Sobre o uso da jornada do herói
Recentemente, tenho lido um pouco sobre a cultura grega antiga. Em especial, li Ilíada e estranhei a história. Na verdade, eu não sabia bem sobre do que trataria o livro. Pensava que era uma narração sobre a guerra de Troia, porém era um episódio no contexto dessa guerra. Ilíada trata especialmente da ira de Aquiles, que vai da briga que ele teve com Agamenon até o retorno dele à guerra. Tentarei dar poucos spoilers aqui, mas alguns serão inevitáveis.
O estranho era que o herói Aquiles tem pouco desenvolvimento de personalidade durante a guerra. Para mim parecia mais uma birra (talvez com alguma razão, mas certamente exagerada) e levou a não apoiar os gregos nos combates, de modo que estes sofriam grandes perdas.
A função da história não era mostrar que Aquiles desenvolveu alguma virtude ou se desenvolveu durante a história. Os gregos entendiam que a história não era sobre o crescimento de um herói, e sim sobre um herói já feito. E um dos pontos que eu não entendi era que os gregos não viam a conduta de Aquiles como injusta, mas como bem justificada. O que realmente importou não era ele não ter recebido os espólios de uma das batalhas, e sim ele ter sua honra ferida por Agamemon. Os heróis merecem a honra assim como deuses merecem os sacrifícios, daí é compreensível e justo que ele recuse em continuar ajudando nas batalhas se não seria reconhecido pelos seus pares.
Parece que só algum tempo depois que os gregos começaram a se preocupar mais em como os heróis eram formados. O mais importante da história era mostrar vários heróis conhecidos dos gregos como o próprio Aquiles, Agamenon, Ajax, Odisseu, lutando juntos em uma guerra importante. Os heróis são apresentados como exemplos adultos a servirem de modelos, e não como humanos comuns se esforçando para superar seus limites. Na verdade, os heróis são mais semideuses em sua grandeza e é assim que são retratados.
O ponto que gostaria de chegar é essa reflexão: será que quando usamos a jornada do herói não só para interpretar certos elementos do enredo, mas para fazer histórias que serão interpretadas segundo esse mesmo modelo, não acaba fechando as histórias para outras que não se encaixam bem nesse modelo de história?
Ou, a outra reflexão: será que não falta modelos na literatura atual que sejam de heróis já formados? Pois a maioria seria de heróis em formação, sem termos a oportunidade de vê-los no seu auge exceto no final da história (ou, em alguma parte pequena da história).
Bem, existem filmes que poderíamos talvez citar, como o filme 300 de Esparta. Acho que também Batman vs. Superman e a Liga da Justiça têm em parte esse elemento de não seguirem a estrutura da jornada do herói, e sim de apresentar heróis formados que não precisam de uma grande transformação. No caso do Batman vs. Superman, o filme foi mal feito, então é complicado compreender a ideia nele. Na Liga da Justiça na versão de Snyder, os heróis mais conhecidos (Batman, Superman e Mulher Maravilha) nos são apresentados mais como modelos já formados. A aventura ainda transforma o herói, porém meu ponto é que se pensarmos só em termos de jornada do herói teremos uma incapacidade de compreender a apresentação de modelos que já surgem "perfeitos" desde o início da narrativa.
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