Reflexões sobre Kimetsu no Yaiba (parte 3)

     Aqui falarei sobre Rengoku, o hashira das chamas, apresentado no filme de Kimetsu e no arco do Trem Infinito (da segunda temporada). Aqui, é um detalhe sobre a infância dele, então não contém nenhum spoiler sobre os acontecimentos relevantes da história.


    O que eu gostaria de apontar é sobre a mãe de Rengoku. É curioso que ela mal aparece na história, mas as cenas que apareceram são muito importantes ao ponto de eu propor essa análise.

    Rengoku é filho de outro usuário da respiração das chamas, seu pai. Mas quem aparece lhe dando um propósito moral é sua mãe. Ela aparece em uma cena em que Rengoku é uma criança pequena. Ela lhe pergunta por que ele é mais forte que os outros, e pede para ele pensar antes de responder. A cena é apresentada mostrando que ela fala com seriedade com o filho, e que ele deveria prestar atenção porque era importante. Ele não sabe. A mãe responde que ele é mais forte para poder proteger os mais fracos, e que quem nasce com mais dons deve usá-los em favor da humanidade e nunca para prejudicar os outros ou para fins egoístas. Rengoku criança diz que irá agir daquele modo e a mãe abre os braços para ele abraçá-la.

    Aqui nós temos uma explicação que as crianças usam mais e que a ciência rejeita (pois não é do domínio da ciência): Rengoku é forte para proteger o mais fraco. A causa é a finalidade. É a mesma coisa que dizer que o sol brilha para que possamos enxergar melhor as coisas. Não é a causa no sentido de causa eficiente, do que fez Rengoku ser forte (A genética? O treinamento? A sorte pura e simples?). É uma explicação que as crianças usam mais do que os adultos e que entendem mais. Os adultos podem precisar disso, mas para eles envolve um sistema mais complexo de crenças e de visão de mundo.

    Gostaria de chamar atenção para o fato de ser a mãe que lhe diz isso. De fato, o pai poderia lhe ensinar sobre isso em um momento como o do Rei Leão sobre o ciclo da vida. A regra é que o menino aprenda sobre a masculinidade com o pai. Hoje não é bem assim, tendo o pai substituído pelo treinador de futebol americano, por um líder espiritual, por um professor etc.. O ponto é que a figura paterna atua como guia da masculinidade ao filho, e deve lhe passar o que é ser homem em concreto. Ainda em Rei Leão, a masculinidade concreta era ser rei (e não um ser masculino qualquer).

    Mas a mãe tem um papel importante inclusive na masculinidade do filho (e não só como modelo feminino). As mulheres sempre se atentaram mais para a moralidade, para "civilizar" o homem bárbaro. O exemplo mais bacana é da cavalaria europeia. As mulheres ensinavam etiqueta e polidez ao escudeiro (ou mesmo antes). Mas o que a mãe de Rengoku faz é dar ao filho uma forte bússola moral, e isso só é possível pelo vínculo afetivo entre os dois. Ela o acolhe ao final da conversa, e sua fala mostra respeito e admiração pela masculinidade. Não pelo que hoje chamam de masculinidade tóxica, mas pela masculinidade no sentido de ter força e usá-la para proteção dos mais fracos. Ela é muito consciente do próprio papel na formação moral do filho e da importância de ser forte em um mundo hostil.

    A mãe de Rengoku acaba sendo a pessoa a quem ele poderia recorrer para manter seu ideal elevado de masculinidade, não por ela ser um modelo a ser imitado, e sim por ela ter admiração e altas expectativas. Rengoku tinha essa insegurança de não saber se cumpriu seu papel e que nos faz lembrar que ele é um jovem (de 20 anos). Essa insegurança não foi totalmente suprida pela honra que recebia do mestre dos caçadores e dos seus pares, pois era uma insegurança de raiz moral, e que ele podia vencer se comprometendo a fazer o seu melhor a todo momento, sem deixar o passado lhe assombrar ou paralisar. Essa honra que ele recebia indica a via masculina de reconhecimento, e, como ele ainda tinha alguma insegurança, podemos deduzir a importância também da via feminina, da admiração e da perspectiva moral.


    Temos algo semelhante com outra mulher em Kimeto: a senhora idosa que recebe os três protagonistas no meio da primeira temporada. Na despedida, ela pede para eles andarem com a cabeça erguida. Inosuke não entende e cria uma situação engraçada. Fica mais claro outro aspecto: é o mais fraco reconhecendo os dons do mais forte e pedindo para ele ter orgulho (um bom orgulho) de sua força. Ela é grata aos caçadores e também reconhece a importância disso.


    Apresentei essas passagens especialmente para apontar que nelas temos a harmonia de alguns elementos que hoje olhamos com desconfiança. São passagens que valorizam a masculinidade e a força física, quando muitas vezes são elementos vistos com desconfiança. Também contém neles uma visão de mundo que compreende bem que as pessoas são diferentes e que aceitaria facilmente uma sociedade com uma aristocracia/nobreza, e que as pessoas devem se orgulhar (num bom sentido) de seus dons, e que a força não significa opressão. O status de nobreza gera obrigações desproporcionais, que é o contrapeso de gerar privilégios.

    Pode haver abusos da força e da nobreza, mas, como diz o adágio, o abuso não tolhe o uso, ou pelo menos o ideal é que não o faça.

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