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Mostrando postagens de agosto, 2021

A mulher no tempo das catedrais

      A historiadora Regine Pernoud tem vários livros bons sobre a Idade Média, como o livro sobre mitos da Idade Média. Gostaria de falar de outro livro: "A mulher no tempo das catedrais".     Qual é o tempo das catedrais? Podemos dizer que é a Idade Média, porém também poderíamos ser mais precisos e dizer que foi mais ou menos nos séculos XI ao XIII. Se não fosse nessas datas, poderíamos citar outras mulheres que o livro não cita, então saiba qual a proposta do livro.     Também, introdutoriamente, gostaria que evitemos a confusão entre Idade Média e Idade Moderna. Muitas das críticas à Idade Média são, na verdade, críticas à Idade Moderna e ao final da Idade Média. Mas Pernoud irá ajudar a explicar isso no livro que resumirei. Introdução     O livro é dividido em 3 partes: antes do tempo das catedrais, durante e depois. Pernoud situa a idade feudal entre o século X e o final do XIII. O objetivo da autora é mostrar mulheres que foram tão in...

Idade Média: da era das trevas ao ápice do medievo

      Trataremos da transição entre o que chamei de era das trevas até a era de ouro da Idade Média. A era das trevas foi marcada pela anarquia feudal, pelo clero se desmoralizando e excessivamente preocupado com os bens materiais, pela invasão dos vikings, pelos castelos e os feudos. O auge da Idade Média terá também inúmeros elementos importantes: as universidades, as cidades medievais e as guildas, as catedrais, a cultura da corte e o cavalheirismo, os grandes tratados da escolástica, a monarquia feudal.     Especialmente aqui, gostaria de mencionar que a Itália passa por um processo um pouco diferente. A Itália manteve a vida urbana romana e não foi propriamente feudal e não irá sofrer muitas das influências de França e Alemanha. Reforma de Cluny / Reforma da Igreja do século XI     Aviso: É conhecida como reforma de Cluny, mas Cluny não era o único centro importante. Mencionamos também Brogne,  Görze  e Camaldoti.     A Igreja ...

Idade Média: a era das trevas, parte 2 - fragmentação e unidade

      Poderíamos chamar a situação política da Europa durante as invasões vikings como anarquia feudal (com períodos de exceção). O rei perdeu seu poder e autoridade, e cada líder local - o senhor feudal - exercia a função de governo em seu território. E não estavam apenas brigando contra os vikings, como também brigavam entre si.     Vemos aqui o feudalismo em um sentido mais puro. O feudalismo tinha precedentes antes. Já falamos que houve uma soma do guerreiro bárbaro leal ao seu chefe com o servo romano ligado à terra que ocorria ao longo do tempo. Mesmo os reis francos permitindo esse tipo de relação pessoal que poderia ser perigosa para a unidade do império, ainda houve certo receio em usar essa instituição. Carlos Magno usou ao máximo o costume merovíngio de dar terras aos funcionários públicos que exerciam a justiça em nome do rei, garantiam o respeito, controlavam duques militares, supervisionavam condes e o clero. Os duques e condes não recebiam as terr...

Idade Média: a era das trevas, parte 1 - Os vikings

      Ao falar de Era das Trevas, estou me referindo aos séculos IX e X, não a toda a Idade Média. Vou resumir a explicação de porque foi um período complicado: o poder político ficou descentralizado, sem os reis conseguirem exercer sua autoridade; a Igreja estava em uma crise moral; e os vikings estavam realizando vários ataques por toda a Europa, inclusive destruindo mosteiros, que eram o centro cultural da época.     Sempre que possível, eu uso algumas datas para separar períodos, mas em história muitas vezes as mudanças são graduais, então é difícil estabelecer uma data precisa. É por isso que estou usando os séculos para definir o período, mesmo que não sejam tão precisos.     Gostaria também de apontar que existiram reis carolíngios durante a Era Viking, mas eles ficaram bem apagados na história e acabaram sendo substituídos por reis mais fortes.      Vamos ao texto:          Vimos que o Ocidente se reergue...

