A Bela e a Fera: a animação, o teatro e o live-action - parte I

     Existem três versões de A Bela e a Fera que eu comparei: a animação da Disney, a versão live-action, e o teatro da Broadway baseado na animação.

    Primeiro deles foi a animação. Hoje, temos versões refeitas em HD. Por ser em HD, a imagem é obviamente melhor, porém eu tenho um problema com a redublagem. Acho que ficou muito infantil e perdeu um pouco da emoção.

    Depois, a Broadway montou o musical com base na animação. A peça poderia ser de maior duração e ter músicas extras. Por ser uma adaptação ao teatro, fica mais difícil o público ver com precisão uma expressão, e a ambientação é pior do que em um filme. As condutas precisam ser mais amplas e caricatas como é próprio do teatro. Também, a peça é feita ao vivo, e é mais comum haver a interpretação do personagem conforme cada ator e diretor. Também algumas versões não possuem alguma música ou a substituem por falas, ou mudam alguma coisa da letra. Ou seja, o teatro tem mais variação.

    Por fim, temos a versão live-action pela Disney. Eu notei que aproveitaram certas mudanças da versão em teatro, mas há várias mudanças. Também há mudanças em relação à animação.

    Eu tenho a seguinte preferência: prefiro a versão em teatro, depois a animação, e depois o live-action. Vou explicar o porquê. Abaixo, eu pressuponho apenas que se tenha assistido a versão animada. Ela será várias vezes o ponto de referência. O teatro é possível ser encontrado no Youtube em português e em inglês, dentro de restrições da qualidade da gravação.


O teatro

    Em qualquer versão, é difícil competir com a introdução em português feita pelo dublador Márcio Seixas na animação. Nem o original em inglês, nem o teatro nem o live-action conseguiram colocar a carga de emoção no início.

    O início da peça é bem parecido com o da animação. Bela é introduzida (música Bonjour) como uma moça inteligente, leitora, bonita. Gaston também é apresentado como um homem bruto e que liga para as aparências.

    Uma mudança notável é a introdução do pai de Bela. A dinâmica entre a protagonista e seu pai é muito bonita. Criaram uma música específica para isso, que começa quando a heroína pergunta se o pai a acha estranha (pois as pessoas da vila comentavam). A música se chama "Seja como for" (No matter what, em inglês), que é divertida e mostra o carinho dos dois. Há uma referência à mãe da Bela: "seus gestos naturais são tão perfeitos, filha. É sua mãe em tudo e melhor não há".

    O pai parte e é atacado por lobos na floresta. Ele se separa do cavalo e busca refúgio no castelo, onde será feito prisioneiro como na animação. Na animação, o cavalo vai até Bela, que percebe que algo ocorreu com seu pai, e parte atrás dele. No teatro, se usa mais tempo nesse processo: Gaston vai até Bela para pedi-la em casamento, em uma cena bastante hilária, e revela um traço marcante dessa heroína: sua polidez. Ela dificilmente é muito direta, e sempre usa respostas inteligentes ainda que firmes e com algum respeito à outra pessoa, mesmo que, por dentro, ela não respeite tanto. Não é hipocrisia, é polidez, civilidade. Depois de rejeitar Gaston, ela se encontra com Lefou, que está usando o cachecol que encontrou na floresta - esse cachecol fora um presente de Bela a seu pai. Bela descobre que há algo errado e vai atrás do pai. Sobre essa mudança, eu achei uma forma bem bacana de aproveitar o tempo extra do teatro, que revela mais da personalidade de Bela e de Gaston. Não é nada que não perceberíamos se tais cenas não existissem, mas são acréscimos que harmonizam bem com a apresentação dos personagens.

    Em seguida, tudo se desenrola basicamente da mesma forma do que na animação. Ela encontra o castelo, entra procurando o pai, encontra o pai, confronta a Fera, se compromete a ficar no lugar do pai. A Fera aceita e manda o velho ser levado para perto da vila. Bela chora por não ter tido a oportunidade de se despedir pela última vez de seu pai, o que o público percebe que comove a fera - na animação, vemos a expressão da fera mudar, enquanto no teatro é pela mudança de fala e comportamento de irritado para aborrecido (possivelmente aborrecido consigo mesmo por admitir em seu íntimo uma falta, uma insensibilidade). Fera leva Bela para o aposento e ordena que esta jante com aquela.

