História: entre arte e ciência (parte I)
Eu gosto bastante de história. Falo da disciplina de história. Devo admitir, no entanto, que não foi sempre assim. Eu comecei a gostar de história não pela matéria na escola, mas pelos livros 1808, 1822 e 1898 do Laurentino Gomes. Começava a perceber que a história podia ser contada de outra forma: pela visão das pessoas da época; ou seja, eu poderia "viver" a história pelos seus olhares em vez de tentar ver a história de cima, como uma águia sobrevoando aquela sociedade.
Na faculdade, em tempos que eu recebi bastante influência do liberalismo, comecei a pensar que a sociedade era o conjunto de indivíduos. Se isso era verdade, então estudar a história seria estudar esses indivíduos. É uma aventura histórica que eu ainda não fiz: imagine estudar dezenas de pessoas ilustres de uma época, ver seus hábitos, seus pensamentos, suas influências, seus papéis.
Fui me deparando com livros que mostravam que a história (e a sociedade) não era formada apenas por pessoas, mas também por instituições. Havia uma ordem, padrões, leis, que ditavam a norma dos comportamentos que influenciavam mudanças boas ou más. Foi a época em que li "Por que as nações fracassam", "Império", "Civilização: Ocidente X Oriente". Meu pensamento ainda era liberal, e aquilo ainda fazia sentido, pois o liberalismo trouxe propostas de mudanças institucionais como a democracia, a república. Por que não citar também "Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental"?
Hoje estou com a tendência de - sem desprezar o estudo de pessoas e de instituições - estudar as ideias da época. Às vezes na literatura imaginativa, às vezes na filosofia, às vezes na pregação dos padres. Posso citar um livro mais denso, que é "Politização da Bíblia" e alguns livros de Christopher Dawson. Creio que posso citar também "Cidade Antiga", embora trate mais de religião do que de teologia e filosofia.
Por que dizer isso tudo? Acho que o estudo de história que predomina hoje pode não ser atrativo para todos, e acho também que enfatizá-lo demais empobrece o estudo de história. Falo especialmente da concepção marxista de história que emprega o método materialista dialético. O que significa esse nome complicado?
Materialista - é materialista por desprezar a "superestrutura": as ideias, a mentalidade. Para o materialista histórico, a filosofia, a religião, as ideias políticas são produto dos meios de produção. Essas ideias são uma espécie de excedente e não são fatores históricos verdadeiros. Ao meu ver, é uma visão histórica incorreta, mesmo que possa ajudar a explicar certos fenômenos.
Dialético - a dialética é a oposição. Recentemente, a pessoa que primeiro bem organizou a dialética na história foi Hegel, mas sua dialética era idealista e não materialista. A tese dialética é de que a história avança pelo contronto de opostos (tese + antítese -> síntese). O materialismo dialético foi melhor organizado por Marx, que adotou como motor da história o conflito de classes. Para Marx, é pelo conflito entre classe dominante e classe dominada que a história avança.
O que isso tudo diz sobre o estudo de história? Para o marxismo, o método para estudar história é o seguinte: identificar a classe dominante e a classe dominada e compreender seu conflito com base nas relações materiais. Depois observar como a classe dominada vence a classe dominante e instaura sua sociedade em que se tornará a classe dominante e que terá outra classe dominada (e o conflito será analisado com base nas relações materialista etc.)
Mesmo que você discorde de mim e ache que a visão marxista é a que melhor explica história, ainda não lhe parece uma visão pobre da história? Até uma visão política ou ideológica de como se deve estudar história? Se concorda com isso, não seria legal tentar estudar a história por outra abordagem?
Agora, o meu conselho é o seguinte: se você não gosta de história, talvez não goste de como a história é ensinada. Se quiser realmente começar a estudar história e a gostar de história, que tal começar estudando a história de algo que você goste, como a história militar, a história da ciência, a história das ideias e da filosofia, a história de um país que você ache bacana. Enfim, aventure-se!
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