Idade Média: da era das trevas ao ápice do medievo
Trataremos da transição entre o que chamei de era das trevas até a era de ouro da Idade Média. A era das trevas foi marcada pela anarquia feudal, pelo clero se desmoralizando e excessivamente preocupado com os bens materiais, pela invasão dos vikings, pelos castelos e os feudos. O auge da Idade Média terá também inúmeros elementos importantes: as universidades, as cidades medievais e as guildas, as catedrais, a cultura da corte e o cavalheirismo, os grandes tratados da escolástica, a monarquia feudal.
Especialmente aqui, gostaria de mencionar que a Itália passa por um processo um pouco diferente. A Itália manteve a vida urbana romana e não foi propriamente feudal e não irá sofrer muitas das influências de França e Alemanha.
Reforma de Cluny / Reforma da Igreja do século XI
Aviso: É conhecida como reforma de Cluny, mas Cluny não era o único centro importante. Mencionamos também Brogne, Görze e Camaldoti.
A Igreja passava por um momento sombrio. Os bispos estavam excessivamente envolvidos com as questões materiais e políticas, e isso também afetava os antigos monastérios carolíngios, que ficavam sob poder desses bispos, que os usavam para recompensar aliados e não para fomentar a vida espiritual e cultural. O papado passava pelos mesmos problemas também, sofrendo influência da nobreza romana, e também com a ação restrita ao jogo de poder local.
Ainda assim, os ideais monásticos não foram perdidos. A abadia de Cluny foi fundada em 910, sendo uma propriedade doada para a abadia, mas essa abadia não ficaria sob a autoridade do bispo, e sim diretamente sob o papa. A terra também não era particularmente rica, de modo que Cluny ficou livre das más influências do mundo e formou gerações de ascetas.
Se houvesse um rei forte como na época de Carlos Magno, dificilmente haveria espaço para Cluny prosperar. E o modelo de Cluny cresceu e inspirou outros locais de vida monástica ascética. Assim como na época dos monges do deserto, os monges começaram a obter poder moral capaz de ter a confiança dos camponeses e de amedrontar até o imperador.
Não foi uma transformação imediata, mas gradual e orgânica. Demorou um século para a reforma monástica atingir a maturidade. Nesse momento, o Império Germânico estava em conflito com Roma. Em 1046, o imperador Henrique III depôs três papas e impôs um bispo alemão. Na época, essa influência do poder temporal ao religioso não era tão mal vista. O novo papa foi Leão IX, fortemente ligado às reformas monásticas, aproximando-as do papado. Com isso, o papado se tornou o centro da reforma com vários papas comprometidos com a melhora da situação da Igreja, querendo eliminar a influência dos reis sobre a Igreja. Com isso também começa a ganhar espaço a ideia de que a Igreja era superior ao Estado.
Nota: eu falo da influência do poder temporal sobre a Igreja. Não significa que a Igreja era totalmente submissa a nobres, reis, imperadores, mas que havia muita força política na condução da Igreja e na escolha do clero. Contudo, não podia o imperador nomear alguém papa pela própria autoridade, e nem ele mesmo ordenar os sacerdotes. O máximo era ele indicar um nome e tentar forçar que fosse validado ou se opor a um nome.
A reforma de Cluny foi eficiente, fazendo a Igreja reafirmar sua importância como centro da cristandade. Surgiu um elaborado sistema de jurisdição, uma burocracia altamente organizada e um organismo de controle centralizado, com funcionários permanentes e supervisionados. Essa estrutura surge em meio a um mundo feudal dividido politicamente e sem organização interna equivalente.
Cavalaria, cruzados e a cultura da corte
A reforma da Igreja não se limitava à vida monástica e ao clero, mas criou uma nova unidade da cristandade que não dependia do império e que tinha um caráter suprapolítico e internacional.
