Idade Média: o final da Idade Média (parte 2)

 A crise da escolástica: a "via moderna" de Ockham

    Antes de falar de Ockham, é bom falar sobre os bons frutos da escolástica. É difícil definir a escolástica, mas podemos dizer que ela foi a filosofia medieval. Podemos ver como a fusão da filosofia grega com o cristianismo. Mas também pode ser visto quase como um método filosófico, ou de uma paixão pelos debates e discussões em busca da verdade. Os escolásticos eram mestres da lógica e da retórica, com imensa capacidade de raciocínio, organização de ideias, percepção de falácias etc.

    A escolástica surgiu recebendo influência da filosofia clássica, mas foi um processo gradual e sem o acesso integral aos textos iniciais. Muito veio da filosofia árabe, que manteve a filosofia grega e a desenvolveu. Devemos citar um nome importante: Averróis. Esse ensinamento gerará problemas ao ser trazida ao mundo cristão no futuro. Averróis era um filósofo muçulmano estudioso de Aristóteles. O problema era o que fazer quando o raciocínio de Aristóteles era incompatível com o Corão. Averróis, querendo afastar a filosofia da fé, defendeu que havia uma verdade que era compatível com a capacidade do conhecedor: na base, aqueles que se convencem pela retórica; no meio os inclinados à dialética, e no topo os filósofos que exigiam uma demonstração racional. Com isso, deixa a razão acima das verdades reveladas, mas querendo preservar a revelação e os mitos como válidos. Sobre a filosofia islâmica, vou me a ter a isso; ela não pode se desenvolver tanto, pois logo haveria uma hostilidade com a filosofia.

    Ao chegar na Europa, os comentários de Averróis levaram ao averroísmo latino, que criou a doutrina da dupla verdade, que considera que há duas verdades independentes entre si: a verdade da fé e a verdade da razão. Essa separação entre fé e razão foi muito prejudicial para o raciocínio. O raciocínio católico mais tradicional hoje é que fé e razão são complementares; a fé ajuda a razão e vice-versa, e não há contradição entre elas. Há, em um extremo, quem negue a importância da fé; e há, no outro, quem afirme que só importa a fé, e que a razão não deve se ocupar de esclarecê-la, defini-la, explicá-la. Outro problema do averroísmo na Europa foi terem influenciado Marsílio de Pádua, que usou o raciocínio sobre fé e razão para a política: Marsílio de Pádua buscava submeter a Igreja ao Estado; a Igreja teria uma função de regular o que a lei não podia e de usar mitos e retórica para convencer o homem vulgar aos interesses de Estado.

    Pois bem, Guilherme de Ockham (1285-1347) era um franciscano que foi influenciado por outro pensamento vindo do islamismo. Pensadores islâmicos queriam defender o máximo da onipotência de Deus, ao ponto de negar a menor eficácia da matéria (vou dar um exemplo para ficar mais fácil: eles achavam que pensar que um cachorro está carregando um osso seria diminuir o poder de Alá, pois, segundo eles, Alá é diretamente responsável por cada coisa que acontece, e o cachorro, por si mesmo, não poderia mudar a ordem das coisas) - isso era algo que Averróis combatia. Enquanto a escolástica progrediu muito com a influência dos filósofos clássicos, em que podemos citar Santo Tomás de Aquino, Ockham estava incomodado que se valorizasse tanto os filósofos pagãos, que os cristãos estivessem usando a razão para entender a fé e se aproximar de Deus. Ockham defendeu que o único meio de chegar a Deus era pela revelação (sem papel da razão). Ockham se aproxima daqueles filósofos islâmicos ao sustentar que não existem universais. Ou seja, "cachorro" é o nome que damos a alguns seres, mas esse nome é só um nome, e não se refere a nada da realidade, só a um puro arbítrio humano. Todos os cachorros seriam seres tão diferentes entre si que não compartilham nada em comum entre si. Talvez a ideia seja: para Ockham, se o cachorro precisa ter uma característica para ser cachorro, isso limitaria o poder criativo de Deus, ferindo sua onipotência. Essa posição é o que veio a ser chamado de "nominalismo".

    O nominalismo é conhecido como "via moderna", em oposição à "via antiqua", dos realistas. Mas o pensamento nominalista não é prático, não é capaz de produzir conhecimento e sanar a busca humana por ordem e por coisas mais profundas na natureza. Os universais são necessários para o ser humano raciocinar, e a negação dos universais dos realistas criou um vácuo que viria a ser preenchido pelas formas matemáticas (então, em vez de dizer que existem animais, o que existe são formas geométricas, linhas, números. Em última análise, o mundo real é um "plano cartesiano"), mas isso mais na Modernidade.

