Idade Média - uma visão geral
Eu tenho recentemente lido alguns livros de história e um dos meus interesses é a Idade Média. Farei algumas postagens para compartilhar um pouco do que li, sendo esta a primeira delas, em que gostaria de introduzir o assunto.
É difícil introduzir o assunto, porque o termo "Idade Média" foi criado querendo diminuir esse período, e jogaram muitos eventos diferentes nesse grupo. Vamos comparar que a Idade Moderna vai de 1453 a 1789 (336 anos), enquanto a Idade Média engloba 977 anos (476 a 1453), quase mil anos.
Aqui, vou começar apresentando 2 divisões didáticas da Idade Média. Uma é a divisão por períodos (temporal) e a outra é por locais (espacial). A divisão temporal usa datas relativas à França, tendo alguma variação nos outros locais.
Pois bem, dito isso, vou dividir a Idade Média em grandes períodos com uma função didática (não gosto da divisão em Alta Idade Média e Baixa Idade Média, porque é muito imprecisa). Esses períodos têm uma unidade, que é a construção da civilização ocidental, tendo momentos de crise que são superados por reformas.
Primeiro Período - Idade Média precoce, era bárbara (séc. V ao VIII) - A Idade Média começa com a invasão de Roma em 476, no contexto da migração dos povos bárbaros (ou primeira invasão bárbara). A capital não será destruída, e terá reis depois dessa invasão, mas é um momento simbólico que mostra o que o Império Romano do Ocidente não tem força e unidade o suficiente para se manter como império. Na época, as pessoas ainda se viam como pertencentes ao Império Romano e as bases do feudalismo nascente tinham precedentes no direito romano (depois aprofundo isso). Os bárbaros que estavam se instalando na Europa muitas vezes firmavam acordos com Roma para viverem em um território romano. A falta do poder de Roma e os conflitos entre bárbaros levou a um período um tanto anárquico, marcado por guerras entre os povos bárbaros. Um dos povos bárbaros irá conseguir unir a Europa: os francos. Eu marco o fim do primeiro período com a ascensão de Carlos Magno.
Essa época foi marcada pelos monges se espalhando pela Europa, sob a regra de São Bento.
Segundo período / "Era carolíngia" (séc. VIII e IX) - é a época em que a Europa estava unida sob o rei dos francos, Carlos Magno. Ele receberá o título de imperador também e realizará diversas reformas políticas, sociais, religiosas, culturais. Fala-se em "Renascimento Carolíngio". Aqui já podemos ver uma nova civilização surgindo.
O costume na época era o rei dividir o reino entre seus filhos (um deles tendo o título de imperador), e isso dividiu o império na época dos netos de Carlos Magno, pois os irmãos se recusaram a obedecer ao irmão imperador. A falta de uma liderança forte e unida levou a conflitos entre os irmãos e seus descendentes. A situação chegou ao extremo com o as invasões normandas (ou invasões vikings ou segunda onda das invasões bárbaras). Os vikings atacavam por toda a Europa e fugiam antes do rei conseguir chegar. A solução encontrada foi o fortalecimento do poder local para lidar com essas ameaças sem necessidade do rei.
Terceiro período - Anarquia feudal, era viking (séc. IX e X, talvez XI) (eu talvez incluiria no período anterior, mas, a rigor é um período de transição) - O poder local se fortalecia enquanto o rei perdia seu prestígio por não conseguir proteger o território e pelo desgaste nas guerras entre os carolíngios. Os reis carolíngios acabaram sendo apenas chefes locais, tendo algum prestígio maior por serem reis, mas sem poder real. Foi um período bastante caótico, sem unidade, com muitas guerras internas e saques pelos vikings. Enquanto isso, a Igreja passava por um momento de crise, vivendo o "saeculum obscurum" (904-963; há divergências quanto ao período). Se há uma época para se chamar de Idade das Trevas, é esse momento.
Essa é a época dos castelos e da arte românica. Vale dizer que o castelo dessa época não é o castelo de contos de fadas, cheios de janelas e jardins gigantes. Muitas vezes eram do tamanho de uma casa grande, só que fortificada. Não podia ter janelas grandes pois iria enfraquecer a estrutura. Parecem mais com os castelos de Mount and Blade, por exemplo.
