Da Idade Antiga à Idade Média (parte 1)
A narrativa tradicional descreve assim a transição: Existia o Império Romano do Ocidente, que entrou em declínio por problemas internos e externos. Roma foi tomada pelos bárbaros que vinham conseguindo adentrar o império. Essa invasão deu fim ao Império Romano do Ocidente. A civilização só seria retomada séculos depois, tendo como marco a conversão do rei dos francos.
Essa explicação tem pontos mais ou menos corretos. Proponho aprofundar o processo.
Antes, é preciso notar que a forma de se contar a história depende da visão de mundo. Uma forma de ver o processo histórico é que o império nasce, cresce até uma era de ouro, depois vai se corrompendo e se enfraquecendo até sua queda. Essa narrativa não se preocupa com a continuidade da cultura, mas sim com a descontinuidade após a queda. É importante nos atentarmos nos dois aspectos: no que sobreviveu ao fim de uma civilização e o que foi perdido.
Vou começar com Constantino (272-337 d.C.), imperador romano. Constantino foi quem decretou que o cristianismo fosse permitido no império no Édito de Milão (313 d.C.). O cristianismo só se tornou a religião oficial em 380, com o Édito de Tessalônica. Tenha em mente que, após 337 (morte de Constantino), o império passou por tentativas de divisão e unificação, mas se dividiu definitivamente em 408 em Império Romano do Ocidente e do Oriente. E o marco fim do primeiro é 476, enquanto o último irá durar mais um milênio.
Na época de Constantino, surgiu a heresia ariana, que negava a divindade de Jesus Cristo. Essa doutrina gerou uma divisão entre os cristãos, e Constantino organizou o Primeiro Concílio de Niceia em 325 para resolver a questão. O arianismo foi condenado, mas manteve seguidores. O arianismo, combatido dentro do Império Romano, conseguiu prosperar entre os povos bárbaros. Quase todos os povos bárbaros foram convertidos ao arianismo e muitos deles foram muito hostis aos cristãos não arianos, como os vândalos.
Falando dos bárbaros, houve a migração dos povos bárbaros entre 300 e 800 d.C.. Há várias explicações, como precisarem migrar porque o mundo estava esfriando, forçando-os a buscarem terras melhores em outro lugar, e por serem pressionados pelo avanço dos hunos (os hunos conseguiram chegar até Paris em 451 e Roma em 452, mas, excepcionalmente, não atacaram essas duas cidades).
Vou usar os hunos para explicar um ponto: existe a planície eurasiana, que vai mais ou menos do centro da Europa até o leste da Ásia. O terreno é plano e de estepes. Havia muitos povos nômades. De vez em quando, algum povo nômade consegue se sobressair e unificar os outros povos, lançando ataques ao longo desse corredor. Penso que os exemplos mais conhecidos são dos hunos (Idade Antiga-Idade Média) e dos mongóis (final da Idade Média), mas houve muitos outros. Esses povos nômades entravam em muitos conflitos contra o Império Romano do Oriente ao longo da Idade Média.
Pois bem, os romanos não estavam conseguindo conter o avanço dos bárbaros e empregaram por séculos a estratégia de aceitar os bárbaros em seu território (pois esses bárbaros não queriam destruir Roma, mas apenas se estabelecer em um local fértil e que oferecesse alguma proteção contra os hunos). Os romanos atribuíam ao rei bárbaro um local para plantar e/ou proteger (como soldados romanos), coexistindo muitas vezes com a população local (na França, por exemplo, os bárbaros francos viviam ao lado dos gauleses romanos), na condição de serem submissos ao Império. Houve um momento (marcantemente, século V), em que os romanos não podiam aceitar mais bárbaros em seu território, gerando uma pressão dos bárbaros de fora tentando invadir (e de bárbaros de dentro tentando proteger as fronteiras). Os bárbaros de fora acabaram conseguindo invadir o império e, como invasores, saquearam, queimaram, matavam, mas acabaram deixando pouco legado. Foram os bárbaros aceitos pelos romanos que terão uma continuidade ao longo da Idade Média.
Os bárbaros estabelecidos no território Romano compreendiam que sua autoridade era delegada pelo Império. Houve bárbaros se revoltando, de fato, mas não era o comum. Com a conquista da cidade de Roma em 476, os bárbaros não procuraram afirmar sua independência, mas se consideravam subordinados a algum sucessor do antigo imperador, inclusive chegando a reconhecer o imperador bizantino como sucessor do Ocidente após a queda do imperador de Roma. Sem a autoridade do imperador se fazendo sentir para resolver os conflitos, os bárbaros brigavam entre si (sem tanto dano à população gaulesa). Na França, foi Clovis, o rei dos francos, que conseguiu vencer os outros, mas ainda se considerando como servo do Império Romano.
O latim foi preservado como língua oficial, e as populações bárbaras e romanas coexistiam em uma mesma sociedade, sem que os bárbaros ficassem limitados a serem soldados e os gauleses se limitassem a plantar, inclusive o rei dispunha mais dos gauleses como funcionários públicos.
Dando mais uma informação: Odoacro, o líder bárbaro que depôs o último imperador do Império Romano do Ocidente, tinha sido mercenário romano que depôs o imperador. Em vez de tentar se assumir como novo imperador, ele enviou um pedido para o Império Romano do Oriente para ser considerado rei e subordinado ao império.
Vimos que é um exagero apontar os bárbaros como grandes inimigos do Império Romano e que houve uma descontinuidade tão grande entre o Império Romano e a Idade Média como se faz pensar. É claro que houve uma quebra, uma instabilidade política, invasões bárbaras, perda de conhecimentos tecnológicos, cidades saqueadas e abandonadas, porém não foi uma simples anarquia em que todo o passado foi perdido.
Vou apontar em seguida as mudanças no cristianismo nesse mesmo período e falar mais da nova sociedade nascente.
Livros usados/recomendados
- Criação do Ocidente, de Christopher Dawson
- L'invasion germanique au Ve siècle, de Fustel de Coulanges
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