Sobre pena de morte em fantasias com personagens poderosos
Esta é uma reflexão sobre filmes, séries, desenhos, animes, livros, quadrinhos, em que existem pessoas com superpoderes bastante desproporcionais. Defenderei que seria bastante provável o retorno da discussão sobre a pena de morte.
Contém inúmeros spoilers, mas acho que todos são publicamente conhecidos.
Muitas histórias com super-heróis trazem o valor da sacralidade da vida: Batman nunca mata; essa é a linha que ele não pode cruzar. Mas parece que não apenas o herói tem esse valor, mas a sociedade. Na DC, vilões são presos repetidas vezes no asilo Arkham (e fogem). Em Boku no Hero / My hero academy, prendem do vilão, mas não parecem cogitar a pena de morte. De novo, na DC, exilam vilões na Zona Fantasma, mas não os matam.
Há histórias em que os heróis precisam matar, como o caso do Homem de Ferro. Antiheróis geralmente não têm esses problemas, e outros heróis. Mas a morte causada por heróis tradicionalmente é em legítima defesa (é o único meio de salvar alguém ou o mundo).
Fugindo um pouco do assunto, temos histórias em que o Superman começa a matar, e o Batman precisa pará-lo. É a trama clássica de "Dark Knight returns", aparece no videogame "Injustice", e tentaram começar a adaptar ao cinema recentemente. Poderíamos imaginar outra história (não sei se já existe) em que o Batman ou outro herói se depara com um Estado punitivo que banaliza a pena de morte. Será que o Batman irá salvar vilões da pena de morte? Irá achar que a pena de morte é aceitável se feita pelo Estado?
Mas perceba o seguinte: existem seres com poderes tão desproporcionais que são basicamente imparáveis. Se o Superman ficasse louco, ele poderia matar praticamente todo mundo e todos os heróis em minutos, pegando-os desprevenidos. Inúmeros vilões são vencidos e presos, mas se fugirem não há nenhuma garantia de que alguém poderá pará-los. Outros vilões como o Coringa são basicamente incorrigíveis e altamente perigosos.
No caso do Superman, isso geralmente não é um problema, pois geralmente ele não fez nada para justificar a desconfiança. Aí poderia entrar uma discussão moral que por vezes Lex Luthor apresenta: a mera existência do Superman é um risco constante aos humanos, pois não há garantia de que ele será sempre bom. Meu ponto de vista neste caso é que o Superman geralmente não faz nada para merecer a desconfiança, não podendo ser punido ou morto preventivamente.
Mas voltemos ao caso de heróis mais controversos, vilões e antiheróis. Pensando de forma realista, muitos deles são simplesmente perigosos demais para continuarem vivos. É caso do Coringa. Várias vezes ele é capturado, foge, e volta a cometer crimes bizarros. A existência do Coringa é um risco ao mundo, e acredito que seria natural se imaginar que haveria protestos e políticos favoráveis à aplicação da pena de morte no seu caso.
Não cogito aqui a hipótese de executar sumariamente os vilões, mas sim da pena de morte após condenação em casos em que há um inevitável grande risco social e mínima chance dele se corrigir ou de poder ser usado (como no esquadrão suicida). Além do próprio Coringa, o All for One de Boku no Hero, o Superman de Injustice, Asula em Avatar: a lenda de Aang (esta podia pelo menos perder a dobra), os principais membros da Lótus Vermelha em Avatar: a lenda de Korra, ou o Magneto dos X-Men.
Em alguns casos é mais compreensível, como Aang por ser até vegetariano. Mas, ao mesmo tempo, ninguém na sua equipe se opunha a matar o inimigo. Aang poderia capturar algumas pessoas e até tirar a dobra, mas não poderia impedir que um Estado autônomo julgasse e condenasse à morte.
Na DC, poderíamos até imaginar que, no final, a posição política contra a pena de morte acabe vencendo, seja por ser muito cruel, seja por ser muito poder nas mãos do Estado, mas a ausência dessa discussão (até onde sei) é estranha.
Parece-me que um mundo realista que tenha a eclosão de pessoas com superpoderes, inclusive tendo passado por crises pelo mau uso deles (e Gothan está em uma crise permanente), teve ter passado por uma discussão não totalmente pacificada sobre a pena de morte.
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