    Com o tempo, o nominalismo ganhou popularidade inclusive na Universidade de Paris, a mais reconhecida em teologia e filosofia. O nominalismo seria tão difundido que era visto como a teoria tradicional. Mas o nominalismo é uma teoria que impossibilita uma teoria unificada de fé e razão, freando o avanço sobretudo dos conhecimentos mais teóricos e abstratos. É um indício do que ocorrerá em outros campos: a cristandade logo irá se fragmentar; a fé e a razão serão distanciadas.; haverá um clima de ceticismo de desconfiança. Não são causados pelo nominalismo, mas são mostras de que há um processo histórico mais amplo que gerou fenômenos semelhantes

 

A crise populacional: nacionalismo na guerra, peste negra

    A população e a saúde da Europa estavam crescendo com o comércio e a coloniação, mas no final do século XIII começou um processo de declínio. Contudo, o que mais impacto foi a Peste Negra, de 1347 a 1350, e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Estima-se que a Peste Negra tenha eliminado metade da população europeia, mas tendo lugares que passaram quase ilesos e lugares que foram abandonados. A Peste Negra diminuiu o número e clérigos e enfraqueceu a disciplina monástica, sendo seguida por uma cultura hedonista de viver o presente e se ocupar de prazeres.

    No mesmo contexto, há a Grande Fome de 1315-1317, gerada por alterações climáticas que causaram colheitas ruins e gerando problemas sociais. Há outros eventos de fome ao longo do século XIV.

    As guerras entre Inglaterra e França são importantes porque, nesta época, contribuíram para a formação da identidade nacional. Em substituição à noção de cristandade, começa a surgir uma ideia do Estado autossuficiente, autocentrado. Na Modernidade, esse Estado também irá querer ter sua igreja nacional. Enfim, aqui é que vemos a monarquia nacional nascer, procurando afirmar sua história e cultura nacional tentando relativizar o passado em que cada reino se via como parte de um todo. O mesmo conflito relacionado ao nacionalismo irá ocorrer depois entre Sacro Império Germânico e Itália.

    Mas gostaria de me dedicar um pouco mais à Peste Negra. Existe alguma discussão sobre o que ela era, mas parece mais aceito que era um conjunto da peste bubônica, septicêmica e pneumônica. As três são causadas por uma mesma bactéria, variando a parte do corpo infectada e que gerará sintomas diversos. A Peste Negra veio do Oriente e teve anos avançando até o leste da Europa. Costuma-se dizer que foi transportada pela pulga do rato, mas isso é controverso, pois não há documentos de época falando de comportamento atípico de ratos, o que aconteceu em outros surtos posteriores de peste bubônica. Também essa explicação da pulga de ratos não explica bem porque a Peste foi forte em algumas regiões cujo clima era bastante hostil aos ratos e nem como foi leve em algumas regiões em que os ratos iriam se proliferar mais.

    A peste negra foi extremamente devastadora. O medo era muito grande ao ponto de haver relatos de que não era incomum os pais abandonarem o filho doente na casa para tentarem evitar o contágio, uma decisão muito difícil em qualquer época.

    A peste negra marcou a arte da época, com a "Dança Macabra", que era de esqueletos dançando. Os esqueletos representavam pessoas tanto da elite quanto do homem comum, mostrando que a Peste afetava a todos, sem discriminação de riqueza e poder político.

    E vou falar também de um anacronismo quando as pessoas falam da peste negra, que é associá-la ao uso de uma máscara com bico longo. Essa máscara não é da Peste Negra. Houve outros surtos de peste bubônica na Idade Moderna, e foi neles que essa máscara foi usada, sendo historicamente incorreto usá-la na Idade Média. O propósito do bico era servir para se colocar várias ervas que seriam capazes de proteger a pessoa dos miasmas (a teoria médica da época era que o ar ruim provocava doenças).


Bibliografia usada e recomendada

- Iniciação à história da filosofia, de Marcondes

- Politização da Bíblia, de Scott Hahn e Benjamin Wiker

- A divisão da Cristandade, de Christopher Dawson

- Criação do Ocidente de Christopher Dawson

- Vídeo (em inglês) do Shadiversity sobre peste negra

- Cursos do pe. Paulo Ricardo

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