Idade Média: O final da Idade Média (parte 1)
Vimos que a Idade Média chegou ao seu auge entre os séculos XI e XII. Foi a época da reforma de Cluny e fortalecimento de a Igreja; coexistiam o feudo e a cidade; na cidade, surgiam as catedrais com arquitetura gótica e as universidades levando ao auge da escolástica; surgiu o ideal do cavaleiro cruzado e da cultura da corte. O final da Idade Média é marcado por várias desgraças.
O poder secular especialmente sob a figura do rei Filipe, o belo, irá levar a uma crise na Igreja. Será a época do papado de Avignon, voltando o papado a ser corrompido pelos bens materiais. Haverá a heresia do conciliarismo para lidar com papas fracos e a heresia dos cátaros/albigenses que ganhou espaço diante do clero excessivamente preocupado com as riquezas. Veremos que passou o auge da escolástica com a "via moderna" de Ockham, que marcou negativamente a escolástica medieval. Teremos a terrível peste negra, que dizimou a população europeia, além de crises de fome. Também teremos neste período as guerras entre França e Inglaterra.
Mas nem tudo é a desintegração da Idade Média. No final, teremos o surgimento das ordens mendicantes: os franciscanos e os dominicanos. E também este período apresenta inquisição - ela irá persistir durante a Modernidade.
Podemos ver esse final da Idade Média como uma transição para a Idade Moderna.
Os cátaros e as ordens mendicantes
A Igreja tinha se recuperado com a reforma de Cluny, que trouxe também profundas mudanças na cultura, mas esse impulso reformista foi perdendo força com o tempo. As redes de abadias e as reformas administrativas da Igreja também se relacionaram ao desenvolvimento das finanças da Igreja e criaram uma tendência do clero a se aproximar excessivamente da gestão material. Em certos locais, o movimento reformista se associou à revolta popular contra bispos e a nobreza.
Nesse contexto surge um movimento anticlerical e não cristão: os cátaros ou albigenses. Eles hoje costumam ser louvados por se oporem à riqueza da Igreja. Na verdade, eles eram contrários à toda riqueza e à matéria (para eles a matéria era má - o que significava que o corpo era mau e que os sacramentos eram maus - enquanto usavam coisas materiais). Os cátaros pregavam a prática da endura, que era o suicídio como forma de se libertar da matéria. Em geral, se percebia que eles não eram cristãos (apesar de se afirmarem como tais), inclusive a população chegou a invadir a prisão onde eles estavam para matá-los, temendo que a inquisição seria muito branda com eles. Um problema gerado também era que pregavam a invalidade de juramentos, o que significava que a homenagem era inválida, o que, por sua vez, significava que os vassalos não precisavam estar submissos ao rei.
Os cátaros acabaram sendo combatidos com uma cruzada (cruzada albigense - 1209-1229), o que foi algo bastante atípico, pois a tradição pedia que não se usasse a força para impor a fé. Foi influência do renascimento dos estudos de direito romano, podendo associar a heresia à traição em uma época em que o papa era praticamente o imperador do Ocidente. Essas ordens se destacaram como modelo de vida, como missionários, nas discussões universitárias.
Há movimentos que também pregavam a pobreza: as ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos). A diferença era que elas não eram propriamente revolucionárias nem queriam desafiar a autoridade da Igreja e nem criando instabilidade social.
Os movimentos reformistas posteriores serão menos radicais do que os cátaros, porém ainda pregarão ideias perigosas para a sociedade medieval: reformistas antipapistas e defensores do poder secular (defendendo que os reis deviam intervir na Igreja para ela voltar à pobreza ou para combater desvios do clero).
Filipe IV, o Belo (reinado de 1285-1314) - a Monarquia e a Igreja
Vimos que a monarquia francesa estava fortalecida: o rei recuperou sua autoridade no território e os poderes locais estavam submissos a ele. O problema foi quando vieram reis imorais, dispostos a destruir o que a civilização construíra para obter seus fins. O rei Filipe IV passava por um momento complicado: as guerras contra os ingleses (uma rivalidade histórica, vale notar) traziam muitos gastos. Filipe IV começou a cobrar impostos do clero, o que não podia ser feito juridicamente. Isso gerou atritos com a Igreja ao ponto do monarca enviar tropas para desacatar o papa. O papa Bonifácio VIII na época lidava com problemas das famílias italianas.
O papa acabou morrendo logo depois. Veio um papa que morreu em dois meses, de pois foi eleito um papa francês, que foi coroado na França e não voltou para Roma, ficando em Avignon (Avignon não era exatamente França, mas ficava perto, e lá o rei francês exercia controle sobre o papa) e sendo seguido por vários papas.
Filipe IV, para obter aqueles recursos, pediu um empréstimo com os templários. Encurtando a história, houve uma rixa com o rei porque o grão-mestre dos templários não considerava aquele empréstimo bom para ordem, que precisava de dinheiro. O rei quis que a ordem fosse dissolvida e a acusou de heresia. Após o papa inocentá-los, o rei levou à inquisição francesa, que também os inocentou, e levou, por fim, aos bispos, que dissolveram a ordem (sem que os templários fossem considerados hereges).
Após Filipe, o Belo, o papado em Avignon (de 1309 a 1377) sofrerá muitas influências políticas negativas enquanto a monarquia francesa vai se fortalecendo mais e se centralizando, vindo a formar o Estado Moderno. Enquanto em uma "monarquia feudal", como chamo, a administração era feita pelos nobres e bispos, a monarquia nacional que vinha surgindo reunia uma classe de burocratas para administrar o reino e que ficavam próximos do rei; os nobres, que antes administravam, foram tendo um papel cada vez mais cerimonial e se distanciando do homem comum.
Obs.: Continua na parte 2. Colocarei a bibliografia lá.
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