Idade Média: a conversão dos francos e a era Carolíngia

      Vimos que a queda do Império Romano do Ocidente desestabilizou o Ocidente. Os povos bárbaros vinham ocupando a Europa séculos antes da tomada de Roma. Muitos desses bárbaros aderiram ao arianismo e eram muito hostis aos católicos. Mesmo assim, sobretudo entre os bárbaros que se instalaram dentro das fronteiras romanas com a anuência do império, os monges estavam se espalhando e iniciaram o processo de recuperação da infraestrutura e assumiram a preservação da cultura no norte da Itália.     Os católicos perceberam que era muito difícil converter os bárbaros arianos (cristãos que negavam a divindade de Jesus), então voltaram seus esforços para os bárbaros pagãos. Dentre eles, se destacava Clóvis (466-511), o rei dos francos. Resumindo uma história muito interessante, Clóvis se converteu ao catolicismo. Ainda demorará para os bárbaros interiorizarem o Evangelho, porém esse foi um passo importante que deu esperança aos cristãos.      Clóvis foi...

Da Idade Antiga à Idade Média (parte 2)

     Vamos aprofundar alguns pontos da última publicação. O monasticismo ocidental     Uma das instituições mais importantes do Ocidente medieval foram os mosteiros. Eles serão o principal centro cultural até o século XII e também são uma instituição ocidental. Há algo próximo nos monges budistas, mas estes disputavam a importância com a educação confucionista.     O monasticismo cristão (modo de vida dos monges) surgiu no Oriente (me refiro, grosso modo, ao território do Império Romano do Oriente, o que inclui Grécia e Oriente Médio, por exemplo), com os monges do deserto . Estes monges adotavam um estilo de vida solitário em renúncia à honra, prazer, riquezas, família, sociedade. Os monges foram as principais testemunhas cristãs após a época dos mártires. Seu modo de vida teve seguidores também no Ocidente.     No Ocidente, o monasticismo sofreu grandes transformações: a) Santo Agostinho de Hipona foi monge e combinou a vida monástica e o s...

Da Idade Antiga à Idade Média (parte 1)

      A narrativa tradicional descreve assim a transição: Existia o Império Romano do Ocidente, que entrou em declínio por problemas internos e externos. Roma foi tomada pelos bárbaros que vinham conseguindo adentrar o império. Essa invasão deu fim ao Império Romano do Ocidente. A civilização só seria retomada séculos depois, tendo como marco a conversão do rei dos francos.     Essa explicação tem pontos mais ou menos corretos. Proponho aprofundar o processo.     Antes, é preciso notar que a forma de se contar a história depende da visão de mundo. Uma forma de ver o processo histórico é que o império nasce, cresce até uma era de ouro, depois vai se corrompendo e se enfraquecendo até sua queda. Essa narrativa não se preocupa com a continuidade da cultura, mas sim com a descontinuidade após a queda. É importante nos atentarmos nos dois aspectos: no que sobreviveu ao fim de uma civilização e o que foi perdido.     Vou começar com Constantino (27...

Idade Média - uma visão geral

    Eu tenho recentemente lido alguns livros de história e um dos meus interesses é a Idade Média. Farei algumas postagens para compartilhar um pouco do que li, sendo esta a primeira delas, em que gostaria de introduzir o assunto.     É difícil introduzir o assunto, porque o termo "Idade Média" foi criado querendo diminuir esse período, e jogaram muitos eventos diferentes nesse grupo. Vamos comparar que a Idade Moderna vai de 1453 a 1789 (336 anos), enquanto a Idade Média engloba 977 anos (476 a 1453), quase mil anos.     Aqui, vou começar apresentando 2 divisões didáticas da Idade Média. Uma é a divisão por períodos (temporal) e a outra é por locais (espacial). A divisão temporal usa datas relativas à França, tendo alguma variação nos outros locais.     Pois bem, dito isso, vou dividir a Idade Média em grandes períodos com uma função didática (não gosto da divisão em Alta Idade Média e Baixa Idade Média, porque é muito imprecisa). Esses períodos ...

Dica cultural: Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba)

      Até o momento, Kimetsu no Yaiba é um anime com uma temporada e um filme. Eu considero um excelente anime de aventura e ação para jovens.     Sem spoilers, a história trata de Tanjiro, que se tornou caçador de demônios ("Onis"/demônios são mais ou menos como vampiros). Dar mais detalhes poderia inclusive prejudicar o primeiro episódio, então não vou falar mais.     Eu gosto bastante desse anime porque ele se saiu muito bem em tudo. Não digo que é uma proposta revolucionária de anime, mas o que o faz se sobressair é que ele faz tudo muito bem: a) O enredo é  bom - não diria que é um enredo cheio de reviravoltas, com histórias complexas e impensadas, que ninguém conseguiria imaginar algo semelhante. Ele contém muitos elementos comuns a outras histórias, mas ele liga esses elementos de uma forma muito bem feita, e conta a história de forma coerente, conseguindo equilibrar tensão, comédia, ação, horror. O anime não perde tempo com episódios desne...