A Bela e a Fera: a animação, o teatro e o live-action - parte II

    Temos muito a falar do live-action da Bela e a Fera da Disney. Se a versão de teatro pode ser considerada uma adaptação do desenho, o live-action não é uma adaptação, é, talvez, uma releitura, ou uma versão mais distante. Em grande medida, isso é culpa da atriz que interpretou a Bela, Emma Watson, que gostaria de fazer suas mudanças na história. É de conhecimento público que a atriz é uma militante feminista e isso acabou refletindo no seu personagem.
    Talvez eu tenha uma visão mais tradicional do teatro, mas eu considero que o ator deve se esforçar ao máximo para "entregar seu corpo" a um personagem diferente de si. O personagem é uma pessoa, e o ator é outra, e o ator deve se considerar menor que o personagem, pois só assim o personagem irá poder se expressar ao máximo. É claro que isso não é tão simples. Um motivo é porque é impossível separar totalmente os dois: o personagem tem algo do ator, e o ator irá obter algo do seu personagem. Outro motivo é porque os personagens são construídos, e o ator atua na criação desse personagem. É por isso que se interpreta o personagem, assim como se interpreta uma música, pois o ator faz uma leitura do que se sabe sobre o personagem e colmata as lacunas da personalidade com sua criatividade e organização. Assim, do meu ponto de vista, o ator que passa muito de si para o seu personagem acaba sendo um mal ator, mesmo que possa fazer papéis fantásticos. Mas estes papéis apenas são bons quando o personagem é próximo do ator em sua personalidade.
    Feita essa breve introdução, vamos à análise do live-action, que vou reduzir a LA para facilitar a escrita.


