Idade Média: a era das trevas, parte 1 - Os vikings
Ao falar de Era das Trevas, estou me referindo aos séculos IX e X, não a toda a Idade Média. Vou resumir a explicação de porque foi um período complicado: o poder político ficou descentralizado, sem os reis conseguirem exercer sua autoridade; a Igreja estava em uma crise moral; e os vikings estavam realizando vários ataques por toda a Europa, inclusive destruindo mosteiros, que eram o centro cultural da época.
Sempre que possível, eu uso algumas datas para separar períodos, mas em história muitas vezes as mudanças são graduais, então é difícil estabelecer uma data precisa. É por isso que estou usando os séculos para definir o período, mesmo que não sejam tão precisos.
Gostaria também de apontar que existiram reis carolíngios durante a Era Viking, mas eles ficaram bem apagados na história e acabaram sendo substituídos por reis mais fortes.
Vamos ao texto:
Vimos que o Ocidente se reergueu após a queda de Roma. O caminho tinha sido preparado pelos monges, mas também dependeu dos francos, que era um dos reinos bárbaros. Contudo, o Império Carolíngio se fragmentou entre brigas dos carolíngios. Enquanto eles brigavam, começaram as incursões nórdicas. Eram povos vindos da Escandinávia, que poderíamos chamar de escandinavos ou nórdicos ou normandos. O termo "viking" se refere ao pirata, ao saqueador. Quando o nórdico estava em sua terra, ele não estava sendo viking, pois não estava saqueando e atacando.
Os vikings eram oportunistas: geralmente se ocupavam de atacar locais indefesos para saquearem, e depois fugiam antes dos exércitos chegarem. Houve ocasiões em que se estabeleceram no local atacado, como ocorreu na Grã-Bretanha, mas o problema não era eles tomarem terras, e sim atacarem furtivamente em todos os lugares, destruindo e roubando. Isso foi possível graças aos seus navios, que conseguiam subir os rios, permitindo acesso ao interior do continente. A Inglaterra foi, talvez, o local mais prejudicado pelos vikings.
Os exércitos dos reis não conseguiam acompanhar a agilidade dos vikings e também estavam ocupados com brigas internas. O caminho que se seguiu naturalmente foi o fortalecimento dos chefes locais. Eles não mais dependeriam dos reis para se protegerem. A Era Viking é também a era dos castelos.
Curiosidade: o que é um castelo? Existe certa disputa de qual a definição de castelo, mas eu definiria como uma casa medieval fortificada que serve para combater o invasor. É uma casa, o que não ocorria tanto na Antiguidade, pois geralmente as fortificações antigas eram acampamentos militares ou bases militares, mas não uma casa de alguém. Os castelos medievais surgiram como casas fortificadas que foram adquirindo mais camadas de proteção e estruturas mais complexas. Havia castelos de madeira, por exemplo, mas, com o tempo, prevaleceram os de pedra. Os primeiros castelos não eram tão grandes e majestosos, mas realmente uma casa fortificada que abrigaria as pessoas da proximidade caso ocorresse um ataque.
Prevalecendo a função estrutural e não estética, os castelos tinham paredes grossas, janelas pequenas (se é que tinha janelas). Sem tanta tecnologia, eram bastante simples arquitetonicamente. Com o tempo eles irão crescer e se tornar centros políticos e culturais relevantes e sua função militar irá diminuir ao ponto de serem substituídos pelos palácios. O palácio já tinha, por exemplo, janelas grandes e muitos adornos.
Os reis passaram bastante tempo sem poder real. Ele recebia o juramento de seus vassalos, mas isso tinha pouca importância prática. Mas foi o rei da França que lá resolveu o problema das invasões bárbaras: Carlos, o simples, negociou com Rolo, líder dos vikings. Rolo disse que cessaria os ataques se tivessem um território para plantar. O rei concedeu a ele a Normandia (no norte da França), fazendo-o duque, e isso resolveu os problemas na França. Na Inglaterra, os ataques continuaram ainda por muitos anos.
Na Germânia, os vikings foram fortemente combatidos após a ascensão do rei Otão I (reinado 962-973). Diferente da França, a região da atual Alemanha tinha o costume de eleger um rei. Lá havia os príncipes eleitores, que continuaram por séculos, inclusive além da Idade Média. Esses príncipes podiam eleger um rei que não era Carolíngio. O primeiro rei não Carolíngio foi Henrique I, pai de Otão. Otão conquistou a Itália, originando o Sacro Império Romano-Germânico (depois, na Idade Média, a Itália irá sair, ficando apenas Sacro Império Germânico). O ataque viking irá recomeçar quando perceberam que o Império se enfraqueceu na derrota de Otão II.
Bom, mais como curiosidade histórica: os vikings atacavam toda a Europa por meios dos rios e mares. Eles, inclusive chegavam até a Itália. Fora da Europa, atacaram a Rússia, a Palestina e teriam chegado até a América. Os vikings tiveram lutas para conquistar partes da Itália, inclusive contra muçulmanos que lutavam para conquistar o sul da Itália.
Na Grã-Bretanha, os vikings conseguiram conquistar territórios e se estabeleceram lá. Notemos que Canuto, escandinavo que se conquistou o trono da Inglaterra em 1016, procurou manter a união entre a Inglaterra e a Escandinávia, além de procurar preservar a cultura ocidental, que já tinha sofrido muito com as invasões vikings. A própria conquista dos vikings serviu para aproximar sua cultura do cristianismo e favoreceu meios de evangelização dos normandos. Conforme a Escandinávia era cristianizada e se organizava em reinos, os ataques vikings cessaram.
No continente, os vikings eram perigosas ameaças aos mosteiros, mas no continente os monastérios sobreviveram (diferente das ilhas britânicas). Na verdade, os monastérios eram destruídos, mas os monges mostraram extraordinário poder de recuperação. Morriam muitos monges, mas os poucos que sobreviviam conseguiam recomeçar do zero e reconstruir toda a tradição monástica: as mesmas regras, a mesma liturgia, os mesmos livros, os mesmos pensamentos.
Qual a importância da Era Viking? Ela reafirmou o caráter guerreiro do Ocidente após uma era mais pacífica. Os bárbaros destruíram a cultura monástica das ilhas britânicas, que haviam inspirado o monasticismo do continente na Era Carolíngia. Os vikings forçaram a Europa a se apoiar nas lideranças locais, nos senhores feudais.
Continuaremos o assunto em outra postagem.
Referências usadas/recomendadas
- A criação do Ocidente, de Christopher Dawson
- vídeos do canal do Youtube do Shadiversity sobre castelos
- Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, de Thomas Woods Jr.
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