A Bela e a Fera: o desenvolvimento de Bela
(Aqui, uso a animação e o teatro. O teatro desenvolve um pouco mais Bela, daí a importância)
Apesar da perspectiva da história da Bela e a Fera ser a da moça, a transformação externa (tanto em aparência quanto em comportamento) foi mais presente na Fera. Isso tem certa razão, mas não é o tema deste tópico.
Gostaria de compartilhar algumas ideias minhas sobre o desenvolvimento de Bela. Quando penso nisso, me deparo com o seguinte: Bela nos é apresentada como uma heroína que chama atenção em seu mundo (a vila) por suas qualidades. Ela é uma moça muito bonita e também é uma moça que é educada.
A beleza
A beleza de Bela é um elemento importante na história. Na verdade, a história tem como uma das lições que a beleza exterior não é o importante. Por que Bela era a mais formosa, então?
Em histórias infantis, há um elemento interessante, que é a relação entre interior e exterior: o bom é belo, e o mau é feio. A bruxa má é feia, e a princesa boa é bela. A bruxa pode aparecer como bela, porém é comum vermos sua aparência mudar para uma mais condizente com seu interior.
Sobre A Bela e a Fera: Aqui, vemos um conceito um pouco mais complexo do que bom = belo e mau = feio. Trabalha-se com a contradição entre a beleza interior e a exterior: o príncipe belo no começo é mau e recebe uma maldição que faz sua aparência condizer com seu interior. De certa forma, Gaston carrega a mesma contradição, pois é forte e belo no exterior e é podre no interior. Bela trabalha com a beleza da seguinte forma: a beleza exterior pode ofuscar a beleza interior.
Na história, a beleza de Bela não é usado como um elemento dinâmico, no sentido da beleza não ser usada para mover a história. A inteligência e a gentileza da heroína são elementos mais importantes. Mas veja bem: a beleza de Bela impacta os outros. A vila parece só valorizar a aparência, e Gaston deseja se casar com Bela apenas pela aparência. No caso da Fera, a beleza de Bela reforça o sentimento da Fera de que Bela é inalcançável. Vemos, portanto, que o fato de Bela ser muito bonita desvia a atenção de suas virtudes. Ao longo da história, ela continuará bonita, mas terá sua beleza interior reconhecida.
É curioso que a beleza engana normalmente na bruxa má, que usa a beleza como uma arma para propositalmente enganar. Bela nos é apresentada com uma beleza natural e espontânea, sendo que a das outras moças parece artificial. No caso de Bela, percebemos algo que eu associo ao pecado original: um bem inferior (a aparência) pode ofuscar um bem superior (a virtude).
O desenvolvimento do personagem
Disse que Bela se destaca por características interiores também, ela é culta, gentil, corajosa, inteligente, com consciência de sua própria dignidade. Ou seja, ela começa a história já pronta para a aventura, tanto que ela não hesita em correr atrás do pai na floresta, ou em propor ficar no lugar dele na prisão. É claro que são decisões precipitadas, mas mostra que, de certa forma, ela já tinha as habilidades que a aventura exigia.
Explico dando um exemplo: não é um herói que precisava de coragem e força para superar os desafios da aventura. Bela já tinha as características apropriadas. O que lhe faltava era a prática, a vivência, o processo. E aí vem a questão: ela cresceu nesse processo? Ela saiu da história como uma pessoa diferente, melhor? Vejo três meios de explicar seu processo interno.
(1) Ela se abriu, encontrou seu igual, seu par - Podemos ver que a história de Bela não é de adquirir virtudes para enfrentar dragões e superar monstros, mas sim de se abrir, de fazer sua beleza interior brilhar mais do que a exterior. Para isso, ela deixou a vila onde beleza significava tudo, para ir ao castelo onde a maldição reduziu a beleza a nada. Sua beleza mal foi elogiada, mas sim o fato de ser uma moça, e sua personalidade. E neste mundo amaldiçoado ela encontra seu par. Ela e a Fera sofriam, cada um à sua maneira, o fato da aparência esconder seu melhor lado. São como opostos idênticos, imagens refletidas num espelho. O processo da história seria, então a aproximação desses opostos nesse ponto de convergência. Bela, em expressar seu melhor lado, e a Fera, em desenvolver seu lado interno.
