontam trabalhos semelhantes. Não explicam muito bem todos os elementos da história. A maioria não menciona os elementos gnósticos, em parte por não compreendê-los em sua dimensão, em parte porque eles não são tão necessários quando o monomito de Campbell é aplicado às histórias atuais como filmes.
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