Uma reflexão sobre filmes feministas

     Nos últimos anos, temos visto o surgimento de filmes que poderíamos agrupar como "filmes feministas", além de filmes que contém elementos feministas. Estou longe de ser um cinéfilo, mas gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre esses filmes.

Aviso: contém spoilers dos filmes Capitã Marvel e Mulan.


A heroína feminista

    Eu diria que o filme feminista tem uma heroína feminista, porém há filmes que não são filmes feministas que têm heroínas feministas. Por exemplo, a versão live action de A Bela e a Fera tem uma heroína feminista sem ser um filme feminista.

    Por heroína feminista, eu não me refiro a uma protagonista mulher que adere a ideais feministas, mas é uma protagonista mulher que encarna tais ideais, que simboliza o feminismo em seu cerne.

    A heroína feminista é crítica às instituições em que vive. Ela é muitas vezes "do contra", estranha, diferente, anormal. Para reforçar isso e gerar empatia no público, a narrativa enfatiza uma situação em que a sociedade é preconceituosa ou ineficiente enquanto despreza as soluções as ações boas da heroína.

    Contudo, há mais uma coisa. Vamos comparar a Bela da animação da Disney (chamaremos de Bela 1) com a Bela do filme live action (doravante, Bela 2). As duas se sentem desajustadas no ambiente inicial, mas só a segunda é uma heroína feminista (lembrando: no meu ponto de vista). Outra marca da heroína feminista é o profundo descontentamento a situação de seu entorno. Bela 2 tem um desprezo pela sua sociedade, e vê os problemas do lugar como artificiais. Bela 1, por outro lado, mesmo sabendo que é diferente, leva uma vida mais orgânica em relação ao seu meio; há uma harmonia entre ela e seu entorno. Talvez poderíamos dizer que Bela 1 é uma exceção em sua comunidade, enquanto Bela 2 é uma exceção não assimilada, à margem da comunidade. Eu sei que é bem tênue a distinção, então não procure determinar o limite fixo para isso.

    Por estar à margem de seu grupo, "fora", a heroína feminista é mais propensa a desrespeitar normas sociais. Ela cumpre normas sociais, especialmente as que são percebidas como boas, mas ela não tem o comprometimento com tais normas como se estivesse sob essas normas. Poderíamos dizer, às vezes (mas nem sempre) com algum exagero, que essas normas podem representar o tal patriarcado que o feminismo critica.


A história feminista

    Nos filmes feministas, o enredo é marcado pelo desenvolvimento da heroína feminista. Vale notar que geralmente ela passa por transformações ao longo da história (personagem esférico). Assim como um herói trágico não se apresenta como propriamente trágico desde o início de uma história, mas vai se construindo como tal ao longo da narrativa, a heroína feminista também não precisa ser a todo momento feminista.

    Na verdade, a história feminista é aquela que narra como a protagonista se torna uma heroína feminista, e esse processo é essencialmente feminista, é, em eu cerne, influenciado pelo visão feminista de mundo, de sociedade, de ser humano.

    Comecemos dizendo que a história feminista não é a história de uma heroína que adquire força, habilidades, poderes, através de um treinamento especial, de exercícios exaustivos, da aplicação quase sobrehumana de suas virtudes e qualidades. A história não é de um herói como o Homem de Ferro, que se tornou herói pelo seu engenho em criar uma armadura tecnológica, nem como o Batman, que passou por um treinamento com a Liga das Sombras (Batman Begins), nem como a Mulan (animação), que passou por um treinamento no exército. A heroína feminista pode passar por tais treinamentos, mas isso é secundário em sua história; não é isso que a torna a heroína feminista que ela é. A Mulan do livre action, por exemplo, é uma heroína feminista e teve esse treinamento.

    O poder, a habilidade, que o herói adquire em sua aventura simboliza seu crescimento interior. É a prova irrefutável de que ele cresceu e é melhor do que era antes. É prova de sua determinação, comprometimento, dedicação, atenção etc. Por isso, a heroína feminista também tem um ganho de poder, mesmo que, como disse, não é tanto pelo seu treinamento. Na verdade, como regra, a heroína feminista já começa a história com esse poder; a diferença entre o início e o final da história é que ela adquiriu consciência desse poder e não receia usá-lo. Por isso, a heroína feminista se aproxima da figura do herói predestinado.

    A justificativa disso é a seguinte: na perspectiva feminista, a mulher é, no mínimo, tão capaz quanto o homem, mas mesmo assim se encontra oprimida, incapacitada. A verdadeira transformação não é a mulher passar pelos processos formativos para se igualar o homem, mas sim tomar consciência de sua própria força e, a partir daí, assumir seu lugar de direito. Isso influi na formação da heroína feminista: ela é a mulher que atingiu a gnose (termo filosófico/teológico para me referir à aquisição do conhecimento proibido ou velado de sua própria condição divina); ela teve a vivência, a consciência de seu próprio poder. Pouco importa se precisa de treinamento ou não para dominar esse poder: o grande passo foi esse conhecimento profano.

    Enquanto heróis tradicionais atingem o auge/apoteose (apoteose é a divinização do herói na mitologia; na história, é o momento em que o herói adquire esse status de super humano, de figura louvável, de vitorioso) no confronto contra o antagonista ou logo depois, a heroína feminista atinge a apoteose com a gnose. Ela vencer o antagonista é mero exaurimento de sua condição, é um fato menor: é por isso que o filme da Capitã Marvel dá tão pouco valor à sua batalha final.

