Cinderela live-action da Disney: a melhor versão live-action de animação da Disney

     Hoje, resolvi falar sobre o Cinderela live-action da Disney e porque considero a melhor adaptação de animação da Disney para live-action. Será inevitável comparar com outras versões live-action - Mulan, A Bela e a Fera, Aladin.

    De imediato, já digo que Cinderela parece ser o filme mais infantil dos que mencionei, o mais simples na trama, o de clima mais alegre e otimista. Não significa que adultos não gostarão do filme, mas que ele é claramente voltado para crianças.


    De início, é preciso observar as diferenças entre a animação e o live-action. Nas propostas de live-action, se deseja algo um pouco mais realista do que na animação. É por isso, por exemplo, que se evitou os ratos falantes em Cinderela. É claro que, como é um conto de fadas, é preciso pesar o realismo e a fantasia, porém a intenção é ser mais verossímil do que na animação (eu diria que o "live-action" do Rei Leão é excessivamente realista ao ponto de diminuir a empatia que temos pelos personagens).

    Outro elemento diferente é que a animação pode usar cores mais vivas, expressões mais intensas, luz e sombras de forma menos realista. No live-action, ficaria estranho exagerar em certos tons de cores e é preciso trabalhar com luz e sombra para as ações não serem excessivamente claras nem escuras.

    Ainda, vale notar que os filmes live-action da Disney geralmente possuem uma duração maior do que da animação, o que dá a liberdade para se alongar ou incrementar cenas.

    Dito isso, quando se faz uma nova versão de uma obra, se depara com a questão do que se deve mudar e do que se deve preservar. Até que ponto o ator contribui para a personalidade do personagem? O público-alvo é o mesmo? Seria bom corrigir problemas do anterior? As roupas precisam ser as mesmas ou podem ter novas versões? E, se houve mudança, qual o limite do aceitável?

    Manter tudo igual à versão original geralmente gera menos controvérsia e menos discordância, então a inovação deve ser feita com cuidado, e creio que isso Cinderela live-action fez com maestria. Vou apontar elementos do filme e, às vezes, mostrar a diferença da animação.


1) Tenha coragem e seja gentil

    O live-action trouxe um resumo dos valores que Cinderela deveria seguir: tenha coragem e seja gentil. E esse é um resumo muito bom das virtudes que qualquer pessoa deve adquirir, como lembrança do que é preciso para ser uma pessoa melhor.

    Cinderela faz jus a essas duas virtudes. Ela é extremamente gentil, e sua condição a ajuda a desenvolver sua coragem, que é particular de sua situação. Fugir de casa pode ser visto como um ato de coragem, mas retornar também é um ato de coragem, de força, da capacidade de enfrentar seu destino.


2) O encontro entre Cinderela e o Príncipe

    Um feliz acréscimo foi o encontro entre Cinderela e o Príncipe quando a protagonista estava tentando fugir. Essa cena tem ótimos diálogos, nos introduz o príncipe, que ganhará algumas cenas e alguma personalidade na história.

    Essa cena é muito boa para direcionar o enredo de forma natural, para dar leveza em um momento difícil, para mostrar que Cinderela chegou a tentar fugir, mas voltou por ser forte. Esse ato de "rebeldia" do personagem em seguir seu destino mostra que o personagem é mais vivo, mais próximo de nós.


3) O otimismo de Cinderela

    É marcante na personalidade da heroina seu otimismo. Ela está sempre alegre e traz uma notável leveza para a história. E o melhor disso é que sua alegria é fruto de esforço interior. Ela não é simplesmente a alegria encarnada; ela passa por momentos de tristeza e dor, mas se esforça para viver a vida mais leve e mais feliz.

    A intensidade da sua alegria diante de sua condição de opressão cria um personagem muito mais profundo, com uma força interior que a permite vencer seu ambiente para ser quem é.


4) A bondade e os elementos mágicos

    No live-action não há ratos falantes, mas ainda há os ratos. Eles são "amigos" de Cinderela e ajudam a mostrar que ela é bondosa mesmo quando está em necessidade. Essa bondade é importante para mostrar que ela consegue levar a vida com leveza e olhar o próximo mesmo se estiver em dor.

    E a própria fada madrinha mostra essa mesma bondade altruísta da protagonista. Para mim, uma das melhores cenas acrescentadas é da aparição da mendiga que se transformará na fada madrinha.

    Cinderela estava contente para ir ao baile e reformou o vestido de sua falecida mãe. Aí vemos o auge até então da maldade da madrasta e das novas irmãs de Cinderela, que rasgam o vestido e a impedem de ir ao baile. Elas partem, e Cinderela não aguenta e chora. Sentimos profunda empatia por ela, que pode se dar ao luxo de expressar sua dor, seu momento íntimo e pessoal de sofrimento.

    Nós sabemos que a dor é um fator que torna as pessoas mais brutas, mais egocêntricas, que podem ferir o outro ou a sociedade para fazer essa dor cessar. É nesse momento de maior dor de Cinderela que aparece uma mendiga pedindo um copo de leite ou um pedaço de pão. Foi preciso de força interior e de virtude para Cinderela parar de chorar e dar alimento à anciã. Só depois a velha pergunta porque Cinderela está chorando, e esta responde que "não é nada". A mendiga diz que nada é o copo de leite e o pedaço de pão. Mas coisas que "não são nada" exigem esforço de Cinderela e são muito para uma mendiga.

    Façamos uma comparação com a introdução da história de A Bela e a Fera. Uma velha bate nas portas do palácio de um jovem príncipe pedindo abrigo para o frio em troca de uma rosa. É normal histórias da época começarem assim, por um visitante mágico batendo na porta e pedindo algo. O príncipe, que tinha tudo, exceto amor em seu coração, se recusa a acolher a velha. Ele é punido por isso. Em Cinderela, a heroína acolhe a mendiga, o que lhe exige esforço para sair de si mesma em sua dor para ajudar o próximo. E isso será recompensado.


5) O vestido e o baile

    Sou partidário da tese que o vestido de Cinderela da Disney é prata, e não azul. Mas é mais um detalhe, então não vou discutir isso.

    O ponto é que o vestido de Cinderela é muito bem feito e é admirável. Fazendo as comparações mal educadas, compare com o vestido de Bela (A Bela e a Fera). O vestido de Cinderela é muito mais bonito, com muitas camadas e detalhes que seriam difíceis de reproduzir. Não entendo muito disso, e estou mais repetindo algumas informações que fazem muito sentido para mim e que são perceptíveis a um leigo.

    Agora, a cena do baile merece mais comparações mal educadas. É, talvez, o auge do romance da heroína. Você pode comparar essa cena de Cinderela no Youtube com cenas equivalentes em outros live-actions: a cena do tapete mágico em Aladin e a cena da dança em a Bela e a Fera. Vou apresentar o que eu percebi.

    Cinderela mostra mais cenas próximas dos personagens. Em Aladin e em A Bela e a Fera, perde-se muito tempo mostrando o ambiente: o mundo por onde voam e os detalhes do palácio, ao ponto de apagar um pouco os personagens. Compare essas cenas com as cenas de suas animações para você perceber que a animação mostra o rosto e os sentimentos dos personagens sem deixar de lado o ambiente.

    Mostrar o rosto de Cinderela e do príncipe ajuda a nos identificarmos com seus sentimentos. Contudo, ainda assim Cinderela consegue tornar aquele momento seu, consegue consegue dar personalidade ao que acontece. Conseguimos ver algo dela naquelas cenas pelos diálogos, pelas expressões, pela dança mesma. No live-action de Aladin, praticamente não vemos o que os personagens fazem, não vemos flutuações em suas emoções; não foi como na animação, em que Jasmim abraça uma nuvem, interage com os animais e com o construtor da Esfinge, fecha os olhos quando o tapete desce. No live-action de Bela e a Fera, não há aquele momento em que Bela repousa a cabeça no peito da Fera. 

    

    É isso que gostaria de falar. O live-action de Cinderela conseguiu apresentar outra versão da história, um pouco mais realista, porém, pelo menos, tão boa quanto o original. Quem fez a adaptação conseguiu equilibrar bem os elementos antigos e os elementos novos do conto.

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