Reflexões sobre Kimetsu no Yaiba (2)
Kimetsu no Yaiba se passa na era Taisho. É uma escolha interessante.
Devo explicar, para entender o período, ele sucedeu a Era Meiji, que foi um momento em que o Japão começou a se ocidentalizar. Samurai X (Rurouni Kenshin) se passa na Era Meiji, por exemplo. O Japão foi forçado pela marinha inglesa a se abrir, começando a adotar mudanças políticas e econômicas. O feudalismo acabou, iniciou a industrialização e criação das ferrovias.
A Era Taisho deu continuidade à ocidentalização do Japão. Nesse período, temos um auge do poder japonês, que começou a copiar o Ocidente também no imperialismo. Nessa época, também há mais problemas econômicos e políticos. Assim como o Japão atual, o país preservou bastante da cultura tradicional, especialmente longe das grandes cidades.
O anime conseguiu até agora mostrar uma parte da cultura mais tradicional que vem desde a época feudal e outra da modernização do país. Isso começa a ficar mais claro na segunda temporada (pois a primeira temporada ocorre basicamente em ambiente rural, longe da modernização).
Kimetsu fez bem em conseguir apresentar vários elementos bem característicos da cultura japonesa, mas em uma versão que está se modernizando. Temos as famosas katanas (apesar de serem proibidas desde a Era Meiji), as máscaras japonesas, as gueixas (cortesãs japonesas), os onis (monstros mitológicos japoneses; na verdade o anime mudou o conceito deles apesar de usar o nome de oni). Mas o Japão já não tem feudos, nem samurais, nem ninjas (até há, mas já foram praticamente extintos há certo tempo). Os caçadores de onis usam uma roupa ocidental muitas vezes com um kimono colorido e com desenhos por cima (esse kimono é mais popular com os avanços econômicos depois do fim da era feudal), mas nas cidades já é comum quem use apenas a roupa ocidental. Já há cidades bem ocidentalizadas e os trens já são vistos com certa naturalidade por muitos.
Tanjiro e Inosuke ficam assustados com as novidades modernas não por elas serem tão recentes, mas por eles viverem afastados dos grandes centros, não tendo contato com eles.
Além de mostrar um possível contraste entre o antigo e o moderno nesses elementos exteriores, esse contraste é perceptível se observarmos elementos mais profundos. As pessoas já não acreditam mais em onis (quem acredita neles são especialmente os idosos), por exemplo, o que reflete aquele desencantamento ou desmaravilhamento do mundo.
Mas o contraste que gostaria de apontar é aquele entre nós - público - e o que o anime mostra. Explico melhor: o anime não se passa em um mundo feudal tão distante do nosso. Podemos olhar com admiração certos elementos feudais que ainda estão vivos, mas que hoje - especialmente no Ocidente - já não percebemos tão bem. O líder dos caçadores de onis impõe um respeito digno de um nobre - mas não há mais nobres oficialmente. A lealdade dos caçadores é digna de samurais - mas já não há samurais. A força de vontade e o treinamento árduo são resquícios de um mundo mais brutal, e as novas gerações já não são capazes, em regra, de se esforçarem o máximo e suportarem o treinamento necessário. São heranças de um mundo antigo, mas que nos parecem muito admiráveis, e que nos faltam hoje.
Se esses elementos fossem apresentados em uma época mais próxima, como ocorre em Bleach, seríamos praticamente forçados a seguirmos uma história que é mais mística, de eventos mais ocultos. Em Kimetsu, os eventos se passam no mesmo mundo que o nosso, e isso reforça esse sentimento de que eles não são tão incompatíveis com o mundo ocidentalizado.
De certa forma, parece que essa é uma das propostas do anime: mostrar vários elementos culturais, sobretudo tradicionais, de que possamos admirar e desejar. Mas eles não são incompatíveis com a cultura ocidental.
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