Reflexões sobre as Formas em Star Wars

     Como em minhas outras postagens sobre Star Wars, começo dizendo que não sou especialista no assunto, mas gostaria de compartilhar alguns pensamentos. Tento separar o que é desse mundo e o que eu pensei.

    Para quem não sabe, existem formas de luta com sabre de luz, que seria mais ou menos como artes marciais diferentes com a mesma arma. Elas têm vantagem e desvantagens e são canônicas. Eu acho que a descrição delas é insuficiente para minha curiosidade, então proponho uma forma de ver o assunto para colmatar algumas lacunas. Isso não será exatamente útil no assunto, pois é um exercício de especulação que pode ser agradável para quem goste desses exercícios mentais - ou para quem pense em criar uma história ou um mundo baseado em Star Wars.


Breve introdução sobre as formas

    Aqui, vou descrever brevemente as informações oficiais. Existe muitos detalhes, para quem se interessa, mas meu objetivo não é detalhar o que é oficial, e sim fazer uma reflexão, então vou apenas delinear o assunto.

    Como já disse, existem variações de estilos de luta com sabres de luz em Star Wars chamadas "Formas". Os termos podem ser usados para os siths também, porém parece que essas Formas foram sistematizadas pelos jedis e são vistas da perspectiva da filosofia jedi. Ao longo da história, foram surgindo novas Formas, ou seja, não é uma divisão exaustiva; e as Formas aceitam variações internas que não são diferentes o bastante para serem consideradas outras Formas. Um jedi pode treinar em mais de uma Forma.

Forma I - Shii-Cho - a primeira Forma a surgir. É um estilo de luta em que o combatente se lança em combate confiando na Força. Quando surgiu, o sabre de luz era uma novidade, então se adaptou estilos pré-existentes que usavam espadas normais para a Forma I. Em comparação aos outros estilos posteriores, a Forma I tem ataques e defesas mais "limpas", ou seja, mais diretos e previsíveis. A Forma também depende da conexão com a Força, e o combatente aceita riscos confiando que a Força o guiará.

A primeira Forma é muito usada no aprendizado, sendo um caminho didático, tendo golpes mais simples, e desenvolvendo a conexão com a Força. Desenvolvem bons reflexos baseados em um tipo de precognição da Força e possivelmente em memória muscular. O estilo também é usado por mestres e é eficiente em campos de batalha. A Forma pode ser agressiva, então a filosofia jedi incentiva o desarme.

Em combate, a Forma I tem golpes frequentes, rápidos e fortes, mas o objetivo é mais indireto: é, lutando, criar ou descobrir pontos fracos do oponente. Não é um estilo acrobático e nem se baseia em surpresas. Apesar de parecer agressivo, ele trabalha bem com a defesa também.

Forma II - Makashi - A segunda Forma é voltada para duelos. Ela aparece em um contexto em que os sabres de luz são mais populares e em que os jedis podem ter que confrontar os siths. É uma forma elegante, que lembra a esgrima europeia. Ela não se baseia em golpes fortes, aproveitando que o sabre de luz pode causar um dano sério com um simples toque.

A estratégia envolve testar e conhecer o adversário, mas sem precisar de golpes frequentes e fortes como a Forma I. A Forma II já pode utilizar mais fintas e ataques mais sutis.

Forma III - Soresu - Estilo defensivo, surgindo para combater os blasters (armas que atiram lazer). O blaster é uma arma letal e que pode ser usada com eficiência por muitos inimigos, enquanto os jedis eram monges que demoravam anos em treinamento e com sua filosofia própria. A Forma III surge para permitir que os jedis primeiro sobrevivam. Com o tempo, a Forma III foi sendo adaptada para lutar contra inimigos com sabre de luz.

Para conseguir se tornar eficiente na defesa, a Forma III precisa ser um estilo com economia de movimentos, então bastante contido e pouco acrobático.

A sua capacidade defensiva e falta de ofensividade lhe faz assumir a estratégia de cansar o inimigo ou buscar uma oportunidade ou uma vantagem. Não é um estilo para vencer uma luta rápida, por exemplo.

Forma IV - Ataru - Estilo ofensivo, surge como uma espécie de oposto da Forma III. Essa Forma usa a Força para melhorar as capacidades físicas do guerreiro, que ele usa para atacar rapidamente e, pelas acrobacias, de ângulos surpreendentes. A força dos golpes deve-se principalmente ao momentum, à amplitude dos movimentos.

A estratégia do combate envolve realizar uma explosão de golpes e derrotar o inimigo. É mais ofensivo do que a Forma I.

