Reflexões sobre o fantasma da força em Star Wars
Desejo compartilhar uma visão minha sobre o fantasma da força em Star Wars. Começo já dizendo que não sou um profundo conhecedor deste universo. Lá, pode fazer total sentido o fantasma da força. O que desejo defender é que esse elemento não me parece coerente tendo em vista tendências espirituais do mundo real.
Para quem não está familiarizado, o mestre jedi Qui-Gon Jinn descobriu um meio de fazer sua consciência sobreviver à morte, o que o torna um fantasma da força. Assim, ele pode se comunicar com pessoas sensíveis à força, inclusive ensinando como outros podem se tornar fantasmas da força. Nos filmes, o fantasma da força parece com um holograma do personagem que morreu. No processo, o corpo da pessoa que se tornará fantasma da forma desaparece no momento de sua morte.
Parece que o destino normal seria dos jedis que morrerem "se juntarem à força" perdendo sua individualidade e consciência. Assim, poderia-se dizer que eles "se tornam um com a força".
Agora minhas reflexões.
Devo começar dizendo que existe uma tendência das religiões considerarem a individualidade um mal. Algumas religiões conseguem trazer a individualidade como um bem por um equilíbrio teológico fino, mas não conseguem eliminar o elemento de que a individualidade pode levar ao individualismo e ao afastamento da divindade.
De um ponto de vista sociológico, poderíamos argumentar que a individualidade precisaria ser reprimida tanto pela religião quanto pelo Estado porque ela leva a cidadãos incontroláveis, anômalos, com ideias potencialmente perigosas para a ordem social. Isso levou à morte de Sócrates, por exemplo. Quando se desenvolve a individualidade, os homens buscam outros princípios e outros modos de vida que encontram fundamento no indivíduo (em sua vontade, sensações, valores pessoais, desejos) e que o afastam da vida social ordenada. Não vou me aprofundar neste aspecto sociológico, pois o acho pobre.
O outro ponto de vista é o seguinte: existem duas visões frequentes nas religiões: a divindade é o mundo (panteísmo) ou a divindade transcende totalmente o mundo, e o mundo é um inimigo da divindade.
a) No panteísmo, a divindade é o planeta, ou o universo; daí tudo faz parte de Deus, e tudo é, no fundo, bom. O que é o mal? É a violação da harmonia do mundo. É claro que o mundo está em constante transformação, porém existem mudanças que são espúrias, pois que afetam o equilíbrio natural. Por exemplo, seria natural e bom os homens cortarem lenha para se aquecerem, mas pode ser abusivo derrubarem uma floresta inteira, sem que ela possa se regenerar.
Na fantasia, normalmente as magias envolvem um fundo panteísta, pois os magos acessam o poder espiritual da natureza e o dobram. Ao mesmo tempo, há magias que são más, que são negras, por ferirem a ordem natural, como a necromancia (pois ela viola o descanso dos mortos).
A violação da ordem natural panteísta gera consequências que também são naturais. A floresta que foi desmatada pode ter a consequência de se transformar em um deserto, e isso criaria outro ciclo natural que "se vinga" do próprio homem. É tendência que o mundo panteísta, após se vingar do homem, tenha uma tendência a voltar ao equilíbrio, como do deserto muito lentamente voltar a ter vida e plantas - mesmo que o homem tenha que ajudar, pois o homem é parte da natureza.
Qual o homem bom na visão panteísta? É o homem que vive seguindo o fluxo da natureza, em harmonia com seu ambiente. O individualismo, assim, é um mal por quebrar a ligação do homem com esse fluxo natural e o fazer se guiar por seus próprios desejos egoístas. A individualidade pode ser vista como o começo do mal (um pecado original, neste sentido) por fazer o homem perceber que ele pode querer coisas que não fazem parte de sua sintonia com a natureza, que o despertar para um desejo de ser único e não de ser um com todos.