    Quando Bela é deixada sozinha no quarto, temos uma bela cena e uma nova música. "Um lar"/"Home" é a música em que a Bela, sozinha, pode absorver a situação em que se encontra. Percebe que está "em um lugar onde tudo é para sempre", que ela fez uma escolha da qual não se arrepende, mas que foi injusto, e revela seu desgosto pela Fera. A música é um bom acréscimo, porém não é o melhor acréscimo do teatro. Ajuda o público a ter um tempo maior para ser empático com a situação de Bela.

    Em seguida, também temos cenas parecidas. Bela descobre pessoas enfeitiçadas transformadas em objetos. Recusa o convite da Fera (na peça, a Bela dá a entender que faz isso para irritar a Fera). A Fera vai tirar satisfação. O diálogo da animação entre os dois é muito rápido, terminando com a Fera ordenando que Bela não irá se alimentar se não jantar com ela. No teatro, trabalharam melhor a cena, com os dois em uma disputa que acaba sendo engraçada pois a Bela consegue fazer a Fera cair em uma armadilha na discussão e até desrespeita levemente a Fera, mas se corrige (de novo, o elemento da polidez de sua personalidade). A cena explora de forma bem cômica a Fera pedindo "por favor", mostrando que a Fera não estava acostumada a fazer isso e que lhe custava muito, mas que ainda assim ser minimamente educada, mesmo que não tenha convencido Bela. Alguns poderiam criticar essa cena por ser excessivamente cômica, o que eu até concordo, mas não acho que estragou o novo diálogo, que ainda foi um feliz acréscimo.

    Agora, temos um ótimo acréscimo do teatro no meu ponto de vista. A Fera usa o espelho mágico para ver por que a jovem se faz de tão difícil, e descobre que Bela a odeia e não lhe dará uma chance. É igual na animação, porém temos uma música para isso no teatro: "Mais quanto vai durar"/"How long must this go on". A letra brasileira, se bem executada, seria melhor do que a original, do meu ponto de vista. A música é rápida, mas mostra a Fera revoltada com seu destino, odiando sua maldição. O mais legal dessa breve música é que a Fera não termina odiando o mundo, exigindo compensação do mundo, mas sim se questionando como conseguiria se redimir diante do mundo ("Não consigo... que o mundo me perdoe"). Gosto muito dessa música por ser fortemente sentimental e ajudar o processo da história revelar aos poucos a bondade dentro da Fera.

    Em seguida, Bela tem fome e convence os criados a lhe fazerem um jantar, na célebre cena do jantar. Em seguida, Bela pede para lhe mostrarem o castelo e acaba espiando a Ala Oeste, onde sua entrada é proibida. Bela está curiosa e descobre a rosa enfeitiçada. Ela não sabe que a maldição seria reversível enquanto a rosa tivesse suas pétalas, o que fez com que tivessem extremo cuidado com ela. Bela é flagrada pela Fera ao se aproximar da rosa. A Fera se irrita e acaba assustando Bela, que foge. Até aqui, é igual à animação, exceto pelo teatro mostrar que a Fera se arrependeu de sua explosão de raiva quando percebe que Bela ficou muito assustada.

    Aqui, encerrando o primeiro ato, o teatro nos concede um dos melhores acréscimos ao meu ver. É a música "Sem esse amor"/"If I can't love her". Essa música é a primeira grande oportunidade de vermos o lado mais profundo da Fera. A Fera está arrependida e percebe que lhe resta pouca humanidade, simpatia, gentileza desde que a maldição lhe atingiu. A Fera tem boas intenções, mas não consegue vencer seus impulsos. E já neste momento a Fera revela que Bela é uma luz na sua vida. Ou seja, Bela não afetou o ambiente depois de fazer as pazes com a fera, mas desde o começo. Embora não seja claro na tradução em português, a Fera diz que gostaria de amar Bela; ou seja, a Fera sente algo e quer ser boa, mas não consegue; quer aprender a amar. A Fera fala ainda de sua dor e que Bela é sua última esperança.

