O que é ciência? (Segundo Popper)
Recentemente, li uma compilação de textos, palestras, obras de Karl Popper com conteúdo diverso, mas com o propósito de entender melhor o que Popper consideraria como ciência. Já era um autor que eu desejava ler, e percebi que ele tem muito a oferecer. Gostaria de compartilhar o que aprendi com o livro "Conjeturas e Refutações".
Ciência aqui é usado no sentido de ciências naturais modernas. Não se aplica bem a ciências humanas, por exemplo. Exemplos: física, química, biologia. Quando usar em outro sentido, explicitamente farei a distinção.
Usarei também o termo "hipótese" e "teoria" em sentido amplo, e não no sentido técnico.
Antes de mais nada, gostaria de dizer que vou expor a visão de Popper, com a qual eu concordo, mas há muitos autores diversos com pontos de vista diferentes. Aqui eu realmente estou fazendo um grande resumo, e o livro pode ser bacana para quem se interessar.
Pontos preliminares
Vamos começar com uma afirmação desconcertante a alguns: a ciência se engana, as afirmações científicas não são necessariamente verdadeiras. Isso é óbvio desde Roger Bacon: a ciência é empírica (baseada em observações - não extraída da razão pura, como a matemática), e nunca podemos esgotar a realidade - não podemos sequer conhecer tudo do presente, quanto mais do passado e do futuro. Mas vou dar exemplos concretos: A dinâmica de Newton foi considerada verdadeira por séculos, mas acabou sendo substituída por outra; o sistema astronômico de Copérnico e Galileu foi substituído pelo de Kepler. Não há garantia de as teorias científicas atuais sejam verdadeiras para sempre.
O que a ciência permite é selecionar as afirmações que mais se adequem à realidade dentro das limitações da época. Nesse sentido são verdadeiras, mas não são verdadeiras no sentido de verdade absoluta. Acreditar que uma afirmação científica é uma verdade absoluta é uma postura anticientífica, pois se cria um dogma e se veda a crítica. Por que discutir se a dinâmica de Newton é verdadeira se todos já sabem que ela é? E como tratar alguém que discorda?
Ainda que a ciência não possa afirmar que algo é verdade, ela é muito boa para dizer que certas afirmações são falsas. Não é possível provar que a lei da gravidade da termodinâmica é 100% verdadeira, porém podemos provar que o flogismo é falso. Aqui, precisamos notar a limitação do método indutivo. Imagine que eu afirme que todas as ovelhas são brancas. Para provar essa afirmação, eu precisaria estudar todas as ovelhas existentes, que já existiram e que existirão, o que é impossível. Mas para refutar a afirmação, basta encontrar uma ovelha que não seja branca. Assim, afirmações empíricas podem ser refutadas, nunca provadas verdadeiras. E Popper nos aponta que é esse o caminho que a ciência deve seguir.
A demarcação
Demarcação aqui é o critério para diferenciar o que é científico do que não é científico. Isso é um problema maior do que pode parecer. É preciso de um (ou mais) critério que sirva como filtro, e deixe passar tudo o que é ciência (como física, química, biologia) e retenha tudo o que não é ciência (filosofia, matemática, história, astrologia, alquimia).
O critério de demarcação de Popper é a falseabilidade empírica. É empírica, pois a ciência tem afirmações observacionais, ou seja, não é metafísica, e nem é matemática ou lógica. E é falseável, pois, as afirmações científicas devem poder ser refutadas, falseadas. Vamos começar com a falseabilidade.
