Idade Média: a era das trevas, parte 2 - fragmentação e unidade
Poderíamos chamar a situação política da Europa durante as invasões vikings como anarquia feudal (com períodos de exceção). O rei perdeu seu poder e autoridade, e cada líder local - o senhor feudal - exercia a função de governo em seu território. E não estavam apenas brigando contra os vikings, como também brigavam entre si.
Vemos aqui o feudalismo em um sentido mais puro. O feudalismo tinha precedentes antes. Já falamos que houve uma soma do guerreiro bárbaro leal ao seu chefe com o servo romano ligado à terra que ocorria ao longo do tempo. Mesmo os reis francos permitindo esse tipo de relação pessoal que poderia ser perigosa para a unidade do império, ainda houve certo receio em usar essa instituição. Carlos Magno usou ao máximo o costume merovíngio de dar terras aos funcionários públicos que exerciam a justiça em nome do rei, garantiam o respeito, controlavam duques militares, supervisionavam condes e o clero. Os duques e condes não recebiam as terras como hereditárias. Na prática, era comum renovar a concessão aos filhos, mas não era obrigatório. E ainda não eram exatamente uma classe guerreira, mas homens livres encarregados da administração e proteção da província.
Mas o enfraquecimento da monarquia e a necessidade de lidar com os normandos fez os poderes locais se afirmarem como mais independentes. Em especial, cito o capítulo de Quierzy de 877 na França, que garantiu a hereditariedade dos governantes das províncias. Se tornou regra o costume do filho assumir a responsabilidade pelo território do pai.
Como falamos, os senhores feudais foram fortificando castelos. Antes, os reis cuidavam para as fortificações serem mais fiscalizadas e não poderem ser usadas contra eles, mas na Era Viking não podia mais exercer esse controle. Os castelos começavam a surgir para a proteção local. Só depois serão usados pelos reis para assegurar o território como um todo.
A unidade era a noção de cristandade, mas o catolicismo viveu um momento de crise no século X que viria a ser conhecido como "saeculum obscurum", com escândalos dos papas. Os monges, que eram a força viva cultura, sofriam muito com as invasões bárbaras (lembremos: a primeira invasão bárbara era dos chamados bárbaros germânicos; houve outra invasão, que era dos bárbaros normandos, os vikings) e eram muito descentralizados. Outro poder da Igreja eram os bispos, mas eles estavam sujeitos ao poder secular desde antes de Carlos Magno (embora em Carlos Magno a situação tenha se consolidado) e vinham cuidando de muitas funções de Estado e acabaram se despreocupando com as questões religiosas. Faltava uma força viva que aproveitasse a unidade cristã para uma renovação. E a Idade Média não foi um período de revoluções e golpes, mas de reformas e restauração após várias crises.
A renovação ocorrerá novamente graças aos monges, mas a uma nova forma de organização monástica que tem como grande representante a abadia de Cluny. Cluny foi fundada no meio da era das trevas, em 910. Guilherme, duque da Aquitânia (região da França) doou terras para um mosteiro que não estaria sob poder laico, mas diretamente subordinada a Roma. Não tinha grandes riquezas sendo deixada de lado e sem interferência dos poderes seculares. Cluny estará germinando por vários anos uma potência espiritual formidável, que será tema de outra postagem.
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