Quarto período (séc. XI ao XIII) - As invasões vikings param (por diversas razões) e os reis (não mais carolíngios) conseguem reafirmar seu poder. Há um momento de relativa calma, sobretudo em relação ao período anterior. Nesse momento é que veremos o auge (se podemos assim dizer) da Idade Média. A Igreja passa por uma reforma que se inicia nas abadias (a mais conhecida é Cluny) e conseguem chegar até o papado. No período, há grandes reis, como São Luís de França, havendo o que poderíamos chamar de monarquia feudal (não uma anarquia feudal). É a era das cidades (havia cidades antes, mas agora elas florescem e se tornam o centro cultural), das guildas, das catedrais, da escolástica, das universidades, das cruzadas. É a era em que surge a cultura da corte, em que se consegue efetivamente harmonizar o cavaleiro como guerreiro e como cristão.
Quinto período - Idade Média tardia (séc. XIV) - O último período é muito curioso. O poder secular (dos reis, não da Igreja) fica muito forte e ameaça a Igreja, que sofria muito com o Cativeiro de Avignon (o rei da França elege um papa, e este muda a sede do papado para Avignon, na França, onde é influenciado pelo referido rei) e o Cisma do Ocidente (o cativeiro de Avignon levou a conflitos internos na Igreja até o ponto de haver três pessoas reivindicando o título de papa, e isso dividiu a cristandade também). Eu diria que é nesse momento que vemos o nascimento do absolutismo, em que o rei concentra tanto poder que não há mais uma monarquia feudal, mas absolutista. É a época da crise da escolástica com o nominalismo de Ockham. É a época em que ressurgem fortes heresias e é a época em que a peste negra chega na Europa com consequências nefastas para a sociedade.
Ao mesmo tempo em que há esse desequilíbrio, essa crise no Ocidente, também é a época em que surgem as ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos), que terão uma força de reforma e revitalização da sociedade, da cultura, da Igreja.
Eu não encerraria esse período na queda do Império Romano do Oriente (depois explico mais sobre isso), mas, talvez, na chamada Reforma Protestante (1517) ou no Concílio de Trento (1546-1563).
Pois bem, feita essa divisão temporal, eu acrescentaria mais uma: a divisão espacial. Mas serei bem breve.
A Idade Média como estudamos poderia ser centrada em 4 países/lugares: França, Alemanha, ilhas britânicas e Itália. Além delas, de forma periférica, temos: Península Ibérica, Escandinávia, Império Bizantino, planícies eurasianas, os islâmicos, e a Rússia. Mas normalmente vemos este segundo grupo de forma complementar, sem aprofundar neles.
As ilhas britânicas (especialmente a Grã-Bretanha e a Irlanda), por não pertencerem ao continente, sempre passam por eventos próprios e tiveram um certo isolamento de fatos que ocorriam no continente. Tinha forte relação com a França. Sofreu muito com as invasões vikings. Vale notar também que o absolutismo teve dificuldades no solo inglês, e um elemento importante foi a Magna Carta de 1215, em que os nobres fizeram várias exigências ao rei que limitaram seus poderes por muito tempo.
A Itália também é um caso a parte. Ela foi herdeira direta da Antiguidade desde o início da Idade Média. Lá, por exemplo, sobreviveu a vida urbana, que não foi substituída pela feudal (há cidades nas outras partes da Europa, contudo só na Itália é que a vida urbana era mais importante que a feudal). As cidades tinham forte independência e foram palco de vários conflitos entre os romanos do Ocidente, os romanos do Oriente, os bárbaros, muçulmanos e normandos. A Itália também é que foi o palco do Renascimento, no final da Idade Média.
Agora, França e Alemanha têm maior proximidade na Idade Média. A Alemanha, apesar de conquistada por Carlos Magno, viveu sob uma espécie de monarquia eletiva: os príncipes eleitores votavam no próximo rei. Na prática, muitas vezes o filho sucedia o pai, mas nem sempre. O rei lá sempre contou com poderes locais mais fortes, ainda que o rei tivesse momentos de centralização da força, como com Otão, o grande. Há um forte paralelo nos acontecimentos na França e na Alemanha, mas a Alemanha era independente da França por muito tempo e valeria a pena distinguir os dois, especialmente após a Era Carolíngia.
Pois bem, um último alerta para finalizar a parte geral sobre Idade Média: não confunda Idade Média com Idade Moderna. Eles têm muito em comum, mas também muito de diferente. A Idade Moderna teve surtos de peste bubônica e foi na Idade Moderna que se usou aquela máscara associada à peste negra (sendo que a peste negra é medieval e não moderna). A Idade Moderna tem o rei absolutista, que eu diria que só surgiu no final da Idade Média, não sendo propriamente medieval. Outra coisa que não é propriamente medieval é a inquisição, que surgiu na Idade Média, mas persistiu na Idade Moderna. Na verdade, a Idade Moderna é bem menos moderna (no sentido de atual) do que se pensa.
Comentários
Postar um comentário