Já falamos que a falseabilidade (provar que algo é falso) é mais seguro do que tentar provar que algo é verdadeiro. Uma teoria é mais verdadeira, mais próxima da verdade, é aquela que tentam refutar, mas cada teste de refutação falha (o que são pequenas confirmações). Mas veja que é preciso que a hipótese científica seja propositalmente falseável: quanto mais riscos ela tem de não ser confirmada, melhor ela é enquanto uma hipótese, pois se submete a mais testes. Se tiver uma hipótese que não possa ser falseada, ela não é científica. Tem um caso engraçado que é o seguinte: uma pessoa diz que tem um dragão em sua garagem, e seus amigos não acreditam e pedem para ele lhes mostrar o dragão; a pessoa diz que isso é impossível, pois o dragão não se move; os amigos pedem para ir à garagem para verem o dragão, mas a pessoa diz que o dragão é invisível; os amigos pedem para ouvir o dragão respirando, mas a pessoa diz que o dragão não precisa respirar, e assim por diante. Isso ilustra que uma afirmação que não pode ser refutada não é uma afirmação boa, mas ruim para a ciência. Popper cita alguns exemplos engraçados, como a afirmação "existe uma sequência de palavras em latim que, ditas, podem curar qualquer doença". Essa afirmação não pode ser refutada, pois nunca se pode exaurir as sequências de palavras.
Agora, o empirismo. Devemos tomar cuidado sobre o que significa empirismo. Se empirismo for o método indutivo em que o cientista extrai sua teoria/hipótese/lei de observações, então a ciência não é empírica. Isso é falho, porque (pelo que entendi de Popper - aqui pode ter alguma imprecisão) um conjunto de observações não permite extrair nenhuma hipótese ou conclusão. Estas são extraídas da engenhosidade, criatividade, do cientista, e não de observações. Se tivermos um conjunto imenso de observações, de dados empíricos, daí não viria por si só nenhum ganho científico; é preciso de uma mente humana arbitrariamente estabelecendo um critério (verdadeiro ou falso) para organizar aquilo. Popper dirá que não existe método indutivo por isso. Aqui é minha maior discordância com Popper; eu acho que podemos chamar o que acontece de indução, mas são divergências apenas semânticas, não de conteúdo.
Se, por outro lado, empirismo significar que as afirmações científicas referem-se a fatos observáveis, e que podem ser refutados por meio da observação de fatos, então realmente a ciência é empírica. Recordo aqui que uso o termo "ciência" no sentido de ciências naturais modernas. É importante dizer que a ciência é empírica para diferenciá-la da filosofia, matemática, história, teologia.
Usar apenas o critério do empirismo levaria a um problema, que é aceitar como ciência as pseudociências como a astrologia e a alquimia. Estas duas contam com dados empíricos, com experimentações, observações, e fazem afirmações que podem ser observadas. O problema é que as pseudociências furtam-se das críticas, não são refutáveis. Sempre que se tenta refutá-las se encontra um argumento excepcional para dizer que a crítica não se aplica. Um caso próximo de nós é o dos terraplanistas. O que eles defendem é basicamente uma pseudociência, pois eles tentam fazer experimentos e usam dados observacionais, porém se esquivam das críticas e apenas tentam provar que estão certos, e não testam de verdade a teoria deles.
Obs.: Quando digo para testar a teoria, o cientista pode até ter a intenção de confirmá-la, porém o teste em si deve poder resultar em falha que refutaria sua teoria.
Ciência: imaginação e atitude crítica; ensaio e erro
Popper não usa o termo "imaginação", mas está implícito a grande dependência do desenvolvimento da ciência na capacidade dos cientistas criarem novas explicações, imaginarem teorias ousadas de como explicar o mundo. É por isso que Popper valorizava alguns filósofos da natureza da Grécia antiga, como Anaxímandro. Eles criavam ideias muito diferentes para explicar o mundo, quebrando a narrativa mitológica em busca de ideias mais racionais (no sentido de poderem ser analisadas pela razão, não de serem fruto da razão pura). Daí a importância para a ciência de se poder discutir tudo, de não existir dogmas da ciência. Nisso, essa atitude não se diferenciaria da filosofia.