A Forma IV depende de um espaço amplo para as acrobacias e é um estilo exaustivo fisicamente.

Forma V - Djen So / Shien - Estilo de contra-ataque. Pelas minhas pesquisas, Shien envolve redirecionar o tiro de blaster para o alvo, e Sjen So tem como inimigo alguém com sabre de luz. Na prática, podem ser unidos em uma mesma Forma.

Nasce da Forma III. Esta era muito defensiva e demorada, mas eficiente. Alguns guerreiros desejavam manter uma base defensiva, mas também incorporar elementos ofensivos, assumindo riscos controlados.

A estratégia se baseia na defesa como na Forma III, porém há uma rápida transição para um combate mais ofensivo como da Forma IV, e depois se recua para a forma III. Assim, é um estilo que mescla prós e contras das formas III e IV.

Forma VI - Niman - Chamado de um estilo misto, por tentar compilar as Formas anteriores, criando um combate que mantenha os pontos fortes e reduza os pontos fracos. É um estilo equilibrado que, na prática, tende à ofensividade.

Ele não só reúne técnicas dos outros estilos como também incentiva o uso do poder da Força (como o empurrão da Força) em combate.

Sendo um estilo mais misto, parece que não é bem padronizado e depende bastante do guerreiro. Por usar mais os poderes da Força, tende a ser escolhido por jedis sem vocação guerreira.

Forma VII - Juyo e Vaapad - Formas em alguma medida controversas, pois incorporam no combate o uso dos sentimentos. Também utiliza técnicas que podem ser mais agressivas e perigosas. Por esses elementos, Juyo demorou a ser reconhecido entre os jedis, pelo atrito com sua filosofia.

Vaapad é uma Forma derivada de Juyo, porém mais aberta aos sentimentos negativos - o que exigiria mais autocontrole emocional para dominar esses sentimentos. Vaapad também parece ser um estilo que, pelo domínio emocional, consegue ser muito efetivo contra os siths.


Minhas reflexões (tudo o que vem abaixo é uma interpretação pessoal minha)

    1° - É preciso lembrar que a vitória depende mais do lutador do que o estilo. Quando há um combate e comparamos as Formas, não o podemos fazer para dizer que uma Forma é superior a outra naquela situação, e sim para apontar como os lutadores usavam aquelas Formas e quais prós e contras pesaram para a vitória.

    Exemplo: A Forma III é dita a mais defensiva, porém sua defesa não é absoluta. Em um cenário, sua tendência a poucos movimentos pode levar o lutador a recuar até um ponto onde ele tem desvantagem, ou ele pode se cansar após se defender de muitos inimigos. Neste mesmo cenário, a Forma IV, menos defensiva, pode permitir ao guerreiro sobreviver, pois sua agilidade lhe permite diminuir o número de inimigos e escapar quando tiver causado muitas baixas.

    É claro que situações tendem a favorecer ou prejudicar mais certas Formas, mas aí é que entra o papel do lutador. Se ele for consciente dos prós e contras de sua forma de lutar, ele poderá conseguir, mantendo a mesma Forma, explorar os pontos fortes e diminuir o peso dos pontos fracos. Por exemplo: A Forma II é de duelos e tende a ser de movimentação mais linear; sabendo disso, o lutador pode treinar movimentações diferentes que são permitidas pela Forma para conseguir lutar contra mais de um adversário, ou, ainda, pode se movimentar de forma que os adversários não o consigam cercar, conseguindo manter uma luta mais próxima da linear.

    Em resumo, acho que, no final, as lutas entre Formas diferentes dizem respeito sobre qual lutador consegue impor seu estilo sobre o outro, o que envolve um papel criativo e pessoal do lutador.


    2° - Tópico, no mínimo, controverso, inclusive por eu propor um modelo não-oficial: acho que não se justifica haver a Forma VII e, talvez, a Forma VI.

    A Forma VI, na verdade, é uma mistura de outras Formas sem um elemento que dê unidade, exceto se considerarmos que seu elemento próprio seja a ênfase no uso dos poderes da Força em combate. Mesmo assim, não é uma Forma com uma estratégia própria, apenas uma mistura. Não que o diálogo e as trocas entre as Formas não seja produtivo, mas acho que deveríamos dizer que o estilo de certo jedi é, por exemplo, uma variação da Forma I com inspiração na Forma III. O uso dos poderes da Força me parece insuficiente para determinar uma Forma, podendo ser uma variação dentro de formas pré-existentes.

