O Fantasma da Ópera - O romantismo é pagão?

    Um filme/peça de que gosto muito é o Fantasma da Ópera. Pretendo trazer algumas reflexões, com spoilers.

    Quero começar com o romantismo. Não sou um grande conhecedor da história da literatura ou da Idade Contemporânea, mas há alguns pontos que acho interessante trazer.

    Parto de um ponto de vista cristão da história para isso. Brevemente, o cristianismo cresceu durante a Idade Antiga e a Idade Média enquanto convertia a cultura clássica pagã e os bárbaros. A Idade Média se caracterizou uma série de crises e reformas na cristandade. Houve uma crise na Idade Moderna (ou na transição da Idade Média para a Idade Moderna) que é especialmente marcante: a chamada Reforma Protestante, que quebrou a unidade do cristianismo, dando origem a diversas confissões e às chamadas guerras religiosas (de nome enganoso, pois não eram apenas motivadas por religião). Essa crise interna é acompanhada por uma crise externa, que é o "renascimento" do paganismo antigo, em que se desenvolve uma visão cada vez mais hostil (ou indiferente) à religião. Um ponto marcante é a Revolução Francesa, que tenta proclamar uma sociedade ateia ou em que a religião é um subproduto do Estado. A Revolução Francesa tem um fim sangrento que cria a percepção de que o ateísmo tenha ido longe demais, mas o movimento de secularização da sociedade não pode ser parado. A Revolução Francesa também ocorre mais ou menos no momento de industrialização do mundo.

    Podemos, assim, situar historicamente o Romantismo. Ele se relaciona com vários fenômenos históricos: uma reação social e conservadora contra o egoísmo e o materialismo da Revolução Industrial, o fortalecimento do sentimento de nacionalismo, uma visão idealizada do passado medieval (ou, na verdade, moderno - lembrando que a Modernidade termina na Revolução Francesa), a afirmação dos sentimentos pessoais contra um mundo individualista e utilitário.

    Não surpreende que o Romantismo tenha uma carga que alguns considerem conservadora quando visto como uma crítica ao mundo industrial, liberal e burguês. Os românticos colocam o conflito entre a paixão pessoal e a autoridade da família burguesa, entre a felicidade simples e amorosa contra a busca por lucro e poder. Por outro lado, o Romantismo não é verdadeiramente conservador, pois, ainda que valorize um passado idealizado, ele não é herdeiro desse passado, pois prega um sentimentalismo novo, sua noção de casamento por paixão é diferente da noção do casamento antes da burguesia.

    Aqui, podemos comparar Rousseau com os iluministas (disputa antes do surgimento do Romantismo). Há um certo questionamento se Rousseau poderia ser considerado um iluminista, pois Rousseau destoa por ser mais sentimental, com um raciocínio menos frio, valorizando mitos, criando um passado utópico para justificar sua teoria. Rousseau não era bem um racionalista, mas conseguiu o que os racionalistas não conseguiram: criar uma paixão por sua teoria, dar uma base mitológica, atingir o coração do público. O Romantismo fez algo semelhante: ele não concordou com a frieza da sociedade burguesa e industrial, porém não defendeu uma visão tradicional, e sim um mundo idealizado e novo.

    No caso do Romantismo, alguns apontam que ele os primeiros e verdadeiros românticos tinham como propósito a idolatria do amor-paixão, do sentimentalismo. Ou seja, apontam que se quer substituir o centro em Deus pelo centro nos sentimentos humanos (o centro em Deus já fora substituído pela razão humana pelos iluministas, pela liberdade pelos liberais, pelo lucro e família pelos burgueses - todos estes têm problemas que o Romantismo quer superar). O Romantismo cria uma espécie de paradigma do homem apaixonado, em que única vida que merece ser vivida é a vida de paixões.

    Para se conseguir criar uma idolatria pela paixão, é preciso criar um herói a ser imitado e que simbolize o poder e a beleza da paixão (existem obras que procuram não criar esse herói romântico, mas criar um herói racionalista/industrial/burguês trágico, que perece por ser o "oposto" do romântico). Assim percebemos o herói romântico que sofre pelo amor platônico e se mata por não conseguir seu amor - ele consegue mostrar quão forte é a paixão e como é vazia uma vida sem ela. Em uma espécie de imitação ao cristianismo, o Romantismo tenta usar o autossacrifício como forma máxima da importância da paixão: se o autossacrifício pela paixão for apresentado de forma justificada e glorificada, se percebe que a paixão é maior que a vida humana (pois a vida que morre pela paixão tem sua morte justificada). A paixão é o elemento de transe ritualístico, como um chá alucinógeno ou danças e músicas de efeito hipinótico, sendo o meio para induzir o estado de contato com o divino.

    Devemos perceber que o inimigo declarado do Romantismo não é o cristianismo, a religião, e sim a mentalidade burguesa, industrial e liberal. Neste sentido, é uma aliada do cristianismo ao atacar os excessos do mundo racionalista, individualista, burguês. Ao elevar o valor e o poder do amor/paixão, ele também pode se prestar para a defesa de valores cristãos, pois, em suas formas menos extremas, mostra a dignidade do amor e do sacrifício. Mas aponto que é possível ver que o mundo romântico é um mundo laico, ou laicizado, em que Deus e a religião pode até ser importante, mas não é apresentada como o verdadeiro centro da vida humana.

    Assim, podemos ver O Fantasma da Ópera, que é uma obra com traços românticos. Percebemos o passado idealizado com a nobreza, a vida do luxo dos artistas. O amor é o motor da história. Uma das características da heroína Christine é seu amor puro. Seu amor é disputado. Vemos, no clímax, o poder transformativo e redentor do amor puro e verdadeiro. Esse poder do amor me parece uma ideia cristã, nascida e desenvolvida no seio da cristandade, mas é apresentado em uma versão já laicizada, já separada de sua origem religiosa e transcendental, sendo algo "meramente humano", um fenômeno mais psicológico do que espiritual. O amor de Christine não deriva do amor de Deus - não é caridade, mas filantropia. Ela tem esse amor em si, no máximo como um dom de Deus a sua personalidade, e não como uma virtude teologal.

    Com isso, não quero desprestigiar a obra, ou dizer que o final não é bonito e educativo, mas que o é dentro de certos limites. O amor presente é belo, mas é juvenil, sentimentalista, e não maduro e sóbrio. Por isso, esse tipo de amor não é produto de um santo ou um teólogo cristão, e sim, no máximo, de um humanista ou um leigo comum. É algo que considero próximo a Romeu e Julieta de Shakespeare séculos antes: uma bela obra, um clássico, mas não profundamente cristão, ainda que, talvez, só pudesse surgir em um mundo cristão, em que os valores cristãos penetraram tão fundo na cultura que já não são religiosos. Não proponho, como Platão, que se altere as obras originais para se tornarem 100% veículos dos ideais cristãos, só que tais obras sejam vistas nesses termos.

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