Reflexões sobre Kimetsu no Yaiba (1)
Farei uma série de postagens sobre o anime Kimetsu no Yaiba (Demon Slayer). Escrevi em outra ocasião que gosto muito do anime e gostaria de apontar algumas reflexões bem variadas sobre ele. Avisarei se houver spoilers no começo dos textos.
O protagonista é gentil, mas não é chorão (nem valentão)
Mesmo antes de assistir ao anime, tenho refletido sobre muitas histórias de animes, desenhos, filmes, séries, se esforçarem para o herói não matar o vilão. Nos filmes animados da Disney, é frequente que o vilão morra, mas morra por seu próprio egoísmo ou arrogância ou por tentar fazer alguma maldade, e não pelo herói matá-lo conscientemente. Como é conteúdo infantil, penso que essa escolha ocorre para a criança manter a consciência moral de que matar é errado, tão errado que mesmo que o herói possa roubar ou enganar, ele não pode matar. Isso se aplica mesmo a animais selvagens, que não são mortos intencionalmente pelo herói (se que é são mortos). Curiosamente, mesmo vilões podem não querer matar se há um clima mais leve na história.
Um outro extremo é a rápida banalização do assassinato. Isso ocorre mais em conteúdo adolescente ou adulto. A morte de outra pessoa causa um choque, mas com o tempo o protagonista perde a compreensão de que aquilo é tão errado, podendo matar um monte de figurantes de uma vez.
Dito isso, existem certas opções intermediárias que me parecem mais realistas. Não são tão comuns para conteúdo infantil, embora eu pense que não seria problema a criança ver que o herói pode ter que matar um vilão obstinado como legítima defesa. O caso de Kimetsu é bastante interessante nesse sentido.
Na animação, os vilões são os onis (demônios), que são mais próximos de zumbis ou vampiros. Eles eram pessoas normais, mas foram transformados em monstros que se alimentam dos vivos. Alguns deles são racionais (embora percam as memórias de quando eram humanos) e outros perdem a racionalidade.
A história começa quando a irmã do protagonista Tanjiro é transformada em oni. Ela consegue ficar racional e se lembrar de quando era humana. Isso ajuda o herói a sentir empatia com os onis. Ele também consegue sentir o cheiro de certas emoções, o que reforça essa empatia. Em vários momentos, ele encontra onis que têm histórias tristes que o fazem simpatizar por eles.
Tanjiro é um rapaz gentil por conseguir se preocupar com os próprios onis (praticamente ninguém na história vê os onis com qualquer compaixão). Mas o diferencial de várias outras histórias é que ele rapidamente aprende a não hesitar em matá-los se necessário. Assim, ele não é um personagem "chorão", que tem um coração bom e que tolerar injustiça contra si e que hesita muito em matar os vilões, querendo salvar todos ou aprisioná-los ou achar alguma solução que não seja definitiva.
Ao mesmo tempo, não vemos Tanjiro desenvolver uma atitude arrogante. Nas histórias em que os heróis precisam matar os inimigos, muitas vezes o protagonista é mais valentão, se superestima, e isso lhe dá um carisma especial. Ele continua bom, mas essa dureza necessária para matar os inimigos reflete na sua personalidade.
Assim, Tanjiro é um personagem bem único nos animes por unir a capacidade de sentir empatia dos inimigos com a capacidade de matá-los sem hesitar se for necessário. Essa união aparece com alguma frequência em batalhas isoladas de certos heróis, mas em Tanjiro, isso é algo que praticamente vemos em sua personalidade pela forma que a obra apresenta.
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