    Agora, a Forma VII já me parece mais certo que não deveria ser mesmo uma Forma, pois, na verdade, é o uso dos sentimentos em combate. Ainda que incorpore certos elementos mais agressivos, não acho que dê para se dizer que é realmente uma Forma diferente.

    Obs.: A Forma V já me parece ser suficiente para ser realmente uma Forma, embora não esteja isento de discussão. Um mestre da Forma V deve, na verdade, ser mestre da Forma III e da Forma IV. A Forma V, na verdade, une duas Formas, e essa união nem é em um todo orgânico, e sim em duas atitudes diferentes que se alternam durante a luta. Ainda assim, me parece que pode ser uma Forma própria porque ela tem uma estratégia e uma atitude diferente. Talvez, se ela fosse mais desenvolvida, conseguiria se dissociar das Formas III e IV. Diferente da Forma VI, a Forma V não é uma mistura confusa de Formas anteriores, e sim uma defesa aberta para o ataque. Tentarei desenvolver esse ponto abaixo.


3° - Uma visão pessoal sobre a essência das Formas. O tópico 2 tem relação com este. Parece-me que as Formas não são apenas um conjunto de técnicas, mas envolvem uma estratégia de combate, que se relaciona com uma atitude interna do lutador durante o combate. Essa atitude, por sua vez, se relaciona com a forma que o lutador usa a Força durante o confronto. Vou ilustrar isso nas Formas e, com isso, acho que conseguiria apontar essa essência de cada Forma.

Forma I - Lançar-se em combate confiando na Força. Esta Forma principalmente o que eu chamaria de percepção dinâmica da Força. Se a Força fosse um rio ou uma correnteza, o lutador seria um peixe que sente para onde a corrente é mais forte ou flui melhor. Mas essa percepção depende da Força estar fluindo, e é por isso que o combatente precisa realizar ataques, mesmo que simples: pois eles forçam uma reação do inimigo, e nessa movimentação é que o lutador percebe melhor a Força. Sua estratégia é forçar o inimigo a se mover, pois isso o expõe.

A Forma I poderia usar golpes complicados, surpreendentes, mas isso não é necessário para sua estratégia, pois é bom que seu golpe seja previsível, pois torna a reação do adversário mais previsível também.

Assim, é um bom estilo para aprendizes não só pelos golpes serem simples, mas por confiar na Força, sentir a movimentação da Força, ter uma luta limpa.


Forma II - Forma do duelo. Esta Forma se baseia no que eu chamaria de percepção da Força sobre uma pessoa. A percepção da Forma I é sobre a Força do ambiente em geral, o que acaba englobando também o oponente. Já na Forma II, o ambiente se torna menos importante, e a atenção está no duelo. Por isso, na Forma II, o lutador fica mais exposto a ataques de terceiros. Pela sincronia com o outro, a forma é mais harmoniosa, graciosa, pessoal. A concentração no outro permite realizar e lidar técnicas mais elaboradas.

Na metáfora do peixe, esta percepção é de um peixe em relação a outro, e não ao ambiente.

A Forma II geralmente é linear (como na esgrima moderna), mas não precisa ser. Isso me parece mais uma convenção do que uma necessidade. A Forma II realmente sofre quanto mais oponentes aparecem. É preciso utilizar alguma tática ou artifício para superar esse problema.

Forma III - A Forma defensiva. Se baseia no que eu chamaria de percepção estática da Força. Esta pressupõe a percepção dinâmica em alguma medida. Na metáfora, é a percepção do peixe de uma área em que a correnteza é fraca ou, pelo menos, da área próxima. O lutador, aqui, não está tão aberto para o campo de batalha como um todo. Ele está concentrado em uma área menor ao seu redor. Dentro desta área, ele desenvolve uma percepção profunda (com uma precognição ainda mais afiada do que na Forma I) do que acontece, inclusive de um tiro de blaster feito de muito longe, mas que passará dentro dessa área.

Diferente da Forma I, que está aberto a tudo o que acontece em volta, a Forma III está aberto apenas ao que atinge esse espaço pessoal. Um tiro de blaster se confunde em meio a outros na Forma I, enquanto a Forma III consegue filtrar quais tiros vêm em sua direção com mais facilidade.

Por outro lado, a Forma III tende a se movimentar menos, pois mudar sua área de atenção concentrada cria um atrito maior, ao se invadir áreas em que sua percepção não está tão clara. Na Forma I, como a percepção é bastante aberta e difusa, se pode movimentar pelo campo de batalha sem nenhum atrito.

