Reflexões sobre Kimetsu no Yaiba (4)
Este post contém spoilers do arco do trem infinito.
Gostaria aqui de apontar um ponto muito importante de Kimetsu que considero que não é trabalhado a contento na arte atual, que poderíamos chamar de apoteose por um ato de coragem que leva à morte real. Apoteose é a divinização do herói, é quando ele deixa de ser um simples humano para ser como um deus. Isso muitas vezes é simbólico. O que gostei é que essa apoteose surge com a morte do herói por um ato heróico de bravura e sacrifício.
Podemos encontrar atos de bravura de pessoas para salvar seu grupo em filmes e outras artes, mas em Kimetsu isso levou a uma apoteose épica. Aqui já posso dizer que é na morte de Rengoku. Não há quem não ficou impactado pela sua morte e veremos como isso foi construído e por que acho tão especial.
O arco do trem infinito consegue trabalhar bem o personagem e nos faz amá-lo como um herói ideal. Ele nos é apresentado como um modelo para todos, inclusive estimado pelos seus pares hashiras (hashira é a elite dos caçadores de onis). Não importa tanto se ele é o mais forte entre seus pares, mas ele tem um caráter admirável, digno do título de pilar das chamas. Ele parece ter sentimentos fortes, mas uma força de vontade ainda mais forte. É intenso, gentil, alegre, com forte senso prático, desejo por justiça.
Mas ele só brilha mesmo na segunda parte do filme, na luta contra Akasa. Que luta bem feita! Durante essa luta, vemos que aquele conflito parece mesmo uma luta entre ideais. Aí começamos a falar da apoteose. Rengoku praticamente corporifica o ideal de justiça e humanidade, e ele parece elevar não só seu corpo, mas seu espírito, no mais alto que um ser humano ousaria alcançar.
Akasa tenta convencer Rengoku a ser um oni. Esse ponto é muito impotante pela esta reflexão. Akasa gosta de lutar e quer atingir o máximo da habilidade física guerreira. Parece certas figuras de animes como o próprio Goku (Dragon Ball). O problema é que, para isso, Akasa aceitou quebrar os limites humanos para se tornar oni, capaz de viver para sempre, se aprimorar para sempre, lutar sem cansar, se regenerar de seus ferimentos. Para ele, não havia sentido em recusar a ser oni. Mas Rengoku não aceita. Vemos uma diferença formidável entre os dois. Rengoku tem consciência de que luta por um ideal (para proteger os mais fracos, como sua mãe lhe ensinou), mas, mais do que isso, ele valoriza a emeridade da vida humana. Rengoku diz que morrer faz parte da beleza de ser humano, e não só diz, como a sua morte revela o esplendor do potencial humano.
Em um mundo hedonista seria difícil compreender o que Rengoku disse, mas vou tentar apontar algumas reflexões. Certas coisas precisam se desgastar para poderem ser úteis e produzirem beleza. O giz do professor precisa se esfarelar para que ele ensine. Um diário precisa ser escrito até acabarem suas páginas para poder guardar seus segredos. A chama precisa consumir a lenha para poder brilhar. Rengoku percebe que a vida é assim. Recusar-se a se consumir é recusar-se a brilhar. Cada pequeno sacrifício, desgaste, é sinal de que se valoriza mais uma coisa do que outra: de que se valoriza mais o aprendizado do que o giz, ou que o sentimento que o papel, ou que o brilho que a madeira. E a morte é o sacrifício pessoal máximo, a prova definitiva de que há algo pelo qual vale a pena morrer. Quando Rengoku aceita a morte, ele mostra com ações que sua vida vale menos que seus ideais. Seus momentos finais são aqueles em que ele brilha mais, ele se mostra o ser humano que ele se tornou e que é modelo a ser seguido, e isso serve de plataforma para que sua morte brilhe ainda mais e mostre que esse homem tão ilustre é menor do que seu ideal.
Farei um paralelo com Romeu e Julieta. É com a morte do casal que podemos ver a intensidade do seu amor. Antes, parecia mais uma paixão adolescente, um fogo de palha. Era intenso e forte, especialmente por serem de famílias inimigas, mas foi a morte que marcou a grandiosidade desse amor. O sacrifício serve como prova de amor, e o sacrifício da própria vida é a maior delas. Também há um grito de que a vida não tem sentido sem o outro, de que eles preferiram morrer a viver sem seu par. Poderíamos dizer que Rengoku preferia morrer a abandonar seus ideias, e assim a morte foi a prova final do quanto ele valorizava aquilo que acreditava.
Esse sacrifício máximo é o que eu vejo como apoteose. O herói abandona a honra que recebe entre os vivos para obter uma glória que é dada aos mortos e/ou aos deuses. E isso é um espetáculo grandioso, quase uma tragédia (no sentido próprio da palavra).
Um ponto marcante é quando Rengoku teve o peito atravessado e ainda assim insiste em tentar matar o inimigo. Não é um sentimento de "já que vou morrer, vou levá-lo também", mas sim o desejo de cumprir o seu dever até o fim. Seu dever é matar o oni, e será ele que irá matá-lo, e não a luz do sol.
Num épico, não gasta a apoteose, é preciso que se preste o louvor ao herói divinizado, e isso vem depois. Tanjiro grita ao oni que foge que Rengoku não perdeu e não falhou, pois ele cumpriu sua missão e salvou as pessoas do trem. O mestre dos caçadores diz que não ficou triste pela morte de Rengoku, pois sua morte foi digna. As próprias lágrimas derramadas a ele também são uma homenagem, e sabemos que são lágrimas a um herói, lágrimas com certo orgulho e espanto.
Poderíamos dizer que Rengoku não merecia morrer, e que o final foi injusto neste sentido. Isso tem um fundo de verdade, mas falha em notar mais coisas. Todos nascem predestinados a morrer (a rejeição à morte é algo antinatural), mas existem mortes que são mais dignas que outras. Rengoku teve uma morte digna, e isso é justo. Se a história de Kimetsu terminasse aí, então sim haveria uma injustiça, mas a história continua, e esperamos um dia vermos que toda a luta valeu a pena. No final, não é sobre a morte ser justa ou injusta, mas se os esforços foram vazios ou repletos de sentido. Para o desenvolvimento dos próprios personagens, a morte de Rengoku teve um impacto, mas essa questão do enredo deve esperar.
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