Nessa perspectiva, Bela começa assustada, injustiçada, em solidão. Depois ela revela uma saudável teimosia em negar o jantar. Neste caso, não vemos isso como uma negação da aventura, mas sim uma aceitação da aventura pela negação em continuar. Bela sabia que não podia se reduzir a um joguete do destino, pois, mesmo prisioneira, não perderia sua dignidade e sua liberdade interior. Sua negação é o grito de sua alma de que faria as coisas do jeito certo. É uma oportunidade única de expressão. É um ato de teimosia, mas é um ato de afirmação da própria liberdade, dos próprios desejos.
Depois ela vai conhecer mais o castelo e é movida por curiosidade. Ela finalmente segue em frente, não obrigada pelo destino, e sim porque ela quer. Encontra a rosa e é assustada pela Fera. Seu processo de abertura foi interrompido e ela foge só para finalmente descobrir algo de bom na Fera que a salvaria. E percebeu de algum modo que a Fera a salvara não por egoísmo (para se mostrar ou para criar uma dívida de gratidão). Isso significava que a Fera merecia alguma confiança, e essa confiança permitiu que Bela se abrisse mais e mais, mostrando seu lado culto, doce, gentil.
Bela só deve ter percebido plenamente que amava a Fera ao voltar com seu pai para casa. De fato, parece que ela teria aceito o amor da Fera se esta se confessasse após a dança, mas talvez faltasse algo para o amor entre os dois ser perfeito. Faltaria a liberdade. Bela foi se abrindo ao longo da história e se identificando com a Fera. Mas o amor provado é diferente do amor não provado. O fato de bela ter voltado tornou seu amor maior, livre, ativo. E o processo de Bela termina não quando ela ama a Fera, mas quando termina de abrir seu coração e confessa seu amor, quebrando o feitiço.
(1A) (complemento de 22/03/3022) Bela em busca de um lar. Existem duas músicas adicionadas posteriormente que fazem sentido para esta abordagem: Home (Lar) e A Change in Me (talvez uma terceira seria a reprise de Lar após a transformação da Fera em Humano). O bom humor de Bela às vezes sobressai em relação a ela se sentir uma estrangeira, uma estranha, na vila em que vivia. Ela era amada por sua simpatia e beleza, porém a achavam estranha, diferente. Bela lidava bem com a situação de não ser bem compreendida porque tinha seu pai, cujo amor paternal a possibilitou crescer com saúde psicológica.
Aqui, gostaria de chamar atenção para a recepção de Bela no castelo pelos criados. Além da relação com a Fera, que foi tumultuada no início, Bela contou com novas amizades em seu novo lar. Essas amizades foram muito importantes, talvez tenha sido as primeiras pessoas que Bela sentiu senta sintonia (além de seu pai - o bibliotecário também, mas ele não tinha a mesma energia dos outros personagens). Bela logo na primeira noite sente que o castelo pode ser um lar, inclusive mais animado, profundo, interessante, do que sua vida na vila. O grande problema era a Fera, e apenas ela.
Na verdade, sabemos que Bela queria uma vida diferente daquela que levava na vila, e teria isso no castelo. Devemos pensar que Bela já tinha aproveitado o máximo do que a vila podia ensinar, e que sua aventura era encontrar um novo lar, um lar que realmente contivesse seu coração (diferente da vila). Seu aparente retrocesso e desejo de voltar para a vila era, na verdade, causado pelo medo da Fera.
O castelo era o novo lar de Bela (e a Fera se tornaria também o lar de Bela depois). O castelo e os criados tinham aquilo que Bela queria: um universo curioso e interessante, e pessoas receptivas, animadas e com a capacidade de se relacionar com ela de forma profunda (ao menos, mais profunda do que qualquer pessoa da vila).
Assim entendemos bem a citada música A change in me. Nela, a heroína diz que sua aventura a mudou, porém não mudou seu coração. Difícil de interpretar, eu acho. Em uma frase mais simples: Bela mudou, mas o que mudou não foi seu coração. O que foi isso, exatamente? Seu coração, que representa seu íntimo, o que ela realmente é, não mudou, e nem poderia. O que mudou foi o fato de seu coração ter sido compreendido e valorizado, e isso vaporizou as dúvidas e inseguranças que ela tinha, lhe deu calma. Bom, também o próprio ato de aventurar-se, de conhecer coisas novas, de ver as coisas mudarem, também a fez crescer, mas isso é secundário.