A fé vivificada conseguiu influenciar a relação feudal, entre o suserano e o vassalo. O cavaleiro medieval (especialmente depois do século XI) não era apenas fiel ao seu senhor, mas também, e sobretudo à Igreja. Digo, não apenas ao clero, mas à moral cristã que fazia o cavaleiro jurar que seria defensor da Igreja, da viúva e do órfão. Não era todo cavaleiro um modelo de cristão, mas surgiu um arquétipo, um ideal, do que um cavaleiro deveria ser. Se a vassagem recebeu o espírito guerreiro dos povos germânicos e o laço à terra dos romanos, agora recebeu a fé do cristianismo. A Idade Média é o processo de soma desses três elementos (guerreiro germânico, da antiguidade clássica romana e do cristianismo) até formarem uma unidade coerente.
Mas a unificação do cavaleiro à fé foi mais eficiente com a proclamação das cruzadas. Ao terem um inimigo externo, as forças de união se fortaleceram. A primeira cruzada em 1095 ocorreu em um momento complicado: havia luta entre papado e império germânico, e havia risco de excomunhão tanto para o imperador germânico quanto para os reis da França. Mas eles se uniram na primeira cruzada, que conseguiu sucessos até Antioquia e Jerusalém, derrotando turcos e egípcios, estabelecendo Estados cristãos no caminho. A luta era praticamente dos cristãos do Oriente até então. Nesse contexto também é que surge o templário, o símbolo máximo do cavaleiro cristão.
O maior contato com os árabes também gerou uma influência da cultura islâmica, que trazia também uma tradição da filosofia e da ciência clássica. O contato com os árabes parece ter sido especialmente influente no sul da Itália (que teve muito tempo de conflitos entre cristãos e muçulmanos). Desse contato é que surge a cultura da corte, que é uma espécie de anticruzada, pois leva ao cavaleiro cristão uma cultura mundana e hedonista, que valorizava o amor e a honra, riqueza, liberalidade, beleza, alegria. Havia uma tentativa de síntese e conciliação entre os dois ideias de cavaleiro: o templário, e o cortês.
A cultura da corte foi especialmente difundida por Leonor da Aquitânia, que foi rainha da França e da Inglaterra (Leonor e sua família têm uma história bem interessante. Vou expor mais quando falar do livro "A mulher no tempo das catedrais").
A cidade medieval
Havia cidades na Idade Média desde o começo, desde os tempos do Império Romano. Na Itália, as cidades sempre foram mais presentes, mas no norte as cidades eram poucas; a vida foi se centrando nos feudos.
Após a vida urbana (além da Itália) quase desaparecer no final da era carolíngia, ela começou a renascer no século XII, em um padrão diferente das cidades da Antiguidade (e das cidades modernas). Lembremos que o feudo era um local seguro para o povo, porém ainda assim o homem comum estava sujeito a abusos do senhor, além de ter poucas oportunidades. A cidade representa um meio de superar a vida como servo enquanto preserva suas vantagens. Diferente do mundo antigo, a cidade medieval não girava em torno da escravidão.
As cidades nascentes eram comunidades pacíficas de trabalho, em que o elemento militar era usado para defesa (diferente do feudo, com forte espírito guerreiro em sua existência). O mercador já existia nos séculos X e XI em certas regiões e surgiu baseado na associação voluntária sob proteção religiosa que podemos chamar de fraternidade laica, guilda, reunida para fins sociais e de caridade sob patrocínio de um santo popular. Se associaram logo aos viajantes peregrinos, viajando os dois juntos para maior segurança. A organização dos mercadores foi se tornando mais complexa, se difundiu e adquiriu uma vida independente do feudo na comuna.
A comuna era uma associação de habitantes não necessariamente mercadores unidos para manterem a paz comum, as liberdades comuns e obedecendo aos representantes comuns. Eram independentes, inclusive, do episcopado (dos bispos), mas não era anticlerical, se associando ao movimento de reforma eclesiástica.
As cidades fizeram o medievo se libertar da comunidade baseada na propriedade sobre a terra. Se associam ao aparecimento das universidades e de uma nova ordem religiosa: dos frades, que não se baseava na propriedade de terra. As cidades se baseavam no sistema representativo, que também influenciou o movimento conciliar da Igreja.
