História: entre arte e ciência (parte II)

    Procure alguém que goste de algo da história: de um país, de uma época, de um personagem. Mas que seja alguém cujos olhos brilhem quando fala do assunto. Peça que lhe conte essa história.

    Dependendo da pessoa, ela não terá tudo o que conhece bem organizado, mas insista um pouco. 

    Normalmente, não gostamos simplesmente de um amontoado de informações dispersas, mas sim daquilo que une essas informações. Por exemplo, alguém que goste de Vargas não gosta simplesmente de um amontoado de informações sobre Vargas, mas sim gosta do próprio Vargas, mesmo que não de tudo o que ele fez. E tente descobrir essa linha central do que essa pessoa lhe conta.

    Você vai acabar percebendo uma certa linha narrativa: a pessoa está lhe contando os fatos em uma sucessão ordenada conforme essa linha. Às vezes é mais óbvio, às vezes é mais difícil de descobrir.

    Façamos uma engenharia reversa e chegaremos ao seguinte: eu tenho muitas informações sobre o assunto X, mas não posso simplesmente vomitá-las. Eu preciso organizá-las de alguma forma, dizer as que julgo mais importantes e mencionar algumas que são detalhes e curiosidades. E é isso (de uma forma mais elaborada) que o historiador faz.

    O historiador não irá simplesmente recolher um monte de informações sobre um tema e jogá-las, mas terá o trabalho intelectual de organizar as informações de forma compreensível. Ele irá, de certa forma, narrar uma história. Mas, com isso, ele corre o risco de atribuir um sentimento ou uma intenção que não estava lá, ou acentuá-los ou diminuí-los. Ele irá desprezar fatos menores e enfatizar fatos determinantes. É por isso que a história se aproxima de uma arte, pois envolve esse esforço de tentar entender o que aconteceu, de selecionar quais os eventos mais importantes e conectá-los.

    As narrativas podem acabar se opondo uma à outra ou podem se complementar. Não sou relativista: há narrativas melhores e há narrativas piores.

    O importante é perceber que existe essa narrativa ao tratar de história. Ela sempre tem um ponto de vista sobre as coisas. Não significa que o autor está comprometido profundamente com essa visão, mas sim que essa visão foi escolhida (mesmo que metodologicamente) para estudar o assunto.

    Tomemos como exemplo a queda do Império Romano do Ocidente. Defensores do velho paganismo e das velhas instituições consideravam que o cristianismo enfraquecia o império. Os cristãos consideravam que não e que o cristianismo estava salvando a cultura romana. Os iluministas irão adotar a visão de que a queda de Roma deu origem a uma espécie de vácuo de poder em que surgiu a sociedade medieval. Contudo, existe quem não veja essa ruptura: na época se considerava que a queda de Roma levou o império a se unificar nas mãos do imperador do Império Romano do Oriente; as cidades e a cultura romana ainda persistiu na Itália durante a Idade Média, mesmo que enfraquecida. Fustel de Coulagens fez um estudo mostrando que o feudalismo tem origens em figuras jurídicas romanas.

    Com tudo isso, quero mostrar que a história, mesmo sendo ciência (não como ciência natural), ainda é arte. De forma semelhante, vejo a medicina e a engenharia. Mas isso é muito importante na história, pois, conforme se vai tendo mais maturidade em história, vai se conseguindo identificar qual é essa linha narrativa do autor, e se pode perceber que há ligações que uma narrativa pode não ter percebido.

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