    Agora vamos comparar os filmes da Mulan. Vamos chamar de Mulan 1 aquela da animação e de Mulan 2 a do live action. A segunda é que tem uma história feminista.

    a) Na cena inicial, Mulan 1 é apresentada como uma moça criativa e atrapalhada, enquanto Mulan 2 é apresentada como uma menina com habilidades físicas extraordinárias por usar o chi. Vou enfatizar: Mulan 2 não é apresentada como uma menina especialmente criativa, mas sim com quase superpoderes. O começo da história é importante porque deve chamar atenção para as características mais importantes do herói para a história.

    b) Durante o treinamento, há a cena clássica da Mulan 1 sendo dispensada do serviço militar. Mas ela se recusa a ir embora como uma inválida, e resolve fazer algo que ninguém conseguia: recuperar a flecha no topo do poste tendo que carregar dois pesos que simbolizam dois valores (acho que um peso representava a disciplina...). Mulan 1 é criativa e percebe que pode usar os pesos não como obstáculos, mas para ajudá-la a escalar. Ela escorrega e dá passos em falso, mas insiste e consegue chegar ao topo.

    Para mim, é muito significativo que Mulan 2 não tenha passado por essa cena. Mulan 2 não foi apresentada como uma personagem especialmente criativa, mas sim como alguém como habilidades extraordinárias de usar seu poder oculto. Por isso, seu treinamento envolve o uso do qui para carregar os baldes de água como se não tivessem peso. O importante do seu treinamento não é a aquisição de habilidades e reconhecimento pela sua dedicação e criatividade, mas sim se permitir usar seu poder oculto.


O antagonista: o patriarcado

    A heroína feminista tem um inimigo profundo: o patriarcado. Ele pode se revelar de diversas formas, pois não precisa ser uma pessoa e nem um homem. Pode ser uma sociedade, uma instituição, um grupo, pode até ter uma mulher como antagonista (explicarei melhor depois esse último elemento). O patriarcado é a superestrutura que força uma condição de inferioridade à mulher, podendo usar de instituições, normas sociais, vestimentas, ritos, ensinamentos, regras legais, cultura de forma geral dentre outros.

    A heroína feminista tem uma missão particular: combater essa estrutura de opressão. Ela não necessariamente consegue subverter toda a sociedade em sua aventura, podendo ter uma vitória parcial sobre o patriarcado, ou sobre um elemento opressivo específico, ou a história pode terminar com ela tendo uma vitória para assegurar sua posição. O que importa é que sua aventura, sua luta, tem um viés social contra algo que associamos ao patriarcado.

    É comum que histórias feministas tenham no começo um representante do patriarcado como aliado da heroína. Ela confia nele até o ponto em que ela percebe que ele está comprometido com uma causa contrária a ela. Ele a trai ou se revela e costuma se tornar o antagonista da história (ou um dos antagonistas da história).


Outros elementos de filmes feministas

    Com o que disse acima, consegui descrever o que é o filme feminista: resumidamente, é aquele em que a heroína feminista adquire o conhecimento de seu próprio poder e o usa para vencer o patriarcado. Mas filmes feministas costumam conter outros elementos. Filmes que não são feministas também podem ter esses elementos por influência ou não do feminismo. Convém apontar alguns e refletir sobre eles.

- Antagonista mulher - Além da protagonista mulher, é comum haver uma antagonista mulher. Esta força a história a girar em torno de mulheres, procurando afastar figuras masculinas de funções importantes da história como forma de afirmar o papel das mulheres. Mesmo sendo comum a antagonista mulher, é preciso, em um filme feminista com mais influência da ideologia, de que ela esteja enganada. A antagonista mulher perceber que foi usada e que não terá lugar no patriarcado é importante para mostrar que não é aceitável nenhuma mulher defender o patriarcado, pois elas seriam prejudicadas pelo próprio partido que tomaram.

- Sem homens importantes e que sirvam de modelo - é comum filmes feministas ou com influência do feminismo quererem que não haja homens "bons", pois o feminismo costuma ter uma animosidade com qualquer homem. Se há homens ajudando a heroína, eles são muito secundários, ou só servem de alívio cômico, ou a irão trair. Se a ideologia é menos forte, eles são homens covardes ou egoístas ou com alguma outro defeito que lhes diminua o valor.

- Momento lacração - é comum haver momentos em que uma mulher recebe um comentário machista ou algo assim e ela retruca ou de alguma outra forma se impõe. Geralmente vem seguida de uma expressão ou pose de alguém que "se acha", que se saiu bem.

- Ausência de par romântico - bom, do lado da influência do feminismo, há uma tendência a querer combater a ideia da mulher ser vista como objeto afetivo, de precisar de outra pessoa - especialmente um homem - para ser feliz. Se nos atentarmos às feministas mais radicais, veremos que elas não gostam do que chamariam de amor burguês (talvez possamos entender como amor romântico), de casamento e mesmo da paixão ou do sentimentalismo que podem passar uma ideia de fraqueza. Agora, do ponto de vista da história, do tipo de narrativa, acredito que haja um grau de incompatibilidade entre histórias de amor e histórias feministas (assim como há certa incompatibilidade entre filmes de comédia e filmes de terror). A heroína feminista precisa se dedicar de corpo e alma à guerra contra o patriarcado e não pode se distrair com romance. Ela precisa afirmar sua independência, sua força. Ela não pode ter segundos interesses. Ela é intensa como um herói trágico, que não admite nada para aliviar sua situação.


O texto está muito longo. Farei uma segunda parte, que será mais opinativa e menos expositiva.

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