Os tipos ideais na aventura medieval
Estou lendo recentemente um livro sobre a formação grega e acho que podemos usar alguns elementos do livro para outros momentos históricos. Basicamente, o ser humano ideal varia conforme o tempo. Na Grécia antiga, há o herói mítico, o trabalhador, o soldado, o cidadão, o filósofo. Muitas vezes os ideias posteriores englobam os anteriores - por exemplo, o soldado é o herói, só que subordinado ao patriotismo.
O caso interessante do medievo é a coexistência em um grupo de aventureiros de vários tipos ideais. Aqui, me refiro a grupos de fantasia medieval, frequentemente usados em RPGs, mas também em livros, filmes etc. Fazem referência a um momento de certa transição, em que elementos mais feudais e tradicionais coexistiram com elementos mais urbanos e inovadores.
1) Bárbaro, berserker - vou começar por ele, apesar de não estar sempre presente. Houve dois grandes momentos de contato com bárbaros: as migrações dos povos germânicos no final da Idade Antiga e começo da Idade Média; e as invasões vikings do meio da Idade Média. No RPG, o bárbaro deve ser mais o viking, inclusive neles que há o berseker. É o ideal do homem guerreiro, cujo valor é o heroísmo, a coragem, ainda sem noção forte de patriotismo. Até poderia haver vikings coexistindo com outros tipos, mas deve ser bem raro, pois as cidades surgem com mais força depois dos vikings terem sido contidos, mas não me parece totalmente anacrônico. (eu sei que pode haver anacronismo em RPG, mas estou usando-o como ferramenta para abordar a história)
2) Cavaleiro - Aqui, estou me referindo especialmente ao tipo nobre. O ideal de cavaleiro é interessante, pois ele variou. Começou como o guerreiro germânico que era submisso a um senhor. Aí o seu ideal era do guerreiro com o ideal de lealdade. A Igreja Católica o submeteu também à moral e à própria Igreja, tendo o ideal máximo no cavaleiro templário. Ainda assim, os cavaleiros laicos absorveram esses ideais. O RPG parece trabalhar com esses dois tipos: o templário (em que o elemento moral e religioso era mais predominante) e o cavaleiro "normal" desse momento (submisso a um senhor, mas com forte moral cristã). Posteriormente, a nobreza começou a absorver também o ideal do cavaleiro cortês, com uma vida com mais festa, amor cortês, música. Parece que esse tipo não é muito usado no RPG.
3) Bardo - Não vemos tanto em filmes o bardo, mas acredito que os bardos foram ganhando bastante destaque em conjunto com o ambiente mais cortês, já na época das cruzadas, em que se vem nascendo o ideal do cavaleiro cortês. Deve ter havido bardos antes, mas creio que o melhor momento para eles foi justamente na cultura da corte.
4) Clérigo - Basicamente, havia o clero secular (padres, párocos, bispos) e o clero regular (monges). Não faz sentido, em regra, o clero secular participar de aventuras, pois estão mais preocupados com os fiéis de uma região, e com a administração da região. Pode haver exceções, mas deveria ser explicado. No clero regular, o mais normal era os padres ficarem nos seus mosteiros até o surgimento da ordem franciscana e dominicana. Estes podiam ter uma vida mais errante para pregar o Evangelho. Inclusive já começa a surgir a figura do inquisidor vindo dessas ordens. Nas aventuras de RPG, o tipo de monge franciscano ou dominicano parece o mais próximo. Nestes, havia o voto de pobreza, uma vida com muito estudo, e grande capacidade de retórica. Os outros tipos de clérigos podem aparecer principalmente em aventuras mais locais, sem que precisem viajar o mundo.
5) Mago - A questão da magia é bem interessante. Precisamos diferenciar o mago Merlin, por exemplo, que seria de uma época mais anterior, do caso das bruxas, que seriam mais posteriores. Um mago Merlin, pelo estado da teologia e por não oferecer risco social e religioso, era bem mais aceito na sociedade e não deveria ter enormes problemas com o clero. O fenômeno das bruxas já é diferente, tendo maior condenação pela teologia do momento, havendo mais comoção social contra as bruxas por elas jogarem maldições, por exemplo. Não temos bem um tipo ideal histórico representado nas bruxas, mas elas poderiam existir em um RPG como inimigas ou podendo gerar conflitos sobre a forma de ver o mundo com outros grupos. Devo apontar que o fenômeno das bruxas não é uma herança dos tempos anteriores, mas sim quase um delírio coletivo pelo contato com outras culturas pagãs. Voltando ao mago, ele talvez até pudesse ser um clérigo, mas poderia ser um intelectual mais voltado para a natureza do que para a teologia (houve certos grupos clérigos com essa tendência mais forte, como os cistercienses e os franciscanos de Oxford).
6) Mercador - As guildas começam a surgir com as cidades. Os mercadores são a primeira guilda (se excluírmos os clérigos e os guerreiros e cavaleiros) a se formar. Aqui, podemos ver o nascimento de um ideal mais burguês, voltado ao dinheiro e aos bens materiais. No início, as guildas nascem como associações com fins religiosos, tendo um santo padroeiro, usando dinheiro também para caridade e melhorias locais. Este lado pode ser melhor explorado nos RPGs.
7) Mercenários - creio que sempre deve ter havido mercenários, porém eles ganham mais destaque no final da Idade Média (após século XII) e na Idade Moderna. Não seriam uma classe também muito típica, exceto se aparecerem como assassinos ou renegados, ou seja, não como uma guilda, e sim como indivíduos.
8) Outros guerreiros aventureiros como arqueiros, espadachins etc. - aí estaríamos falando mais de uma invenção dos RPGs. Muitas vezes, há uma guilda que treina essas pessoas. O que seria mais historicamente correto seria eles serem treinados por nobres para comporem o exército; ou, talvez, serem mercenários mesmo.
Bom, fiz essa descrição, mas vou apontar o ponto a que gostaria de chamar atenção.
Podemos ter em um grupo de aventureiros classes cujo ideal é bastante diferente, e isso é bem legal para a história. O clérigo tem o ideal de ter uma vida moral e buscar uma sabedoria espiritual. O mago tem um ideal de buscar o conhecimento. O cavaleiro deseja honra, o que exige tanto coragem quanto moralidade. O templário já é uma mistura de clérigo e cavaleiro. O mercador deseja bens materiais. O bardo já se volta mais para aproveitar a vida ou obter inspiração artística.
Como complemento, noto que esses tipos ideais visados pela educação continuaram mudando. O ideal de burguês foi aumentando até a Era Vitoriana. O ideal de busca pela verdade natural vai da filosofia natural, tropeça na alquimia, vai para a ciência moderna. A formação do nobre vai deixando o elemento guerreiro para adquirir mais a capacidade administrativa e adere também a figura do cavalheiro humanista, que é um amante das artes. Falando em humanista, temos um ideal do homem universal, que é cientista e artista. Com o crescimento do Estado, a administração dos nobres vai sendo substituída pela de burocratas, então vai surgindo um tipo mais burocrático: altamente treinado e técnico em aspectos racionais, intelectuais, com conhecimento de finanças e administração, mas sem um espírito inovador.
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