Contradição fundamental em Fullmetal Alchemist
Gostaria de apontar um problema no mundo de Fullmetal Alchemist (FA). Contém um spoiler do meio da história. Esse problema, na verdade, não é uma contradição no mundo criado, mas sim uma contradição no uso de conceitos do mundo real para descrever esse mundo fantástico. Mais especificamente, a contradição entre a alquimia e a "lei da troca equivalente".
Em FA existe a alquimia, que é o poder de decompor e formar substâncias a partir de outras substâncias existentes. Assim, por exemplo, se poderia usar água (H20) em hidrogênio (H2) e gás oxigênio (02) ou o inverso; também se pode usar a alquimia para apenas mudar o estado físico (transformar líquido em vapor, por exemplo) ou o formato (transformar um bloco de aço em uma espada de aço) ou controlar uma reação química (controlar o fogo).
A "lei da troca equivalente" rege a alquimia. A transformação da alquimia pode apenas tomar uma substância e gerar outra equivalente. Para nós, é equivalente à frase de Lavoisier "na natureza, na se cria, nada se destrói, tudo se transforma". A água que vira vapor continua sendo água; a água decomposta em hidrogênio e oxigênio já tinha os átomos das novas substâncias na substância original. O alquimista em FA não pode criar algo do nada, nem criar uma substância totalmente diferente a partir de outra (como criar ouro a partir do ferro).
FA fala da alquimia porque muitos alquimistas buscam a pedra filosofal, que seria a única substância capaz de violar a lei da troca equivalente. Ela seria capaz de criar matéria do nada, ou permitiria talvez até ressuscitar os mortos ou criar vida. Também parece haver um ganho de poder do alquimista, podendo ampliar o alcance e a força da sua alquimia, mas também realizar curas além dos limites da medicina alquímica de sua época.
Desde o começo em que ouvi sobre a lei da troca equivalente e a pedra filosofal, eu já imaginei o tal spoiler: a pedra filosofal não existe, ou, na verdade, ela não pode violar a lei da troca equivalente de verdade. O ponto é que ela exige o sacrifício de muita coisa para ser feita, se tornando uma espécie de bateria amplificadora da alquimia, mas ainda se desgastado com o uso e ainda não podendo violar certos limites do mundo, como ressuscitar os mortos. É claro que ainda fornece grande poder a possibilidade de ultrapassar alguns limites humanos, mas não os limites da natureza.
Até aqui, o ponto a que gostaria de chamar atenção é a lei da troca equivalente.
Agora, sobre a alquimia no nosso mundo. Existe certa discussão histórica, ou talvez apenas boatos aos curiosos, mas ela parece vir da Idade Antiga. Ela chegou no Ocidente no final da Idade Média e atingiu seu auge no meio da Idade Moderna. A alquimia, na verdade, envolvia conhecimento não só do que hoje chamaríamos de química, mas também de um conteúdo simbólico relacionado à astrologia e à mitologia.
A alquimia buscava a pedra filosofal. Ela seria uma espécie de chave da realidade, permitindo o alquimista obter coisas além do limite da natureza: a vida eterna, a cura de todos os males, a capacidade de criar vida, a transformação de qualquer substância em ouro. Este último é interessante, pois apontam que não é ouro de verdade, mas o "ouro alquímico". Na verdade, simboliza a evolução espiritual do próprio alquimista. Havia alquimistas que queriam gerar riqueza material mesmo, mas não me parece o mais importante da alquimia em sua essência.
Parece-me que a crença dos alquimistas era de que era preciso purificar a matéria em várias etapas até ela se espiritualizar. Os degraus da purificação da matéria gera substâncias cada vez mais puras e com propriedades diferentes. De certa forma, esse processo também simboliza a jornada espiritual pessoal de se libertar da matéria, pois o conhecimento alquímico era o conhecimento profundo da realidade e que transformava a própria pessoa que adquire tal conhecimento. Essa transformação pessoal pela aquisição do conhecimento alquímico está presente em FA, mas não é ponto da discussão.
No último parágrafo, aponto que a alquimia era, na verdade, uma seita, uma espécie de religião, que compreendia o mundo material como algo que deveria ser purificado até o espírito. Agora, o que levou ao fim da alquimia? A percepção de que as transformações da alquimia não geravam coisas tão novas; na verdade, eram rearranjos da matéria já existente. Não é minha área de estudo, mas apontam que Boyle foi um nome importante para se adotar uma postura mais científica e menos de seita (parece que Boyle mesmo era alquimista, mas parece ser uma transição; a alquimia ainda duraria algum tempo, mas em declínio). Depois veio o floguismo que durou um tempo até vir a química moderna com Lavoisier e a sua lei da conservação da massa, associada à frase dele que escrevi anteriormente.
Podemos ver que, na história, a lei da conservação da massa se associa ao fim da alquimia. Ela indicou um princípio seguro que permitiu a química moderna. Já em FA, a alquimia funciona com base na lei da troca equivalente. Isso não chega a ser uma contradição dentro do mundo fantástico porque essa alquimia é diferente da nossa alquimia histórica. A alquimia do desenho é mais mágica, mais materialista, sem maiores pretensões de atingir o espírito pela alquimia. Contudo, no nosso mundo, seria uma contradição.
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