    Depois, Bela é atacada por lobos e salva pela Fera. Com isso, acabam fazendo as pazes e temos o famoso momento em que Bela percebe algo de bom na Fera e começa a se apaixonar. A Fera percebe essa abertura e é incentivada a ser cada vez melhor. Na animação, Fera mostra a biblioteca a Bela; e a cena é bem rápida. Tem um feliz acréscimo no teatro, que é a Bela ensinar a Fera a ler. Eles acabam lendo alguma história do rei Arthur. É bem interessante a escolha, pois as novelas da cavalaria foram inspirações para os homens medievais e até modernos.

    Bela acaba convidando a Fera para o jantar e depois tem a dança. A animação tem uma cena muito legal que é a Bela repousar a cabeça no peito da Fera. Na animação, a Fera começa mais envergonhada, mas depois segue normalmente na dança. A cena da animação conta com a ambientação e com a câmera conseguir mostrar de perto os personagens, suas expressões e gestos. No teatro, a Fera parece mais envergonhada. A Bela levanta o queixo da Fera, que está olhando para os próprios pés no começo da dança, o que é uma ótima marcação. Dançam bem; no final, a Fera desvia o olhar novamente, e a Bela a corrige delicadamente para se olharem. Aqui, devo dizer que a animação tem a vantagem pelo que mencionei, porém o teatro fez um ótimo trabalho dentro de suas limitações. Vale notar que a animação tem uma diminuição da luz no final, o que é bem bacana também.

    Depois as duas versões seguem da mesma forma: os dois sentam para conversar. Bela diz que sente saudade do pai, e a Fera mostra o espelho mágico. Bela descobre o pai doente, perdido na floresta. A Fera a liberta. Pois bem, aqui, há uma reprise da música "Sem esse amor". Há variações na letra mesmo em uma mesma língua. Chamo atenção no inglês para a mudança (às vezes excluída pela variação da letra) de "if I can't love her" (se eu não posso amá-la) para "if she can't love me" (se ela não puder me amar). Ou seja, a Fera acabou conseguindo amar Bela, mas não teve seu amor retribuído.

    Bela reencontra seu pai e, às vezes, o teatro apresenta uma nova música que eu acho um acréscimo muito importante, embora não tão impressionante. É "A change in me". Parece que não teve versão em português, mas é uma música importante porque Bela diz que mudou após o tempo no castelo. Ela cresceu, viveu, abandonou seus "sonhos de criança" e é uma pessoa mais livre do que antes. Essa música é importante porque completa o desenvolvimento do personagem e serve de ponte para o reencontro dela com a Fera. É como se fosse o momento em que Bela olha para trás e vê que já não é mais a mesma, e esse ser crescido é que vai se reencontrar com a Fera e que percebe o que sente pela Fera.

    Enfim, depois Maurice é ameaçado de ser levado ao hospício. Para provar que ele não está louco, Bela mostra a Fera no espelho mágico. Gaston e a população atacam o castelo. Na animação, Bela e seu pai são presos na casa, mas isso não acontece no teatro. Há a luta contra os invasores no castelo. Gaston e a Fera lutam. A Fera poupa Gaston a pedido de Bela; Gaston ataca a Fera pelas costas e cai no castelo. A Fera vai morrer, mas neste momento Bela diz que a ama. A maldição é quebrada. Tem uma breve música em que a antiga Fera diz para Bela que é a mesma pessoa. Essa música é legal, mas é talvez o menor acréscimo músical. Tudo termina bem e vivem felizes para sempre.

    Neste resumo comentado sobre as diferenças eu pulei as cenas do Gaston na cidade pois são praticamente as mesmas.


    Concluo dizendo que o teatro perde um pouco pelo público não poder ver detalhes das expressões dos personagens e pela limitação da ambientação do palco. Fora isso, o teatro fez diversos acréscimos excelentes para o desenvolvimento da história. A animação, pelo curto tempo, precisava reduzir a história e os diálogos ao seu mínimo essencial, e o teatro conseguiu explorar bem o tempo extra com bons diálogos que não parecem acréscimos supérfluos, mas ajudam a dar mais humor e complexidade à história.

    Se o filme live-action se contentasse em utilizar apenas e somente as mudanças do teatro seria algo maravilhoso, pois se iria superar as mencionadas limitações do teatro. Na verdade, se houve um filme animado com essas mudanças e com aumento de duração já seria incrível. Mas, como já adiantei, o filme live-action não foi uma versão tão feliz, infelizmente. Revelarei o porquê na próxima postagem.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher no tempo das catedrais

Héroi de Mil Faces (Campbell) - crítica

Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte I