Idade Média: a conversão dos francos e a era Carolíngia
Vimos que a queda do Império Romano do Ocidente desestabilizou o Ocidente. Os povos bárbaros vinham ocupando a Europa séculos antes da tomada de Roma. Muitos desses bárbaros aderiram ao arianismo e eram muito hostis aos católicos. Mesmo assim, sobretudo entre os bárbaros que se instalaram dentro das fronteiras romanas com a anuência do império, os monges estavam se espalhando e iniciaram o processo de recuperação da infraestrutura e assumiram a preservação da cultura no norte da Itália.
Os católicos perceberam que era muito difícil converter os bárbaros arianos (cristãos que negavam a divindade de Jesus), então voltaram seus esforços para os bárbaros pagãos. Dentre eles, se destacava Clóvis (466-511), o rei dos francos. Resumindo uma história muito interessante, Clóvis se converteu ao catolicismo. Ainda demorará para os bárbaros interiorizarem o Evangelho, porém esse foi um passo importante que deu esperança aos cristãos.
Clóvis foi um rei que conseguiu unificar os bárbaros da atual França, mas ainda havia guerras contra muçulmanos da Península Ibérica que vinham avançando e contra bárbaros à leste. A dinastia de Clóvis (dinastia merovíngia) acabou tendo reis fracos, que não tinham poder real. Uma grande conquista militar se deveu a Carlos Martel (690-741), que conseguiu a vitória contra os muçulmanos que impediu seu avanço (Batalha de Poitiers em 732). Ele era o responsável pela administração do reino e foi sucedido pelo filho, Pepino, Breve.
A figura pessoal do rei era muito importante na época, então o depor poderia fragmentar o reino. O elemento de legitimação foi a Igreja, que conseguiu manter a tradição da lealdade ao rei. O apoio da Igreja também significava maior proximidade do rei. Notemos que nada na história é tão simples: Carlos Martel e Pepino, ao expandirem o reino, tomaram as terras dos monastérios para recompensarem seus guerreiros. Mesmo assim, eles foram historicamente aliados das reformas eclesiásticas e foram importantes para possibilitar o trabalho missionário.
Vamos aproveitar para falar de São Bonifácio, "o apóstolo dos alemães", que saiu da Grã-Bretanha para evangelizar os povos germânicos. Foi ele que assegurou o apoio dos filhos de Carlos Martel e que, inclusive, coroou Pepino como rei dos francos em 752, representando o papa. São Bonifácio garantiu a união entre o reino dos francos e a Igreja e também trouxe um modelo de abadias diferente do que existia no continente: era um complexo de edificações, igrejas, ateliês, armazéns, escritórios, escolas, oficinas e asilos, abrigando uma grande população de dependentes, trabalhadores e servos - muito mais complexa do que os monastérios anteriores. São Bonifácio propunha várias reformas para a Igreja na época e teve muitos sucessos - a única coisa que não conseguiu foi conseguir que os bispos ficassem diretamente subordinados ao papa: na prática, ficaram subordinados aos reis, o que facilitaria a corrupção do clero no futuro.
O grande nome da dinastia carolíngia (cujo nome vem de Carlos Martel) foi Carlos Magno (reinado de 768 a 814), que fez florescer a cultura cristã. Ele tanto conseguia apreciar as possibilidades quanto tinha o poder para realizar as mudanças. Colocou na sua corte os homens mais cultos da época e realizou um programa de reforma da educação clerical. Fala-se de "Renascença Carolíngia" por isso. É verdade, que Carlos Magno se ocupou mais de realizações educacionais, não literárias ou filosóficas, mas elas serviram de base para uma força progressiva. Houve a reforma da escrita (criação das minúsculas carolíngias e o espaço entre palavras, que ajudaram muito a ler os textos) e da liturgia, além de fomentar a coleção e cópia de manuscritos (muitos manuscritos foram perdidos até então; os que sobreviveram datam do século IX). Carlos Magno queria que todas as dioceses tivessem escolas diocesanas, o que não foi perfeitamente cumprido, mas levou a muitas escolas serem criadas. Inclusive, Teodulfo, abade de Fleury, pediu para se ensinar sem exigir pagamento.
Carlos Magno conseguiu expandir muito as fronteiras, se aproximando das antigas fronteiras do Império Romano do Ocidente. Enquanto isso, o papado, que sempre contava com a proteção do Império Bizantino, encontrou-se sem apoio contra os lombardos, pois os bizantinos estavam ocupados com os muçulmanos. O papa pediu a proteção de Carlos Magno, que protegeu Roma. Pouco tempo depois, foi reconhecido como imperador.
O império de Carlos Magno era essencialmente teocrático, unindo fortemente Estado e Igreja. O rei devia ser coroado pela Igreja e se comprometer a ser servo de Deus, guardião da justiça e protetor do povo. A união entre Igreja e Estado levará a conflitos entre os dois tentando definir suas funções e prerrogativas (pois, mesmo unidos, não são idênticos, nem um é exatamente subordinado ao outro).
O filho de Carlos Magno foi Luís, o Piedoso, (reinado de 814-840) que manteve as conquistas do pai e o apoio à cultura. Existia um costume de dividir o território entre os filhos, mas isso não tinha sido relevante até então pelos reis anteriores não terem tido vários filhos herdeiros. Houve várias tentativas de dividir o império entre os filhos. A rigor, o Império seria dado a um dos filhos, mas os outros seriam reis de grandes territórios e subordinados ao irmão imperador. Ocorre que, depois da morte de Luís, os filhos brigam entre si. Encurtando a história, o título de imperador fica para o território mais ou menos equivalente à Itália. O irmãos irmãos que ficam, grosso modo, com a França e a Alemanha conseguem afirmar que não seriam subordinados ao imperador, ou seja, o império ficou dividido em 3.
Depois disso, tudo desanda. Os irmãos passam muito tempo brigando entre si, os bispos ficam cada vez mais envolvidos com o poder estatal, os vassalos ficam descontentes com os reis e os vikings começam a invadir a Europa. Mas isso é tema de outra postagem.
Hoje, vimos como a situação após a queda de Roma foi desordenada até o reino dos francos conseguir afirmar sua supremacia. O reino dos francos foi forte aliado da Igreja e chegou ao seu auge estabelecendo uma grande unidade na Europa e uma restauração da cultura. Contudo, acabou se fragmentando. Mas alerto: mesmo que houvesse união entre Estado e Igreja, a divisão do Império não significou o fim da cristandade. Mesmo politicamente dividida, a Europa ficará unida culturalmente e religiosamente ao longo de toda a Idade Média.
Leituras usadas/recomendadas
- Criação do Ocidente de Christopher Dawson
- Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental de Thomas Woods Jr.
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