A estranha rejeição da gnose em Fullmetal Alchemist

    Falarei sobre o incomum final de Fullmetal Alchemist dado seu conteúdo ocultista.

    Trato do anime, mas farei uma apresentação dos pontos importantes, não sendo preciso ter visto esse anime, que é muito bom, a propósito.

    Fullmetal Alchemist trata da jornada dos irmãos Elric atrás da pedra filosofal para poderem recuperar seus corpos, perdidos ao tentarem ressuscitar sua falecida mãe por meio da alquimia. A alquimia não é proibida, mas ela tem certas proibições e limites, que seriam ultrapassáveis pela descoberta da pedra filosofal.

    Aqui, é importante para minha análise apontar que trabalha com vários elementos ocultistas, inclusive a própria alquimia. Traz referências a noções panteístas e mágicas do mundo real. Tem também um questionamento teológico claro no seu fundo, que é o questionamento da moralidade de Deus, e das leis morais. Dito isso, não acho que seja um conteúdo imoral se bem trabalhado e se as questões propostas forem esclarecidas por fora.

    Geralmente, quem se envolve com profundidade nesse conteúdo acaba tendo uma visão que tende ao gnosticismo, o que eu não acho bom. Mas Fullmetal Alchemist acaba rejeitando a gnose, no final, e isso já existe desde o começo nos protagonistas. Vejamos.

    O que é o gnosticismo? Pode haver certa disputa sobre a definição, mas é uma crença de que existe um conhecimento (gnose) oculto que é a chave para a espiritualização do homem. Aqui, é importante perceber que é o homem que se espiritualiza (ou seja, ele não é salvo por Deus, mas se salva). Ao se espiritualizar, ele pode apenas ter a sua salvação (como os fantasmas da força em Star Wars ou as seitas cátaras da Idade Média), como também obterem o domínio de poderes sobre o mundo material (como a força em Star Wars e como a pedra filosofal). Esse conhecimento é, no fundo, a plena consciência de que o Eu é divino (ou parte da divindade). Não basta saber que é Deus, é preciso de uma compreensão profunda, intuitiva, irracional, uma experiência mística, o que exige que a alma esteja preparada para essa revelação. Não posso me alongar muito na explicação, mas creio que isso baste.

    Em Fullmetal Alchemist, nós vemos vários desses elementos gnósticos. Na verdade, o mundo, o cosmo, é gnóstico. Irei defender que, apesar disso, os protagonistas não o são. Mas sobre o mundo gnóstico:

a) A Verdade: Quando um alquimista tenta realizar a proibida transmutação humana, ele acessa uma espécie de plano espiritual, em que se depara com o seu Portão da Verdade. Esse portão contém símbolos que parecem variar de pessoa para pessoas, podendo conter, por exemplo, a Árvore da Vida cabalista. Esses símbolos (e talvez o próprio portão) são a "materialização" (não é bem material, na verdade, pois está em um plano espiritual) do conhecimento alquímico. Ao realizar a transmutação humana, o alquimista oferece (intencionalmente ou não) parte do seu corpo para abrir o portão e ter acesso direto à Verdade oculta atrás dele. O conhecimento adquirido depende do quanto é sacrificado.

Perceba que fala-se da Verdade atrás desse portão, que é uma verdade oculta, envolve uma certa violação às leis do mundo material (a transmutação humana é proibida), e concede certos poderes a quem viu a Verdade. São todos elementos gnósticos.

A Verdade se relaciona com vários olhos e vários braços/tentáculos que tentam puxar o alquimista. Seria muito tentar explicar a fundo a simbologia, mas se os olhos representarem o conhecimento e o perigo ameaçador e os braços representam a tentação e o risco de se fundir à verdade e não voltar, então são elementos gnósticos claros.

b) Deus: nesse mundo, Deus é representado por um ser humanoide inicialmente totalmente branco em um fundo branco, perceptível basicamente por seu contorno (e por sua boca). Ele não parece ter valores morais, e apenas se importa com a tal troca equivalente. É bem misterioso e acho que não lhe podemos atribuir intenções. Ele adquire as partes sacrificadas para abrir o portão (por exemplo, se alguém perdeu o braço, Deus ganha o seu braço).

É uma representação bastante estranha e um tanto desconfotável de Deus. Não devemos ver nele o Deus pessoal que conhecemos na tradição cristã, mas sim um Deus que transcende o mundo, mas que também representa as leis do mundo, inclusive as leis que levam à gnose.

Esse Deus não me parece uma representação típica de um Deus gnóstico, porém certamente não é nem cristão nem panteísta, logo é próximo de um Deus gnóstico. Isso porque ele é a personificação da Verdade, e se liga especialmente ao processo do alquimista buscar a Verdade proibida.

c) O alquimista é substancialmente diferente após o contato com a Verdade. No meio da trama percebemos que os vilões estão tentando realizar uma uma alquimia proibida muito mais avançada, e irão usar, para isso, o sacrifício de alquimistas que já tiveram contato com a Verdade, que realizaram a transmutação humana.

Por que não poderia ser com qualquer pessoa? Porque aqueles que tiveram contato com a Verdade se tornam diferentes. Inclusive, um deles é forçado a abrir o Portão, ou seja, não bastava seu caráter e força de vontade de alguém que pode abrir o portão, mas sim ele ter efetivamente feito isso.

Isso se encaixa bem na concepção gnóstica de que o a gnose não é um simples conhecimento enciclopédico, mas é uma experiência transcendente e transformadora.


Dito isso, podemos compreender que o mundo fantástico de Fullmetal Alchemist é um mundo gnóstico. Falemos agora da rejeição da gnose por Edward Elric (Ed).

    Ed é um dos protagonistas da história e o mais importante. Ele se culpa por seu irmão Alphonse ter perdido seu corpo na transmutação humana que os dois fizeram, e deseja obter a pedra filosofal para recuperarem seus corpos, especialmente o de Alphonse.

    No fim da história, Alphonse está morrendo. Ele sobreviveu sem seu corpo desde a transmutação humana, pois sua alma foi fixada em uma armadura por seu irmão, mas existe um limite de tempo que isso poderia durar, e esse limite tinha chegado.

    Ed resolve salvar o irmão, recuperando seu corpo (lembra que eu disse que o alquimista perdia parte do corpo para abrir o Portão? Alphonse perdeu todo o corpo, então todo o corpo ficou lá). Ed refaz a transmutação humana, indo até o plano espiritual e encontra Deus. Este lhe pergunta o que trocaria pelo irmão. Ed dificilmente sobreviveria se trocasse metade de seu corpo, penso. Aí vem a sacada genial do fim da história: Ed resolve sacrificar não seu corpo material, mas sim seu próprio Portão da Verdade. Sem ele, Ed perderia a capacidade de realizar a alquimia. E efetivamente consegue realizar o sacrifício, salvando o corpo de seu irmão

    Agora nos deparamos com o motivo de Edward não ser um gnóstico: ele rejeitou a gnose no final em troca de seu irmão. Essa rejeição é impensável para os gnósticos, pois a gnose é a salvação máxima. Rejeitá-la é rejeitar a partícula divina em si mesmo, tornando-se um ser puramente material, sem nada de espiritual. Como não sou gnóstico, achei genial esse final. Pode ser visto como o triunfo da moral sobre a gnose, mesmo com todas as suas limitações e problemas.

    Um final gnóstico seria Ed realizar a transmutação humana sacrificando o seu corpo todo, mas usando o conhecimento adquirido para dar a si mesmo um novo corpo espiritual (ou quase espiritual, como um corpo formado de ar ou alguma gosma amorfa que surgiria de seu corpo sacrificado). Com esse poder, ele também poderia criar um corpo a partir do barro para o seu irmão. Mas note que, mesmo o mundo sendo gnóstico, desde o início não vemos que esse seria o final. Sempre houve na história certa consciência do pecado da alquimia, e a lição de que a alquimia não deveria ser a solução para tudo. Desde o início, existe uma moralidade entre os protagonistas que destoa da estrutura gnóstica do cosmos, e essa moralidade venceu no final.

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