(2) Não conquistar, mas ser conquistada - Essa é uma perspectiva mais útil em relação à Fera. O processo de Bela não era de conquistar, mas de ser conquistada. Por ser um processo de desenvolvimento, não devemos ver de forma passiva, como se ela simplesmente estivesse à mercê do conquistador. Na verdade, é uma postura ativa: filtrar, julgar, escolher. A Fera tinha que mostrar seu valor para ser aceita por Bela.
Vemos aqui uma diferença entre Gaston e a Fera. Gaston conseguia controlar mais suas emoções (ou fingir mais suas emoções), era mais galante, autoconfiante. A Fera se apresenta como um personagem injusto, grosseiro, raivoso. Se pudesse escolher entre Gaston e a Fera, Bela poderia ter escolhido o primeiro (ou talvez escolhido não escolher, já que ela era teimosa). A diferença é que Gaston tinha suas imperfeições consolidadas em seu coração. A maldição da Fera tornou seus defeitos aparentes, tão aparentes que a Fera almejava ser purificada, desejava que se arrancasse suas imperfeições não importasse quão fundas as suas raízes estivessem. O teste que separou Gaston e a Fera foi o seguinte: Gaston não se tornaria melhor com Bela; a Fera sim.
Usando uma imagem: Bela queria alguém rico. Nem Gaston nem a Fera o eram. Bela iria emprestar um tostão aos dois. Gaston recusou. A Fera transformou o tostão em um pote de ouro e se tornou rica, podendo assim se casar com Bela. Na história, a demonstração dessa riqueza adquirida é quando a Fera se recusa a matar Gaston.
Acho essa explicação boa, porém é melhor para explicar a Fera, e não tanto para explicar o desenvolvimento de Bela, pois seu papel na história ainda é mais passivo do que eu considero ideal.
(3) Ela teve um tropeço ou um retrocesso - aqui uma visão interessante: o desenvolvimento de Bela pode não ter sido linear. Os heróis nas histórias não agem apenas corretamente, às vezes erram, se desviam, mas depois se endireitam. Figurativamente, o herói mais forte de todos sai em aventura e quebra sua espada (ficando fraco), precisando passar por desafios até obter uma nova arma.
Dessa vez, não vou narrar uma história como em (1), em que Bela está em um processo de se abrir cada vez mais, quase sem retrocesso (o mais próximo disso seria a fuga, mas foi rápido demais, foi mais uma reação de medo do que uma decisão consciente).
Dissemos que Bela começa a história como a pessoa mais capaz de olhar o interior das pessoas (com exceção talvez de seu pai). A história do desenvolvimento da personagem começa de verdade no castelo. Ela, a mais compreensiva dos personagens, tem um retrocesso: vê seu pai preso e isso a faz agir pela emoção (o que é justificável). Briga com a Fera e age por impulso, com medo por seu pai e por si mesma. Sequer pode chorar e compreender sua nova situação quando a Fera grosseiramente pede para ela fazer companhia no jantar.
Sinto um desconforto em acusar Bela de ser excessivamente teimosa (Felix culpa). Mas veja: ela sempre agiu bem, nunca precisou ser duramente recriminada por uma falta, sempre agiu com os sentimentos corretos, com justiça, compreendendo sua dignidade. Mas temos que admitir que ela era imatura, querendo as coisas do seu jeito de forma um tanto egoísta. Não quero com isso negar que ela era uma pessoa excepcional, gentil, bondosa, profunda. Diante dos acontecimentos no castelo, Bela precisava psicologicamente se afirmar, se impor. Daí sua teimosia e em querer mostrar que era mais esperta e que podia fazer as coisas do seu jeito.
A mudança começa quando ela descobre que o castelo não é tão hostil. Os criados são gentis, e o problema parece ser apenas a Fera. Isso a desarma, e ela está pronta para ser de novo uma pessoa mais compreensiva. Aqui há uma curiosa antítese: Bela diz que deseja que a Fera não vivesse lá, e logo depois tem curiosidade de ir ao local proibido do castelo para saber quais os segredos da Fera, inclusive preferindo isso a ir até a biblioteca. Como compatibilizar essas duas ideias? Creio que haja um certo chamado de Bela para ir até o local da rosa, que é o destino chamando-a. Essa explicação, contudo, não me basta. O mais provável é que Bela estivesse confusa, tendo sentimentos demais para lidar. Ela queria distância da Fera, mas ao mesmo tempo já estava mais calma e talvez poderia lhe dar uma segunda chance. Talvez, se tivesse voltado ao seu quarto e a Fera lhe entregasse um prato para ela jantar, ela aceitasse (contanto que a Fera não a desrespeitasse de novo). Mas o destino não quis que fosse assim. Bela tinha algo a aprender, tinha que cometer um erro grave que atingisse seu orgulho.