Os ataques da Forma III são feitos da segurança de seu campo de percepção quando não há risco para si. Esses ataques são necessários em uma luta, mas são ataques pouco complexos, geralmente com alguma percepção de uma abertura.


Forma IV - A Forma IV tem a inovação de não usar a Força para aumentar a percepção do lutador, e sim para aumentar os atributos físicos como força, agilidade, destreza. Seu combate, assim, pode se aproximar dos siths, que querem submeter a Força, e não se deixar guiar por ela. Na Forma IV, o lutador quer impor-se contra seu adversário, dobrá-lo. É o peixe que não se importa com a correnteza, e usa sua força ampliada para ir para onde quer, ou o navio que usa mais os remos do que a vela.

Gostaria de apontar que a Forma IV encontrou sua defesa em sua mobilidade. Ele quer ser rápido a ponto de se esquivar dos ataques não por percebê-los, mas por nunca estar parado no mesmo lugar.

O uso da Força para aumentar suas habilidades físicas também significa que os músculos são usados em seu máximo, tornando mais desgastante.


Forma V - A Forma V deve ser vista como a capacidade de alternar o uso da Força. Ao meu ver, essa alternância é mais harmônica quando ocorre entre Forma I e II, ou entre II e III, do que entre I e II. Alternar delas para a Forma IV deve exigir um autocontrole da Força muito aprimorado a ponto do mestre na Forma V não ser só um mestre na Forma III e um mestre na Forma IV, mas sim um mestre em alternar o uso da Força em combate.

Deve ser apenas por razões históricas que a Forma V se associa às formas III e IV. Na verdade, poderia ser entre as formas I e IV (uma opção mais lógica, ao meu ponto de vista), por exemplo. A alternância entre as formas I, II e III não deve ser tão difícil a ponto de se criar um novo estilo, inclusive pela questão da gradação: Se o que expressei sobre a percepção dinâmica e a estática fizer sentido, a diferença entre as duas está em concentração e em alcance, e esses elementos admitem gradação. Também deve haver certa gradação com a percepção sobre uma pessoa, pois não se deixa de perceber algo dos seus arredores.

Dizer que a Forma V seria uma fusão da Forma III e IV, além da razão histórica, é ilustrativa pela transição entre uma Forma agressiva e outra defensiva, porém, do ponto de vista do uso da Força, a transição entre I e IV será bem mais complexa e indicaria a verdadeira maestria.

O Mestre da Forma V não precisa, assim, ser mestre das formas III e IV. Se for bom nas duas, mas especialista na transição, isso já o torna mestre da Forma V.


Forma VI - Na verdade, sendo uma Forma verdadeira, não se caracteriza por usar a Força para percepção e nem para aprimoramento físico, e sim para o uso marcial do poder da Força. À rigor, isso significa que a Forma VI não precisaria de um sabre de luz, podendo usar outra arma ou, dependendo, nenhuma.

Só para ilustrar melhor, consiste em empurrar e puxar o adversário, deslizá-lo para o lado, parar seu ataque só com a Força, arremessar objetos, desequilibrá-lo. Também significa usar a telecinese em si mesmo (aparentemente, a levitação é uma técnica mais difícil, mas possível) ou na própria arma.

De minha perspectiva, é preciso rejeitar que a Forma VI é a junção das outras Formas, pois falhou em criar um novo estilo coeso.

Por que a Forma VI seria uma forma própria se os outros estilos também permitem certo uso da Força? Do meu ponto de vista, porque é difícil usar a Força para mais de uma coisa ao mesmo tempo (por exemplo, para aumentar suas habilidades físicas e, ao mesmo tempo, perceber o ambiente). Assim, a Forma VI concentra-se em usar a Força em combate sem aumentar as habilidades físicas e a percepção. Se, na verdade, os lutadores não usam a Força em combate nas outras Formas apenas uma questão de economia no uso da Força, e não porque é difícil, creio que a Forma VI deva ser rejeitada.


Bom, é isso. Lembre que existe as Formas no universo de Star Wars, mas são classificações em alguma medida arbitrárias dentro deste universo. Elas surgem com base em certos critérios ou impressões e podem ser mudados eventualmente. Apesar de não ser um profundo conhecedor desse universo, acredito que a minha visão sobre isso seja coerente. Assim como há diversas teorias filosóficas e categorizações, minha teoria de como sistematizar as Formas é apenas uma entre várias possibilidades. Se não feri nenhum fato deste universo, essa organização não pode ser um absurdo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher no tempo das catedrais

Héroi de Mil Faces (Campbell) - crítica

Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte I