Drácula, Frankenstein e o Médico e o Monstro: os perigos da Modernidade

     Drácula, Frankenstein e o Médico e o Monstro são três histórias que contribuíram para a formação das histórias modernas de terror. Há muito a se discutir sobre essas obras, tanto individualmente, quanto em conjunto, mas gostaria de introduzir o assunto e fazer uma reflexão.


    Em breve resumo:

    Drácula conta a história de um rapaz moderno, trabalhador, que vivia na cidade, que viaja para a Transilvânia. O jovem é um vendedor de imóveis em Londres e irá negociar com um cliente, que é um antigo nobre local. Fenômenos estranhos acontecem, e há muitas referências a superstições e eventos misteriosos que vão introduzindo a presença de um ser maligno, o vampiro que dá nome ao romance. Nesse livro que aparece o médico dr. van Helsing, que um médico que sabe sobre a existência de vampiros.

    Frankenstein ou o Prometeu Moderno conta a história do dr. Frankenstein (Frankenstein é o nome do médico, e não do monstro sem nome), que estudava fontes médicas rejeitadas pela ciência moderna (mais ou menos como um químico que se dedica a estudar a alquimia). Ele acaba conseguindo criar um ser artificial racional e "superior" ao homem. O médico se horroriza diante de sua criação e a rejeita, mas acaba sendo perseguido pelo monstro.

    O Médico e o Monstro trata da história de um advogado que percebe comportamentos estranhos de seu amigo e cliente, o dr. Jekyll, enquanto investiga também um homem estranho e maligno na cidade, chamado de Mr. Hyde. Como todos devem saber, o médico e o monstro são as mesmas pessoas; o médico se transforma em Hyde ao ingerir uma droga.


    Gostaria de chamar atenção ao fato de que as três obras refletem um certo medo dos caminhos da modernidade (e que podem ser medos universais). Vamos notar que na modernidade vemos o surgimento de inovações das ciências naturais, as ciências humanas, novas teorias filosóficas, novos fenômenos sociais. Não eram apenas os conservadores que podiam ver certo perigo nisso, como se o homem se deparasse com males que também eram novos, como se a modernidade fosse uma segunda caixa de Pandora. Também muitos românticos olhavam com certo receio para essas mudanças, e essas três histórias mostram isso.

    Drácula aponta o perigo da Modernidade levar o homem a se esquecer de perigos antigos, da sabedoria antiga de certos elementos misteriosos. Os homens modernos desprezavam as superstições de povos mais "primitivos", mas eram estes que estavam certos ao lidar com um ser maligno antigo que continuava existindo na modernidade. Drácula aponta a limitação da modernidade em solucionar problemas velhos, e em desprezá-los sem conseguir solucioná-los.

    Frankenstein aponta não uma limitação da modernidade, mas que o seu sucesso é a sua destruição. Homens não são deuses, e se tentarem criar um ser "à sua imagem e semelhança", só irão ver neste espelho que essa criatura e eles mesmos não são perfeitos, e que essa criatura reflete tanto o máximo do bom potencial humano quanto o máximo de sua fragilidade, egoísmo e impulsos destrutivo.

    Por fim, o Médico e o Monstro aponta que o perigo está dentro do ser humano, que é uma criatura sedenta e que não pode ser alimentada, como um pensamento vitoriano talvez pensasse. Ali, o mal libertado pelo medicamento não exatamente um mal novo, mas é o mal antigo que perdeu controle. O médico tentou criar um medicamento para ser alguém mais livre, mais feliz, mas esse remédio (e a própria Modernidade) não pode dar uma receita mágica para isso, pois, mesmo que se conheça mais o homem, ele continua sendo ele mesmo. Muitas vezes, o que a inovação faz é dar a esse lado mau do homem um meio de se libertar ou destruir.


    É claro, eu apresentei certos perigos da modernidade e que são perigos até universais do desenvolvimento humano. As inovações têm seu lado positivo, mas os românticos fizeram bem (e até com exageros) em apontar que esse sonho do progresso, da inovação, do novo homem, poderiam fazer o homem e a sociedade se desviarem do bom caminho. Historicamente, a desilusão do progresso é creditada à ascensão dos regimes totalitários, em especial ao nazismo, mas, talvez, numa perspectiva de hoje, início do século XXI, podemos perceber que o homem se esqueceu daquela desilusão ou talvez não tenha lhe dado o devido crédito.

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