Em acréscimo, Popper fala da atitude crítica. Não basta criar explicações alternativas; é preciso desenvolver meios de selecionar as melhores e excluir as piores. Não é cada maluco falando teorias bizarras que vêm à sua cabeça, mas envolve também que haja disposição para discutir essas ideias, por mais malucas que sejam, na tentativa de se aproximar da verdade. A atitude crítica permite que a imaginação caminhe na direção certa (no geral) e não seja uma comunidade anárquica.
Aqui eu preciso acrescentar que, embora a ciência não combine com restrições à imaginação, também é verdade que existem limitações éticas à ciência, mas não vou aprofundar aqui. Só gostaria de apontar que a ciência não é tudo; sequer é o único meio de aprender e conhecer (como pela lógica, matemática, filosofia, e pelas ciências humanas).
Popper defende que o método da ciência não é a indução, mas o método de ensaio e erro (pode ter outros nomes, como tentativa e erro, hipótese e refutação). Isso resume bem muito do que já apontei. A ciência não se desenvolve só recolhendo observações, melhorando a precisão dos equipamentos, ela precisa de teorias ousadas que tentam explicar o mundo. Eventualmente, algumas dessas teorias terão um sucesso astronômico, como a teoria da dinâmica de Newton ou a conversão de massa em energia de Einstein, mas aí a ciência deve trabalhar para obter teorias ainda melhores e para explorar os limites dessas teorias verdadeiras. Explorar os limites significa levá-las às últimas consequências, como a própria bomba atômica. Uma boa teoria científica permite não só explicar o que já conhecemos ou observamos, mas indica novas observações, mostra novas formas de ver e medir e criar, e nesses novos horizontes há novos testes à teoria.
Ao defender que a ciência funciona por ensaio e erro, Popper não considera que é um todo confuso, mas, como já apontei, que a atitude crítica permite excluir os erros e analisar as melhores teorias. As melhores teorias sobrevivem, enquanto as piores vão sendo excluídas. Algumas teorias refutadas são reestruturadas (reestruturar não é criar argumentos excepcionais para salvar uma teoria da refutação, mas fazer uma correção profunda nela) e voltam a ser testadas. Também, afirmar que a ciência funciona por ensaio e erro nos indica que a ciência pode errar, e que o erro é parte do processo de obter teorias melhores.
As melhores teorias científicas
Para Popper, boas teorias científicas são aqueles que, além de resistirem aos testes de falseabilidade, tentam explicar mais coisas e que sejam mais falseáveis.
Um elemento aqui é que boas teorias "proíbem" certos eventos. Elas dizem que certas coisas devem se comportar de determinada maneira e não de outra. Quanto mais eventos forem proibidos, maiores são as possibilidades de se testar a teoria, ou seja, maior a sua refutabilidade.
A ciência não deve buscar apenas explicar as coisas com mais precisão, usando de fórmulas matemáticas, por exemplo, mas também uma certa universalidade: a pretensão de uma única teoria poder explicar muitos fenômenos. Quanto mais ela explicar (e proibir), maior seu valor científico. Isso é um dos motivos do sucesso de Newton, que conseguiu, em sua física, explicar tanto eventos na Terra quanto no espaço. Um alerta: se a teoria for mais universal, porém for menos falseável, ela é menos útil à ciência: por exemplo, a doutrina de que não há leis naturais, mas tudo age por por arbítrio divino, é uma tese capaz de explicar tudo, porém não é falseável, logo não é científica.
Vale notar aqui que engenheiros e técnicos e, eventualmente, até cientistas podem fazer uso de teorias que sabe-se serem falsas por questão de utilidade. Hoje, por exemplo, sabemos que a física newtoniana foi superada pela física quântica, porém a física newtoniana ainda fornece fórmulas e explicações que são mais práticas no dia-a-dia. Daí, elas são mantidas por utilidade, mas, apenas pela utilidade, pela simplificação; a ciência deve buscar a verdade, o que significa que, no extremo, teorias falsas terão que ser rejeitadas. Só quero apontar que o processo não é tão automático e que certas coisas podem ser mantidas por utilidade prática.
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