Bela foi até o local proibido do castelo e lá encontra um tesouro: a rosa. Era uma flor tão bela que a heroina desejava tocá-la. Pode ser o símbolo do coração da Fera. Bela percebeu que havia algo de bom escondido no fundo da Fera, algo que Bela desejaria tocar. Mas a Fera se surpreendeu e reagiu de forma explosiva. A Fera viria a se arrepender profundamente de sua raiva desmedida, mas parecia ser tarde demais. Bela fugiu. O que Bela sentia? Também creio que não podemos dizer que é apenas medo da Fera. Bela sabia que tinha violado uma regra da casa, mas, mais do que isso, podia perceber que não era uma regra arbitrária, e sim que a área era proibida para se proteger algo precioso. Bela não fora tratada como uma invasora quando entrou no castelo à procura de seu pai, mas se tornou invasora naquela ala oeste. Não era uma daquelas travessuras de criança que terminava em risada, era algo sério, a violação de algo pessoal e íntimo. Bela tinha medo da Fera, mas também tinha vergonha do que ela mesma fez, e pode ter sentido uma nova insegurança. Explico: estava começando a perceber que sua situação não era tão má, e que a Fera podia ter algo de bom, e depois descobre que a Fera se importava com algo e não era simplesmente um monstro, mas aí é descoberta em sua violação e a Fera que antes tentava se conter já não se conteve tanto assim. A insegurança é o fato de que Bela não era a pessoa perfeita e que poderia merecer o desprezo justo de alguém. Talvez isso tenha despedaçado o resto de esperança que ela reuniu de que poderia conviver com a Fera no castelo. Talvez, se Bela neste caso conseguisse retornar em segurança para sua vida, ela não conseguisse conviver consigo mesma, com o fato dela ter errado com alguém a quem pouco antes ela estaria disposta a dar uma segunda chance.
Quando a Fera salva Bela, existe um certo alívio não só em ser salva, mas em merecer ser salva, na Fera não desprezá-la como ela poderia merecer. Bela estava muito insegura por tudo o que ocorreu, mas pode relaxar depois disso. Ela ficou grata à Fera por tê-la salvo dos lobos e por tê-la salva de si mesma. Depois disso, a história segue com Bela já tendo descoberto que a Fera não era tão má. Creio que existe um significado importante de Bela ter visto a rosa, pois significa que ela vislumbrou que, no fundo, havia bem na Fera.
Se tudo o que disse nesta parte (3) é correto, restaria dar algumas palavras sobre o fato de Bela ter abandonado a Fera em busca de seu pai doente. O significado disso é também outro retrocesso, é o momento em que o herói hesita antes do desafio final. Ele tem a última chance de fugir do desfecho. Se Bela vivia tão bem no castelo, por que abandoná-lo para sempre? Não poderia voltar com seu pai para lá? Poderia, mas ela tem esse último receio, pois sua transformação não tinha finalizado. Voltando em casa com seu pai, ela toma consciência de que ela já não é mais a mesma, e aquela já não é a sua casa, o seu lar. Poderia demorar, mas ela provavelmente voltaria ao castelo para reencontrar a Fera. Só que, se demorasse, a última pétala teria caído, consolidando a maldição.
Conclusão
Pois bem, queria compartilhar algumas reflexões sobre o desenvolvimento de Bela. Aproveito a conclusão para dizer que não me atrevo a dizer que nenhuma das interpretações que fiz está 100% correta. Mas são opções de como interpretar a jornada da personagem. Espero que isso possa ajudar especialmente alguém que queira interpretar Bela.
Ao que me parece, minhas propostas de interpretação são complementares. Um personagem realista vive tensões internas e aquilo que ele faz pode ter vários sentidos. Espero poder contribuir para uma compreensão mais profunda do personagem.
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