As cidades se encaixam no contexto em que a monarquia retorna. Elas ganham com a monarquia o reconhecimento político, embora perdessem a independência política mais completa (não poderiam se tornar nada semelhante a uma cidade-Estado, por exemplo).
A cidade vai assumindo a liderança cultural, antes dos monges e dos feudos. Até o século XII, os monges eram os melhores professores, seja ensinando no monastério, seja ensinando nas escolas diocesanas, seja ensinando na escola do palácio. Vai surgindo mestres de escola inferiores aos monges, mas que vão assumindo papel na cultura e literatura. A cultura da corte também não era de monges.
Na cidade, surge a universidade, em que citamos a de Paris e de Bolonha. Estudantes e professores não estavam mais interessados na educação paciente, sóbria e disciplinada da escola catedral, mas eram impacientes com regras, ambiciosos, desdenhosos do passado. A Universidade de Paris surge como uma corporação de professores e se tornou o modelo para as universidades da França e da Germânia (em outro momento falo da Universidade de Bolonha, mas adianto que surgiu como uma corporação de estudantes que viam os professores mais como empregados do que como mestres).
A universidade servirá como plataforma para avanços científicos posteriores. Mas não eram perfeitas. Também servirão para difusão de superstições, filosofias pagãs. As cidades vão tendo sentimentos conflitantes sobre as universidades, pois ela também tinha estudantes irresponsáveis e indisciplinados que podiam prejudicar a vida social da cidade. A Igreja protegia os estudantes, dando a eles o "benefício do clero": maltratá-los seria um crime grave e os estudantes seriam julgados pelos tribunais eclesiásticos (mais brandos que os tribunais do Estado).
A monarquia feudal
Os reis carolíngios franceses foram reduzidos a meros senhores feudais e a Europa. Eles acabaram substituídos por reis mais aptos, capazes de usar a força e a diplomacia para unificar o território. No Império Germânico, houve imperadores mais fortes e mais fracos, mas a força dos príncipes eleitores era mais persistente do que França e houve momentos em que o Império crescia e conquistava, e outros em que perdia o território.
Com esforço, os reis da França unificaram o território. Creio ser correto notar que essa força de centralização ocorria em conjunto com outras forças já citadas. A ordem moral era reconstruída pela reforma de Cluny e permitia a identificação de valores e esforços comuns (como a proibição de saquearem abadias, aceitas por vários senhores feudais e incentivada pelos reformadores). Também a paz fomentou a atividade comercial, e o surgimento da cultura da corte aumentaram as relações entre cada local. A cristianização da relação entre suserano e vassalo também fortalece o vínculo e facilita que um suserano - o rei - consiga a lealdade militar dos seus vassalos para retomar o reino. Os tempos eram outros e pediam outra organização política; não havia mais vikings forçando os poderes locais a serem independentes; surgiam as cidades, que eram estranhas ao mundo feudal.
Gostaria de indicar o estudo da vida de São Luís de França. É um modelo de rei e de cristão. Creio que sua vida mostra como a monarquia foi benéfica ao homem comum. Conta-se que São Luís
Gostaria de fazer um rápido acréscimo: esse também é o período das catedrais. A arquitetura gótica é extremamente complexa, especialmente se comparada à arquitetura românica precedente. As catedrais góticas são feitos de engenharia impressionantes. Correndo o risco de simplificar excessivamente, elas eram muito altas, sua sustentação era baseada em pilares e arcos, com paredes sem função estruturais (se a parede fosse estrutural, não seria possível ter os vidrais da época. O jogo de forças era bastante complexo, sem as vigas que usamos atualmente.
O século XIII, mesmo com grandes homens, apresentou o arrefecimento da força de integração e unificação. A reforma religiosa e cultural ficou sem líderes, e isso sem uma catástrofe externa. O máximo intelectual da escolástica neste século não conseguiu fundar uma cultura religiosa unitária.
Livros usados e recomendados
- Criação do Ocidente, de Christopher Dawson
- Como a Igreja Católica construiu a civilizão ocidental, de Thomas Woods Jr.
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