O live-action (LA) de A Bela e a Fera

        O começo da história é o parecido. Bela é uma moça em uma vila do interior que se destaca por ser inteligente e por sua beleza. Também mostra especialmente a sua criatividade ao tentar fazer uma forma de lavar as roupas usando a força dos animais. Gaston, por ligar apenas para a aparência, deseja se casar com Bela. Diferente da animação, Gaston é mais direto neste momento, e Bela recusa com menos graciosidade do que na animação. Embora só tenhamos certeza mais para frente, a Bela do LA não tem a característica da polidez da Bela das outras obras.
    Ao chegar em sua casa, que fica dentro da vila ou cidade (diferente das outras, que parece uma casa mais isolada), o pai de Bela canta a primeira música da caixa de música, enquanto se lembra da falecida esposa. É uma música bacana. No LA, o pai não fala da mãe para Bela e que está mais velho e cansado. No musical, a impressão é de que o pai fala da mãe com naturalidade, além de ser apresentado como um velho animado, engraçado. No LA, Bela pergunta sobre sua mãe, o que é normal, e o pai diz que era uma mulher corajosa, mas não dá detalhes. Vemos que é bem diferente do teatro, em que se enfatiza a proximidade dos dois de forma animada, como uma família unida, que se encorajam e ajudam. A empatia que temos pela Bela do teatro é bem maior do que a Bela do LA. Ainda não acho de todo ruim, apenas acho que o clima mais animado e a proximidade entre pai e filha seria melhor.
    Bela se despede do pai. Aqui vemos ela pedir que ele traga uma rosa. É um elemento que não estava na animação e nem no teatro, mas que encontramos na literatura. Na literatura, o pai se esquece de colher a rosa e, no meio do caminho, rouba a rosa do jardim da Fera.Voltaremos a isso depois.
    Em seguida, temos uma cena inserida mais por motivação ideológica. Bela parece seguir a criatividade do pai e cria uma forma de usar a força dos animais para lavar a roupa, e começa a ensinar uma menina curiosa a ler, e é criticada. Tem o lado positivo, que o contraste dessa cena com a cena da biblioteca, porém eu, pessoalmente, tenho a impressão de que foi um acréscimo mais motivado por ideologia, o que pode prejudicar a obra. Não que não tenha acontecido historicamente no período (se eu fosse chutar, o LA se passaria no século XVIII, enquanto o musical e a animação seriam do século XVII no máximo), porém, parece um acréscimo um pouco forçado.
    Depois Gaston tenta puxar assunto com Bela, mas é recusado. Como se o Gaston já não fosse um personagem irritante nas outras versões, no LA ele fica ainda mais egocêntrico, bruto e expressa pensamentos mais preconceituosos em relação às mulheres. Nas outras versões ainda havia certa leveza no seu comportamento arrogante, pois ele parecia um homem que se acha o maior de todos e até digno de certa pena por sua pequenez. No LA, se torna menos empático e sua maldade é percebia mais cedo. Vale notar que aqui se confirma a suspeita de que a Bela do LA não é tão polida, graciosa quanto a das outras versões. Também vamos percebendo que o clima do filme é realmente menos cômico do que o da animação ou do teatro.
    O pai de Bela é atacado por lobos e ele busca refúgio no palácio da Fera. Ele é bem recebido pelos criados, mas se assusta com a proximidade da Fera. Até aí tudo igual (apesar do LA os criados não se manifestarem claramente). A diferença é que ele escapa do castelo, fugindo da fera, e se depara com um jardim em que há rosas. Ele pega uma rosa para entregar à filha e é capturado pela Fera. Esta mudança ficou um pouco estranha do meu ponto de vista. O normal seria ele ter simplesmente fugido e deixado de colher uma rosa. É lícito pensar que a Fera só o iria assustar para ele sair da propriedade, mas, como ele tentou roubar a rosa, a Fera o prende. Isso explica por que a Fera o observou no jardim até o momento em que ele cortou o galho da rosa. Isso ajuda a explicar uma pergunta que ninguém faz: no teatro e na animação, por que a Fera prendeu o ancião invasor no calabouço por ter invadido o castelo, mas não usa essa explicação para prender Bela, que também invadiu seu palácio. Pelo LA, se a motivação do crime não era a invasão, mas o roubo, então a situação se explica (a invasão geraria no máximo a expulsão violenta, mas não a prisão).
    Como na animação, o cavalo que fugiu do ataque dos lobos aparece para Bela, esta percebe que algo aconteceu a seu pai e vai resgatá-lo. Bela pega um pedaço de madeira para bater em quem aparecesse, o que é bem estranho, pois ela está invadindo a casa de alguém com um galho como arma. Ouve seu pai e vai até ele. O pai pede para ela fugir, mas são interrompidos pela Fera. Bela logo pede para ficar no lugar do pai (no teatro, ela diz isso de forma mais desesperada e comove a Fera, que se surpreende pela proposta; na animação, também é meio desesperado, porém menos, já é mais refletido - vale notar que neste momento nenhuma das versões apontava que era uma prisão perpétua) pois ela queria a rosa. A Fera parece desprezá-la e parece até zombar levemente da proposta dela ficar no lugar do pai. Uma coisa interessante é que a Fera diz que foi encantada por uma rosa, então não é nada de mais prender uma pessoa por uma rosa. No LA, Bela pede para se despedir, e a Fera, de má vontade, cede, de forma bem grosseira. Bela sussura que vai escapar (o que já mostra um temperamento diferente das outras Belas). A Fera pega o pai, fica surpreso por ela ter ficado no lugar dele, mas não surpreso e comovido, fica surpreso com certa indiferença, e diz que Bela e o pai são tolos. A Fera leva o velho enquanto Bela fica na prisão. Bela será levada ao quarto pelos criados.

    Ufa, pausa para essa cena um tanto intensa e cheia de detalhes. Aqui, já posso apontar alguns pontos. A Fera do LA é um ser rancoroso e desprezível durante metade do filme. Não mostra se comover nem por ver o altruísmo de Bela ficar no lugar do pai, nem concordou em levar Bela para um aposento melhor. Seu coração é muito duro e faz não termos empatia por ele. Sua postura diante da maldição é mais de um profundo rancor e falta de esperança, enquanto a Fera do teatro e da animação ficam mais bravos, mas ainda têm uma postura mais positiva e seus corações se amolecem (aos poucos) mais rápido. E a Bela do LA é, digamos, mais rebelde do que as das outras versões, pois aquela tenta fugir, enquanto as outras cumprem a palavra. Faz sentido na situação fugir, porém o que chamo atenção é a personalidade e o caráter. A Bela do LA valoriza mais a independência, a moral própria, e menos o respeito às regras e à própria palavra.
    Ao ser levada para o quarto pelos criados, temos por um momento a música instrumental de Lar. Easter Egg. Esta música, contudo, seria inadequada para a situação do LA, pois Lar mostra certa resignação, não arrependimento, uma reflexão diante desse mundo sombrio e triste. Temos a ideia de noite (como é noite na animação). No LA, é dia, Bela está surpresa com os objetos falantes e ainda tem planos de fuga.
    Temos a cena da taberna em que Gaston está deprimido pela rejeição de Bela e é animado por Lefou e pelos demais. Chega o pai de Bela dizendo que ela foi raptada. Na animação e no teatro, ele é tido por louco e expulso da taberna, e Gaston cria o plano de interná-lo no hospício e dizer que ajudaria Bela a impedir o pai de ser preso se ela se casasse com ele. No LA, Gaston finge acreditar no velho e o segue pela floresta. O pai de Bela está confuso sobre o caminho, o que irrita Gaston, que bate no velho e o abandona na floresta sabendo que provavelmente morreria. Novamente, é uma mudança da história apenas para tornar Gaston ainda mais desprezível. O pai de Bela acaba sendo resgatado por uma mulher misteriosa (pelo menos para mim) e acusa Gaston. Gaston diz que ele está louco e pede para Lefou ser testemunha dele. Lefou mente dizendo que Gaston fala a verdade. Isso também apenas torna Gaston mais odioso.

