Caso para discussão: Jenny

Trecho extraído do livro Garota fora do jogo, de Rachel Simmons. O livro trata da discussão do "bullying" feminino, trazendo vários casos de meninas entrevistadas pela autora, e apresentando características.

Simmons conversou com várias meninas de várias escolas. Para incentivar a discussão do assunto, ela traz perguntas interessantes. Uma primeira pergunta que pode introduzir a conversa é: "Meninos e meninas são maldosos de formas diferentes?"

O caso apresentado abaixo é um pouco longo.



O sexto tempo estava para terminar. O estômago de Jenny contraía-se mais a cada clique do relógio de parede. Ela nunca saltava da cadeira quando o sinal tocava. Embora se orgulhasse de suas boas notas, Jenny parava de prestar atenção cinco minutos antes de terminar a aula. Mesmo assim, às 13:58 seu coração disparava. Às 13:59 ela estava ofegante.

Por trás dos cabelos castanhos lisos, ela observava as colegas se levantarem. Como sempre, ela fingia moleza e preocupação. Remexia na carteira, fazendo barulho com os lápis em sua fria atmosfera metálica, ganhando tempo. Num segundo, ela estaria livre para sair da sala.

Desde que Jenny chegara de San Diego, fazia dois meses, a panelinha das meninas populares da Mason Middle School havia decidido duas coisas: primeiro, que ela era uma séria ameaça ao seu status e, segundo, que iriam tornar a vida de Jenny um inferno.

Ela havia se mudado relutante, junto com a família, para a pequena comunidade de fazendeiros de Wyoming, quatro dias antes do término da sexta série. Em San Diego, Jenny tinha frequentado uma escola enorme na cidade, e suas amigas eram quase todas mexicanas. Ela falava espanhol fluentemente e gostava do calor e da amizade típicos da cultura mexicana. Ela nunca se incomodou por ser uma das únicas alunas brancas da escola.

Dizer que as coisas eram diferentes na Mason era eufemismo. Havia oitocentas pessoas brancas em toda a cidade. Todos sabiam da vida de todos, e gente de fora não era bem recebida. Portanto, para Brianna e Mackenzie, não significava nada a família inteira de Jenny ter se criado bem ali em Mason. Mesmo que Jenny passasse as férias de verão dirigindo tratores pelos campos da sua família com o avô, vereador da cidade, ela poderia muito bem ter nascido numa nave espacial.

Brianna e Mackenzie eram as abelhas rainhas e reinavam sobre a sexta série. Brianna era a mais bonita e Mackenzie, a melhor esportista. O hobby preferido das duas era arrumar namorado. Jenny não estava interessada em namorados, mas gostava de estar com os meninos. Principalmente, ela gostava de jogar futebol e basquete com eles depois das aulas. Ela preferia vestir jeans e camiseta a usar maquiagem e minissaias.

Ela mal se havia apresentado quando Brianna e Mackenzie lhe deram um codinome e começaram a chamá-la de Harriet, a Piranha Cabeluda. Elas contaram para todo mundo que Jenny ficava se agarrando com os meninos no bosque atrás do campo de futebol. Jenny sabia que ser chamada de piranha era a pior coisa do mundo, não importa onde você vivesse. Ninguém beijava ainda. Era a maior humilhação de todas.

Briana e Mackenzie tinham fundado um clube chamado Ódio a Harriet, a Piranha Sociedade Anônima. Elas conseguiram a adesão de todas as meninas, menos duas, que não se interessaram. Todas deveriam passar por Jenny no corredor e dizer “Hiiiii...” Elas davam um longo suspiro para ter certeza de que ela sabia que estavam pronunciando as iniciais do clube: HHHI (Hate Harriet the Hore Incorporated). Em geral, duas ou mais meninas faziam isso e depois se olhavam e riam. Às vezes, nem conseguiam chegar ao final, de tanto que riam.

Então, Brianna teve a ideia de esbarrar em Jenny nos corredores. As outras imitaram. Todas as vezes que ela mudava de sala, uma menina lhe dava um encontrão, jogando seus livros e, às vezes, até a própria Jenny no chão. Se alguém estivesse olhando, elas fingiam ter sido acidental. Mesmo pequena para sua idade, com um metro e meio de altura apenas, ela resolveu começar a empurrar as outras primeiro, achando que elas iam parar. Elas não pararam. Ela acabou cheia de manchas roxas, com folhas de redação faltando e uma extraordinária capacidade para prever quando a sineta soaria. Não tinha nenhuma professora no corredor para ver o que estava acontecendo.

Ela procurou não dar muita importância nos primeiros dias, mas, no final de semana, Jenny ardia de medo e constrangimento. O que tinha feito? Era como se de repente o objetivo da vida de Mackenzie e Brianna fosse acabar com ela. Nunca havia passado por isso antes. Em San Diego, Jenny tinha três grandes amigas. Mentalmente, ela ouvia a voz do pai: “Se você se esforçar bastante, será capaz de qualquer coisa.” Aquele era seu primeiro fracasso.

A culpa era dela.

Ela sabia que jamais tocara num menino, mas talvez houvesse alguma coisa realmente errada com ela. Havia duas outras meninas novas na sétima série, e elas estavam indo muito bem. Elas se esforçaram para se encaixar, e conseguiram. Elas compravam as mesmas roupas e escutavam as mesmas músicas de todo mundo.

Elas também deixavam que Mackenzie, Brianna e as outras determinassem quem elas seriam. Jenny não queria isso, por preço nenhum. Ela queria continuar dizendo o que pensava. Ela gostava de suas roupas da Califórnia e das blusas mexicanas bordadas. Talvez ela não quisesse se esforçar tanto quanto era preciso quando se está na sétima série. Seu pai tinha razão.

Não demorou muito para Jenny começar a chorar escondido no seu quarto, ao perceber que sua tortura não teria fim. Ela conseguia esperar até terminar de fazer o dever de casa, e aí chorava, sempre em silêncio, os soluços abafados pelo travesseiro. Contar para mãe, nem pensar, para o pai, muito menos. Sentia náuseas só de imaginar em contar aos pais que era tão rejeitada.

Cada dia, era uma batalha sem fim. Ela ficava exausta tentando não chorar, enrijecendo-se contra os ataques no corredor, sentando-se sempre sozinha para almoçar. Não havia mais ninguém de quem ser amiga na sua série porque todas, as poucas que havia, estavam contra ela. Sua prima estava um ano na sua frente, e tinha pena de Jenny. Às vezes, deixava Jenny conversar com sua turminha. De pouco consolo servia elas serem o grupo mais popular da oitava série. De fato, parece que isso irritava ainda mais Brianna e Mackenzie.

Uma noite, a tristeza de Jenny foi maior do que seu medo, e ela pegou o telefone. Jenny ligou para Brianna e Mackenzie, e para mais algumas meninas. Ela perguntou para cada uma delas “por que vocês me odeiam?” Elas negaram tudo. “Mas por que vocês fazem parte do clube Ódio a Harriet, a Piranha?”, ela protestava.

As vozes das meninas eram doces e delicadas. “Não existe nenhum clube Ódio a Harriet, a Piranha!”, cada uma lhe garantiu, como se estivesse lhe dizendo que a terra era redonda. Foram tão amáveis com Jenny que, por algum segundo, ela não acreditou que fossem realmente elas. E ela podia quase sentir o coração saindo do peito. Na manhã seguinte, estava ansiosa para se levantar da cama. Agora as coisas seriam diferentes.

Então, ela foi para a escola.

“Hhhiiii...” Um baque.