Obs.: Por individualidade, me refiro não a qualquer individualidade, pois mesmo os animais e as plantas têm individualidade em algum sentido, mas se essa fosse toda a individualidade humana, não mereceriam este nome, pois são variações dentro de um sentido comunitário forte que não rompe com a natureza.
b) Na outra visão, mais transcendente, existe uma divindade que está separada do mundo. Os adeptos desta visão percebem que a natureza não é boa, mas desordenada, ilusória. Percebem que existem as doenças, que existe a gula e a luxúria, que os sentidos o podem enganar. Para eles, o homem que se deixa levar pelas regras do mundo está como em um transe, uma ilusão, cego para uma verdade escondida. Aí vem a história da gnose, que não é o tema aqui.
O homem bom nesta visão é aquele cujo espírito se libertou das tentações do mundo e que conseguiu alcançar o deus além do mundo. O processo para isso envolve a negação dos prazeres do mundo, como a prática da abstinência prolongada de alimentos, a proibição de ingerir carne ou álcool e práticas espirituais como de meditação.
Sobre a individualidade, vemos aqui um aparente paradoxo. O caminho para se libertar do mundo envolve uma certa vocação individual; é um caminho individual. Ao mesmo tempo, se percebe que a individualidade é um mal, pois a individualidade faz parte da ilusão do mundo. No mundo físico, cada pedra é única, e cada ser humano é único. Diferente do mundo físico atomizado, o mundo espiritual é uno, pois a verdade é única. Assim, os homens nascem individualizados, mas deveriam buscar a transcendência que implicaria abandonar sua individualidade para se submeter à verdade profunda em que seus traços individuais desapareceriam, pois não são importantes e só desviam desta verdade fundamental.
Obs.: Estas são duas tendências opostas com muito em comum. Existem elementos de um na outra e a realidade é mais complexa. Também, podemos considerar que o cristianismo é um meio termo entre as duas visões.
Voltando para Star Wars, vou apontar como eu enxergo o fundamento espiritual deste universo.
A "Força" faz referência a uma espiritualidade panteísta. Os jedis são aqueles que se desenvolvem buscando a harmonia com a força, que é o ciclo natural do universo. Os siths são aqueles que conhecem a força, mas a violam em busca de seus desejos individuais. O lado negro da força é a "magia negra" neste universo, ou seja, violação do ciclo natural do universo. Mas vemos um leve elemento da visão mais transcendente sobre a morte do jedi - é semelhante, porém ainda é panteísta.
O que é a morte? A morte é momento em que se une à força. O jedi, em vida, busca se afastar de sua individualidade - aqui entendida como seus desejos pessoais - para perceber o que a força quer dele. A morte, assim, é vista como algo natural que realiza seu desejo de viver em harmonia com a força, pois ele se entrega totalmente à natureza, ao universo. Para o sith, a morte é a destruição de sua individualidade, em que ele é forçado a se submeter à lei do mundo. Por mais que o sith tente submeter a força, esta é muito mais poderosa do que ele e o engole quando ele morre.
Percebam: para o jedi, o ato de perder sua individualidade ao se unir à força é algo bom, é o ato de se juntar à divindade. Sem falar no fantasma da força, é bastante compreensível que os jedis aceitem a morte quando percebem que chegou o seu momento, como Obi Wan perceber que sua luta com Vader não teria mais sentido depois que Luke e seus amigos conseguiriam escapar.
Agora, e o fantasma da força? Aqui entra a minha tese de que o fantasma da força é um fenômeno no mínimo estranho, sem sentido, neste universo. Se aproxima mais da mentalidade do sith em querer manter sua individualidade para sempre, ainda que tenha que moldar a força ao seu bel-prazer. A possível explicação é que, para se tornar um fantasma da força, é preciso que a pessoa aceite a vontade da força totalmente, e isso a permite manter sua individualidade, pois sua individualidade está em uníssono com a força. Por isso, o fantasma da força não pode agir por conta própria como um sith poderia querer fazer caso se tornasse um.
Para mim, essa explicação, ainda que plausível, é uma solução inferior a simplesmente não existir o fantasma da força, porque não faz sentido um jedi querer manter sua individualidade após a morte. Até porque a força pode agir independente dos fantasma da força. A força guia as ações dos jedis, de modo que o fantasma da força não é necessário.
É isso.
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