    Voltemos ao palácio da Fera. A Fera está irritada e acha que a ideia de convidar a prisioneira para jantar é ridícula (assim como deixá-la em um quarto e não na prisão). A Fera acaba convencida e, de má vontade, vai convidar/mandar Bela para o jantar. Bela está tentando fugir. Bela acaba recusando de forma um tanto grosseira. A Fera se irrita e proíbe que os criados alimentem Bela. Até aqui, nenhuma novidade: a Fera sendo não mostrando nenhum sentimento mais humano e a Bela querendo fugir.
    A Fera vai ao seu quarto e olha rapidamente Bela pelo espelho mágico. Eu não consegui interpretar o que a Fera sentia, mas pode ser o primeiro momento em que a Fera se mostra minimamente preocupada com Bela. Tem um bom acréscimo na cena, que é a pétala da rosa cair e isso gerar efeitos imediatos no castelo e nos criados: o castelo treme, e os criados ficam mais próximos de se tornarem coisas. Logo em seguida a Sra Potts (que se tornou bule de chá) vai ao quarto de Bela. Esta cena lembra a cena antes do jantar da animação e do musical, em que Bela é recebida de forma mais gentil e menos apressada pelos criados; também é já é noite no LA. Vemos o início da mudança de Bela para aceitar seu destino na história. E ela é convidada pela Sra Potts para jantar (nas outras versões, é Bela que desce para jantar)
    Demorou muito tempo para o clima amenizar. Não gostei das mudanças até aí, com raras exceções. A Fera é muito desumana para uma história de amor. O comportamento de Bela é até mais compreensível, porém é difícil não comparar com a Bela das outras versões, a que eu prefiro. A força que Bela tinha era mais interna, era de um forte sentido da própria dignidade, que exigia respeito; a Bela do LA não tem essa característica, ela é mais emburrada, mais revoltada. Não que todas as feministas sejam assim, mas esse comportamento da Bela é mais típico de uma feminista, o que parece um pouco anacrônico na história.
    Bela vai à Ala Oeste, onde encontra a rosa. É assustada pela Fera. Se compararmos essa cena com a do teatro, a desta é melhor, porém eu vejo uma melhoria em relação à animação: no LA fica bem evidente a preocupação da Fera com a rosa, enquanto na animação a Fera parece só muito irritada; eu acho melhor o teatro porque a Fera se arrepende de ter gritado com Bela, mas já é tarde demais e Bela está assustada demais. Bela é atacada pelos lobos, mas salva pela Fera.
    Até aqui, o LA teve basicamente as mesmas músicas da animação, com a exceção mais especial sendo a música da caixa de música. Não usou nenhuma música do teatro, embora faça referências a coisas do teatro e até use o fundo instrumental. O LA juntou algumas cenas do teatro, excluindo algumas músicas.

(Pausa para respirar)

    Pois bem, temos a cena em que Bela cuida dos machucados de Bela. Nas outras versões, há uma troca de palavras entre os dois, um jogando a culpa no outro, até a Fera não conseguir responder. A Bela continua tratando o ferimento e se vê forçada a agradecer por ter sido salva, e isso acalma a Fera. É uma cena rápida bem bacana, pois mostra a primeira vez em que os dois se tratam de forma mais humana. Essa cena é muito importante no desenvolvimento dos personagens, pois reforça Bela como alguém que se valoriza, consegue defender seu ponto, e ainda consegue agradecer o outro. A Fera finalmente se mostra mais calma e capaz de dialogar e, desta vez, aceita a crítica sobre sua personalidade, mostrando uma abertura para a mudança. Voltemos ao LA. A Fera é menos receptiva (vira de lado para dormir quando não consegue argumentar) e Bela não pode agradecer. O que se colocou no lugar é a Bela ouvir dos criados que a Fera perdeu a mãe e depois se tornou uma pessoa pior por influência do pai, o que gera certa empatia de Bela, que também perdera a mãe na infância e consegue compreender que a Fera não era simplesmente má e sempre foi má. Temos, depois a música "Doce visão"/"Days in the sun", uma boa música, que consegue humanizar mais os personagens; os criados lembram de antes da maldição; Bela vai se colocando no lugar da Fera, o que permite mudar a relação dos dois. Bela canta que está deixando a infância e aceita seu destino, e percebemos certa esperança na história, finalmente.
    A mudança da cena que falamos era inevitável, por assim dizer, dada a mudança de como os personagens foram apresentados. A Fera do LA não tinha dado sinais de humanidade e nem houve cenas mesmo que minimamente cômicas com ela, então era uma figura sombria que precisava de um ponto de transformação, mas que teria que ser mais brando para não afetar a coesão da história. Bela estava querendo fugir do castelo e algum momento precisava aceitar seu destino na história. A música adicionada foi muito boa e ajuda no desenvolvimento de Bela neste ponto da história; nas outras versões parece-me que a mudança de Bela foi menos perceptível inclusive para ela mesma, só sendo totalmente percebida por ela mesma ao voltar para a vila no final da história (no teatro, a música A Change in Me), enquanto no LA Bela neste momento decide aceitar seu destino e abandonar seus sonhos de criança.
    Em seguida a relação dos dois vai melhorando. Na animação, o tempo exige que seja mais rápido, representado por algumas cenas significativas. O teatro não mudou tanto, mas a animação permanece melhor pela possibilidade de aproximar o ponto de vista do público dos personagens. No LA também há essa mudança, mas a Fera é mais ranzinza, então a dinâmica é levemente diferente. 

    Vamos analisar um pouco mais este momento. A animação mostrou a biblioteca e a relação dos dois foi sendo trabalhada em outros ambientes, notadamente ao ar livre; depois tem uma cena dos dois lendo Romeu e Julieta, sem mais informações; a Fera tinha dificuldade em ler por ter aprendido pouco havia muito tempo. No teatro, sem a opção de fazer o mesmo que a animação quanto à ambientação, a opção foi usar mais a cena da biblioteca, e de uma forma muito bem feita. Como na animação, a Fera quer dar um presente para Bela e é aconselhada a levá-la para a biblioteca. No teatro, Bela encontra um livro que ela gosta (talvez o livro do início?), que é uma história do Rei Arthur, e, carinhosamente, deixa a Fera ler primeiro, a Fera acaba dizendo que não sabe ler (aprendeu há muito tempo e não consegue ler direito), o que gera um sentimento incômodo entre os dois, então Bela o ajuda a ler. A relação dos dois é trabalhada assim. No final do livro, a Fera se surpreende em como um livro poderia ajudá-la a esquecer seu estado, sua maldição. É um momento bem interessante, pois a Fera se abre um pouco para Bela. Esta, querendo confortá-lo, diz que ela também vivia sozinha na aldeia, e as pessoas a achavam estranha. É um ótimo diálogo que mostra que Bela encontrou um novo lar, um lugar onde ela não era vista como estranha.
    No LA, Bela está lendo um livro para a Fera acamada, e a Fera completa a frase. Bela se surpreende que a Fera conhece Shakespeare e diz que Romeu e Julieta é sua obra preferida. Acho que a passagem dá a entender que a frase lida era de Romeu e Julieta, mas na verdade era do Sonho de uma Noite de Verão. Eu ia dizer que é um erro, mas a cena só dá a entender isso, e não diz claramente, então eu deixo passar. A Fera, ranzinza como é, debocha do gosto de Bela (lembrando: já passou do meio da história e a Fera ainda não se mostrou, de modo algum, amável). A Fera acaba levando Bela para a biblioteca, mas só para mostrar um livro "melhor" (nas outras versões a biblioteca era um presente a Bela para deixá-la feliz). Bela se anima com a biblioteca e a Fera diz que ela pode usar, meio sem se importar. Tem mais algum diálogo e a Fera faz uma brincadeira, que Bela nota e acha legal. A Fera fica um pouco na defensiva por ela ter se impressionado tanto com uma piada, mas aceita. Depois a Fera se afasta fazendo uma careta como se achasse meio bobo a moça ter se animado tanto com algo tão banal. Depois a relação é trabalhada em outros lugares, especialmente ao ar livre.
    Obs.: na clássica cena em da música Alguma Coisa Aconteceu da animação, Bela joga uma bola de neve na Fera e esta junta uma grande bola de neve, mas esta desmonta quando Fera é atingida por uma segunda. Na cena do LA, a Fera efetivamente joga a grande bola de neve em Bela (headshot).
    Continuando o LA, a relação vai se desenvolvendo longe da biblioteca. Finalmente, Bela agradece a Fera por tê-la salvo dos lobos (neste momento, a Fera estava lendo uma história do Rei Arthur, as isso não tem tanta importância). E temos um acréscimo bem original que é a cena em que a Fera usa um livro mágico para viajar a qualquer lugar numa espécie de sonho, e Bela viaja para o passado (lembrando que ela tinha curiosidade de saber sobre sua mãe). Ela e Bela vão para Paris. Temos a segunda música da Caixa de Música; desta vez, Bela percebe que Paris era pior do que imaginava, menor, mais sombria, e descobrem que a mãe de Bela morreu pela Peste e foi abandonada para não contagiar a filha. Quando Bela percebe isso, fica abatida. A Fera diz que sente muito por ter chamado o pai de Bela de ladrão, e eles voltam.
    Agora, comparando as versões. A Fera do LA mais irritada e insolente. A ideia era que demorasse mais para ela se abrir para Bela, porém me parece que ela apresentar traços de personalidade positivos. É como se essa Fera não quisesse ser salva e não fizesse nada por Bela. O fato de tê-la salvado dos lobos significa algo, porém é muito pouco. Acho melhor a versão da Fera que deseja presentear Bela e, por isso, a leva para a biblioteca. A relação dos dois parece mais natural a partir daí. E Bela ensinar a Fera a ler e gostar dos livros é bem significativo no desenvolvimento dos dois. A escolha do teatro trabalhar a relação dos dois na biblioteca foi interessante, pois Bela era a menina que vivia com a cabeça nos livros e era excluída por isso.
    Mas a comparação da Bela nessas partes é bem interessante. Talvez possamos simplificar dizendo que a Bela da animação e do teatro começou a ver a Fera como seu igual depois de ser salva, enquanto a Bela do LA começou sentindo pena da Fera e querendo minimizar a dor da maldição e salvar a todos desse feitiço. Parece-me estranho que Bela do LA tenha Romeu e Julieta como seu livro preferido. Não cola essa ideia. Bela parecia hostil ao casamento quando foi apresentada no começo da história. Romeu e Julieta ainda são jovens um tanto rebeldes em seu contexto, porém me parece que é uma rebeldia diferente da de Bela. Dos dois era uma rebeldia mais humanista, mais individualista, mais sentimental, enquanto o de Bela é mais revolucionário, moderno. É claro que uma pessoa pode gostar de um personagem que não tem nada a ver com ele, mas é esperado que o livro preferido de um personagem ficcional tenha uma forte semelhança com seu livro preferido. Atendo-me à comparação entre Romeu e Julieta e o Sonho de uma Noite de Verão, parece-me que Bela do LA se parece mais com Hérmia (Sonho de uma....) do que com Julieta. E Bela do LA parece ter um gosto especial por comédia (como é o Sonho...) em relação à tragédia (como Romeu e Julieta).
    No LA, foi bacana a música da Caixa de Música, e descobrir algo mínimo da mãe de Bela, embora me parece uma solução inferior à do teatro. Em parte, essa possibilidade não foi tão bem trabalhada. Vou repetir uma crítica com a qual concordo: poderiam ter usado o momento dos dois descobrindo que a mãe de Bela morreu na peste para a Fera finalmente demonstrar alguma empatia por Bela. Foi um momento delicado para Bela e a Fera só conseguiu dizer que sentia muito por ter chamado o pai dela de ladrão. Tudo bem, sabemos o que a Fera sentia e que queria consolar Bela, mas isso foi mal feito ou mal aproveitado nesta situação.
    
    
    Em seguida, grosso modo, em todas as versões eles jantam e dançam (música Sentimentos São) e depois a Fera vai confessar o amor em um momento especial dos dois, mas acaba liberando Bela para resgatar seu pai. Tenho muita coisa a dizer desse momento.
   Curiosamente, é no LA que a Fera pede Bela para jantarem. Nos outros, a iniciativa é de Bela.
    Breves palavras sobre o vestido de Bela: não sou um entendedor de roupas, modas etc. então vou me ater a repetir certas coisas que fazem sentido para um leigo como sou. Na animação, Bela usa um vestido dourado (e não amarelo) muito bonito e digno das princesas da Disney. Não sei, mas talvez com o tempo, assim como o vestido de Cinderela foi se tornando azul (sendo que era prata no original), o de Bela foi tendo o sentido de amarelo, mas não posso afirmar isso com certeza. Pois bem, o teatro pode ter variações que eu não vi, mas parece que no geral se usa inevitavelmente o amarelo, procurando-se colocar detalhes e peças que se aproximem do dourado para o vestido ser efetivamente mais dourado do que amarelo. O problema está no vestido do LA. É um vestido com menos ornamentos e é amarelo com alguns detalhes menos perceptíveis em dourado. Falta algo no vestido que eu não sei dizer o que é exatamente, mas que o torna muito diferente, por exemplo, do vestido de Cinderela no live-action da Disney. A parte superior do vestido é muito moderna e simples. E eu também concordo com a crítica de ficou estranho e anacrônico a Bela do LA usar aquele adereço nas orelhas, que é mais uma coisa da atriz do que da personagem. Temos ainda uma questão que espero não ser polêmica, que é uma crítica ampla à Bela do LA, que ela claramente não usa espartilho. Explico: o espartilho não precisa ser apertado a ponto de prejudicar a respiração da mulher; na verdade, ele é especialmente útil para duas coisas: manter uma postura que não deixa a pessoa "corcunda", jogando o peso corretamente para o quadril; e o espartilho serve como apoio para peças de roupa mais pesadas, pois o peso da roupa é jogado no quadril e não, por exemplo, nos ombros - o princípio era usado nas roupas medievais, que tentavam jogar o peso no quadril. A atriz de Bela no LA não queria o uso do espartilho, comum na época em que seria a história, gerando certas posturas piores e impossibilitando um vestido maior, mais pesado.
    Na parte da dança, eu, que amo o teatro, sou forçado a reconhecer a grandiosidade da animação. Essa é uma cena bastante íntima entre os personagens e, por isso, a animação ganha muito em poder aproximar a "câmera" do rosto dos personagens, em que podemos ver suas feições, e também os gestos e a dança. O teatro precisa compensar isso com gestos mais amplos e com a expressão verbal, o que é uma forma de compensar as limitações de sua arte. Outra limitação do teatro é ambientação, que se restringe aos recursos do palco. E a animação consegue mostrar bem o ambiente além dos personagens. Comparando com o LA, este não explora bem a possibilidade de mostrar o rosto e os sentimentos dos personagens. Essa é uma crítica minha também a outros filmes live-action, como a cena do tapete mágico em Aladdin. O filme não mostra a expressão dos personagens, nem aproxima a câmera deles. Parece que está sempre querendo mostrar o ambiente maravilhoso em que estão, mas isso poderia ser feito sem prejuízo dos personagens. Compare com a cena da animação ou do Cinderela em live-action para perceber o que estou falando.
    Além disso há mais uma coisa da dança que eu também critico na cena do voo no tapete mágico em Aladdin: é que a cena não tem um gesto extra dos personagens. A dança do LA é só a dança, começando com a Fera mais receosa e depois mais confiança. Vou dar exemplo de coisas extras que não estão no LA. A animação tem uma cena em que a Bela repousa a cabeça no peito da Fera, e é uma cena muito bonita que mostra algo além da dança, que é uma expressão do íntimo do personagem que acrescenta à dança pura. O teatro fez mais: a Fera, receosa, começa a dançar olhando para os próprios pés, e Bela carinhosamente o corrige, levantando seu queixo com a ponta dos dedos, fazendo a Fera olhar nos seus olhos (na animação, a Fera vira os olhos para Bela e se surpreende com ela se aproximando, o que também é um extra, um acréscimo em relação à dança pura). No final da dança, antes de se cumprimentarem, a Fera desvia o olhar talvez se esquecendo do cumprimento ao final, envergonhada sem saber o que fazer em seguida, e Bela novamente, com carinho, faz a Fera olhá-la para se cumprimentarem. Esse gesto é uma correção que mostra a proximidade dos dois, mas também me parece ter o significado da Bela querer que a Fera mantenha o queixo erguido, com orgulho (não no mau sentido). De novo: No LA, não tem essas correçõezinhas, nem outro comportamento mais livre dos personagens além da dança. Faça depois um desafio de comparar as cenas de Aladdin no tapete mágico, a da animação, e a do live-action, para ver se não é um padrão. E veja como em Cinderela em live-action da Disney se consegue mostrar as expressões dos personagens assim como o ambiente e os personagens dançam mantendo certos "extras" que acrescentam à dança.

    Em seguida, os dois conversam a sós. A Fera deveria, neste momento, dizer que ama Bela. Na animação e no teatro, a Fera está mais receosa e pergunta se Bela está feliz lá. Bela diz que sim, só que sente falta do pai. Pelo espelho mágico, ela vê o pai na floresta. A Fera liberta Bela para resgatar o pai. Na animação, a Fera admite ao criado que a libertou porque a amava. No teatro, a Fera parece que a libertou mas sem estar ciente da profundidade do amor, e é a sra. Potts que diz que a Fera libertou Bela porque a ama. O teatro acrescentou a fala "eu nunca mais vou vê-la" dito pela Fera tão logo a Bela sai, o que é muito boa por conseguir traduzir a profunda dor de deixá-la partir, e que está ingressando em um mundo sem esperança. O teatro também, depois de Bela partir e da Fera ter falado aos criados que deixou Bela partir, acrescentou o reprise da música "Sem esse amor"/"If I can't love her". Existem variações em como esse trecho é cantado, mas uma mudança digna de nota é que, em inglês, se diz "If I can't love her" (se eu não puder amá-la) na primeira vez que é cantada (quando Bela foge pela primeira vez), enquanto aqui se pode cantar "if she can't love me" (se ela não puder me amar). Essa música aqui é curta, apenas o final, porém é bem triste e bem apropriada.
    No LA, a Fera é mais direta perguntando se Bela seria feliz com ela (embora seja mais direta, ainda não declarou tão explicitamente o amor). Bela responde que não se pode ser feliz sem liberdade. Bela depois diz que o pai a ensinou a dançar, a Fera descobre que Bela sente saudade do pai, lhe mostra o espelho mágico (aqui, o pai de Bela está sendo preso para ser levado a um hospício). A Fera, ao saber da situação do pai de Bela, a liberta. Aqui, o diálogo entre os criados lembra o do teatro, porém eu acho menos rico; o que teria de especial neste diálogo é que a Fera mostra que se importa com os criados, enquanto nas outras não aparece tanto isso. O LA aqui acrescenta a música "Nunca mais"/"Evermore", que é uma boa música. Essa música tem pontos de tristeza, da Fera ter perdido Bela e da mudança que Bela fez em sua vida. Assim, é mais completo do que a do teatro. O problema é que "Nunca mais" tem uma certa animação e ainda podemos ver certa luz dentro da Fera, de alguém que não está exatamente só triste, mas que tem certa coragem para enfrentar o resto dos seus dias e que aceitou sua condenação. Isso é estranho se compararmos com a Fera na próxima vez, em que está tão deprimida que não liga para a invasão no castelo. O sentimento é mais preciso na música do teatro, que é profundamente triste, de alguém que perdeu a esperança.

    Aqui, na animação e no teatro, Bela encontra o pai na floresta e o leva para casa. Ela diz que a fera não era tão má. No teatro, temos a música "A change in me" (nem sempre cantada nas apresentações), que faz bem em ajudar no término do desenvolvimento de Bela, pois ela percebe que é outra pessoa ao voltar para sua aldeia, e aí ela vai começar a ter consciência de seus sentimentos pela Fera. A cena dos dois é interrompida por Gaston e os outros virem levar o pai de Bela para o hospício. Bela mostra que monstro é verdadeiro. Na animação, ela é presa na casa junto do pai enquanto a vila vai caçar a Fera (música "Canto da multidão"/"Mob song"). Bela e o pai fogem e vão ao castelo. No teatro, eles não são presos - talvez a fuga exigiria muito tempo na peça que poderia prejudicar o ritmo.
    No LA, pai impede o pai de ser levado no manicômio, e consegue mostrar a Fera pelo espelho mágico. A multidão vai atrás da Fera enquanto deixam os dois presos na carroça. O canto da multidão é interessante pela mudança de uma fala que mostra que Gaston é uma ameaça nova. Com Bela e o pai presos é que tem a cena bonita entre os dois. Eles conseguem escapar, e Bela vai ao castelo.

    No castelo, há a invasão e o combate. Gaston briga com a Fera. Bela aparece. A Fera acaba vendo que Bela se importa e luta contra Gaston, mas o deixa ir embora por misericórdia. Gaston ataca a Fera pelas costas e acaba caindo do castelo. Esta cena no LA é mais dinâmica, aproveitando os efeitos especiais do cinema.
    A Fera vai morrer. O LA trabalhou bem o fato de que, neste momento, a última pétala da rosa caiu, e os criados estão voltando serem objetos (na animação, apenas aparece a última pétala caindo, mas os criados ainda não são imobilizados pelo feitiço). No LA incrementou e o realismo foi bem feito. No teatro, seria difícil de se trabalhar bem essa questão da rosa e dos objetos, então ela é deixada de lado.
    O que o teatro fez foi colocar a reprise da música "Casa"/"Lar", alongando a cena entre Bela e a Fera até que a Fera desmaia e Bela diz que a ama. Ao alongar este momento, o teatro conseguiu manter o clima triste por mais tempo, compensando em parte as cenas com os criados perdendo vida. Além disso, o teatro se beneficiaria se pudesse mostrar o rosto dos personagens, porém essa cena não perdeu tanto no teatro pelas falas e pela música. O teatro também fez bem melhor a confissão do amor de Bela; saiu de forma muito mais natural, inclusive pelo fato de não haver corte para mostrar os criados.
    Com a confissão de Bela, o feitiço é quebrado. Devemos tirar o chapéu para o teatro conseguir levantar a Fera e fazer a transformação no ar. Mas os efeitos especiais da animação e do LA são muito boas também. No teatro, a Fera canta alguns versos para bela perceber que é a mesma pessoa.
    Depois segue-e o final feliz.


Conclusão

    Creio que devamos inicialmente considerar que os protagonistas do LA não são os mesmos em personalidade do que os do teatro e da animação. O teatro prolongou a animação e acrescentou cenas; o LA fez uma outra história. A personalidade dos personagens secundários foi basicamente a mesma, com a exceção de Gaston ficar mais vil e desprezível, e Lefou aparecer mais como um capacho de Gaston, mudanças que achei desnecessárias.
    O LA conseguiu corrigir e melhorar alguns detalhes em relação à animação, com acréscimos que o teatro não poderia fazer, como a cena dos criados se tornando imóveis com o final do feitiço.
    Ainda assim, as mudanças que o LA fez não geraram, ao todo, uma história melhor do que a da animação, e certos momentos da animação são mais bem executados do que no LA. Considero o próprio desenvolvimento dos personagens melhor na animação. A Fera apresentou mais rapidamente sentimentos mais humanos que a tornavam mais compreensível, enquanto no LA a Fera foi por mais da metade do filme uma criatura irritadiça e, num português claro, um babaca. A Bela do LA tem uma maior complexidade e teve seu desenvolvimento mais trabalhado, porém eu acho que foi menos orgânico, mais caótico e, por isso, menos poético, sendo um personagem menos apropriado para uma história infantil.
    Eu tenho que admitir que meu amor pelo teatro de A Bela e a Fera não me permitiu fazer uma análise totalmente imparcial do live-action, porém creio que ainda apontei bem os meus problemas com o LA de forma justa. Ao mesmo tempo, acredito que quem assistir ao LA vendo-o como uma nova versão da animação inicialmente não irá notar tantas diferenças e até contrariedades entre essas duas versões, mas é porque está vendo coisas que não estão lá; está projetando a animação no LA, e não vendo o LA em si mesmo.
    Assim, reitero minha ordem de preferência o teatro, depois a animação, e, por fim, o live-action.

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