Jenny conteve as lágrimas e trincou os dentes. Ela se odiou por ter sido apanhada de surpresa. Devia ter previsto. O estranho, apesar de já estar acostumada, foi que desta vez ela sentiu como se o seu coração estivesse se partindo. Brianna e Mackenzie tinham parecido tão sinceras ao telefone. E a Jenny, a idiota, a boba da Jenny, ela murmurava para si mesma, tinha se imaginado almoçando na mesma mesa com as duas nos fundos da lanchonete. “Idiota, idiota, idiota”, repetia trincando os dentes, erguendo os livros como um escudo para entrar na sua sala.

Um dia, meses depois, procurando nas carteiras depois de ver as meninas passarem pela sala de aula, Jenny encontrou a petição. “Eu, Mackenzie T., prometo Odiar Harriet, a Piranha, para sempre”, estava escrito. Todas as meninas da sala tinham assinado, e junto vinha anexada uma lista das razões pelas quais todas deviam odiá-la. Os olhos de Jenny grudaram na folha de papel até as palavras ficarem borradas. Ela de repente se sentiu tonta. O peso da sua angústia era demasiado. Não suportava mais. Era como se o seu mundo estivesse ruindo. Procurou o diretor.

O sr. William chamou Brianna, Mackenzie e algumas das outras meninas no seu gabinete. Elas passaram semanas olhando fixamente para Jenny, mas não disseram nada. O clube foi oficialmente desfeito.

Jenny lutou durante toda a sétima série sozinha. Como a maldade de suas colegas era quase invisível, nenhum professor havia notado ou intercedido a seu favor. Como era uma aluna nova, era difícil observar alterações no seu comportamento ou caráter. Os pais sabiam que havia alguma coisa errada, mas, se tivessem lhe perguntado como estava indo ..., “Eu lhes teria dito ‘Estou ótima’ “.

O clube não voltou a aparecer e Jenny se adaptou bem nos anos seguintes. Tornou-se capitã do time de softball e presidente do clube da torcida, mas a sua dor se manteve viva e oculta enquanto ela aguardava paciente pela vingança.

 

Brianna, sua principal torturadora, tinha começado a namorar o garoto mais popular de Cheryenne High School na quinta série. Era assim que as coisas funcionavam, disse Jenny. “Você escolhia quem ia namorar aos dez ou onze anos, e namorava até ele sair de Wyoming.” Eric era capitão do time de basquete e de tudo que era importante em Cheyenne. Brianna havia perdido a virgindade com Eric e queria se casar com ele.

A chance de Jenny surgiu no outono do penúltimo ano, quando foi convidada para administrar o time de basquete dos meninos. Logo fez amizade com Eric. “Roubá-lo de Brianna passou a ser a minha meta, e roubei”, Jenny disse. “Sei que não tinha nada a ver com ele. Tudo tinha a ver com tirar o que era importante para ela.” Jenny e Eric namoraram em segredo durante um mês até que ela o fez ligar para Brianna do seu quarto e romper com ela. Eu perguntei a Jenny como havia se sentido.

“Eu me senti vitoriosa. Eu queria esfregar isso na cara dela. Eu me senti realmente bem fazendo ela sofrer”, ela declarou. “É vingativo e é triste, eu sei, mas até hoje eu odeio esta menina e queria magoá-la.” Hoje, Jenny tem 32 anos e não sente vergonha nem remorso, só a raiva que ainda queima em fogo lento, vinte anos depois.



Ideias de discussão:

- Bullying com pessoas de fora: Existem filmes em que isso existe. Pode citar algum?

- É difícil afirmar que continuará sendo quem é se isso te afastar de novos amigos? Como encontrar um equilíbrio entre desprezar tudo o que os outros dizem e os obedecer cegamente?

- Jenny se imaginou almoçando com as agressoras como se fossem novas amigas. Em outros casos da autora isso também acontece. Por que você acha que isso acontece?

- Jenny também quis se vingar depois de tudo ter terminado. É contraditório em um momento ela querer ser amiga das agressoras e depois querer se vingar? O que fez Jenny mudar de postura?

- Como você vê o sentimento de vingança de Jenny? Você acha que ela devia perdoar as agressoras? É difícil perdoar alguém? Esse sentimento é prejudicial?

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