Proposta de classificação de armas de combate corpo a corpo

     Por uma tendência de racionalizar e organizar, eu sempre desconfiei de certos sistemas de classificação de armas de combate corpo a corpo. Aqui, me refiro basicamente a armas que não disparem projéteis, ou seja, facas, adagas, machados, bastões, espadas de uma mão, espadas de duas mãos, chicote etc.. Muitas classificações me parecem excessivamente arbitrárias ou pouco úteis na prática, e demorei um tempo para propor uma organização própria das armas.

    Na verdade, vou propor três classificações (com um adicional) que considero úteis e pragmáticas. Meu objetivo é organizar propriedades de armas para organizar um treinamento eficaz.

    É verdade que o treinamento com uma arma gera um ganho de habilidade em várias armas, pois a mecânica do movimento é semelhante, além do desenvolvimento de precisão, consciência espacial, mentalidade de combate. Mas ainda assim há um limite para o que pode ser transmitido para outras armas, que não funcionam de forma igual, ou que, ainda que possam usar o mesmo movimento, possuem movimentos especializados mais eficientes.

    Os tipos de classificação que irei propor são complementares e não excludentes.

    Obs.: Há outras características que podem ser importantes, mas não usei por não serem tão importantes para uma classificação pragmática das armas. Um exemplo é o peso da arma, que é importante, porém é difícil de ser classificado.


1) Armas balanceadas e desbalanceadas

    Essa classificação aparece em Mount and Blade. Na verdade, o melhor não seria classificar entre balanceada e desbalanceada, ser uma medida quantitativa: quão balanceada ou desbalanceada uma arma é. Para se perceber o balanço da arma, basicamente consideramos a posição do ponto de equilíbrio/ de gravidade da arma. Quanto mais próximo da empunhadura, mais a arma é balanceada. Quanto mais longe, mais desbalanceada a arma é.

    Espadas costumam ser armas balanceadas. Machados são armas desbalanceadas. Mas a classificação pode não se aplicar a algumas armas, como a facas: no manuseio de facas, importa pouco saber o balanço da arma (talvez, exceto se for para arremesso).

    O balanço da arma afeta a forma que é usada. A arma balanceada costuma favorecer a agilidade em se defender e também favorece as estocadas. A arma desbalanceada traz uma dificuldade em mudar de trajetória ou realizar um ataque rápido, mas gera um impacto maior.


2) Armas de movimento cortante, perfurante e contundente

    A medicina legal/forense classifica armas em cortantes, perfurantes e contundentes (e suas combinações) conforme o tipo de ferimento que causam. Armas cortantes têm uma lâmina, que é uma linha afiada capaz de gerar cortes. Armas perfurantes têm uma ponta. A arma contundente é bem mais variada, pois contusão é impacto, podendo ser um taco de billiar, um bastão de baseball, uma raquete de tênis.

    No manejo de armas, é importante saber se a arma é cortante, perfurante ou contundente pois isso afeta o movimento da arma (a perfurante acerta com a ponta, a cortante usa a lâmina e pode fazer a lâmina deslizar, a contundente apenas usa o impacto), e também o alvo preferencial (cortes são bons em partes moles do corpo e em tendões ou músculos importantes; perfurações são letais no pescoço, no peito e abdômen; contusões são efetivas em partes duras como regiões em que o osso fica próximo da pele).

    Até aí tudo bem, são informações úteis. Mas gostaria de propor uma outra classificação. Ela deveria aproveitar o conhecimento que apresentei no parágrafo anterior.

    Minha proposta é baseada não no tipo de ferimento que a arma causa, mas no tipo de movimento da arma. Considere uma picareta. Ela se movimenta como um bastão (instrumento contundente), mas gera um ferimento punctório (na verdade, perfuro-contuso, mas não convém aprofundar na distinção). Um machado se movimenta mais como bastão (contundente) do que uma espada (cortante), embora o machado e a espada provoquem um dano cortante (na verdade, corto-contuso). Minha conclusão é que devemos considerar o movimento e não o ferimento gerado.

    Chego à conclusão de que devemos considerar 3 tipos de movimentos: cortantes, perfurantes e contundentes (aproveitando os termos já existentes, mas poderíamos usar outros termos).

    O mais único é o movimento perfurante, que é a de estocada. Pode ser feito de forma mais direta, ou de forma mais giratória.

    A questão é a distinção entre o movimento cortante e o contundente. O movimento cortante é aquele em que há o deslizamento da lâmina enquanto corta. O movimento contundente é aquele em que há um golpe seco, sem deslizamento. O meio "certo" de usar a katana é em um movimento com certo deslizamento da lâmina para haver um corte mais limpo. Também tem implicações na sequência de golpes. O movimento contundente é o de uma picareta (ainda que tenha ponta), de um machado (ainda que tenha lâmina). Uma espada pode tanto fazer o movimento cortante quanto o contundente, dependendo da forma que é usada (e também o movimento perfurante, se usar uma estocada).

    Enfim, com isso eu diria que essas três classes: de movimento cortante, perfurante e contundente, não são exclusivos, ou seja, uma arma pode ser tanto perfurante quanto contundente. Podemos apontar que quase sempre armas cortantes são contundentes. Uma exceção seria usar uma serra como arma, pois ela não causa impacto significativo, e pode causar dano se deslizar sobre um objeto.


3) Tamanho da arma

    Uma primeira classificação de armas pode ser simplesmente nomear espadas semelhantes em forma e uso histórico. Assim, há as rapieiras e os espadins, por exemplo. São classificações, pois elas não são armas uniformes (exceto se houver uma arma produzida em massa segundo uma regulação governamental): há rapieiras de vários tamanhos e pesos, embora não seja totalmente arbitrário.

    Normalmente, a preocupação marcial é em treinar uma arma bastante padronizada, sabendo que as técnicas podem ser usadas com armas de tamanhos diferentes, mas não se esforçam em definir limites entre um tipo de arma e outro. Digamos, são mais práticas e menos teóricas, são mais exploratórias e menos racionalistas. Se percebem que suas técnicas (por exemplo, de espada) se aplica a outra arma (por exemplo, facão), então não debatem qual a fronteira que diferencia espada de facão, mas criam uma nova categoria de armas (o facão). Também dependem de se perceber que há uma arma que não se enquadra nos tipos existentes, o que nem sempre ocorre. Esse método é útil e bastante justificável, porém acho válido realizar o movimento mais teórico de classificar, organizar, definir. Este processo seria inútil sem uma consequência prática.

    Certos jogos tentam classificar as armas, embora falhem por não conhecer as armas historicamente e como são usadas. A espada bastarda, por exemplo, pode ser visto como um tipo de espada longa. As classificações podem colocar em uma mesma categoria armas muito diferentes, como espadas e facas em um mesmo grupo.

    Minha proposta envolve os seguintes grupos: armas pequenas, armas médias, armas longas e armas de duas mãos. Parece comum que não haja um grupo classificado como armas longas, ou, existindo, é o grupo das armas de duas mãos.

    Começando pelo mais fácil, a classificação de armas de duas mãos significa que é uma arma em que o uso principal (não necessariamente exclusivo) é em duas mãos. Isso gera uma grande diferença das outras armas, principalmente por, na prática, significar o abandono do escudo. Isso significa que a arma de duas mãos não é classificada pelo tamanho, então por que eu coloquei como um quarto grupo no critério de tamanho? Percebi que o tamanho só importa para armas de uma mão, havendo maior uniformidade entre armas de duas mãos; assim, seria melhor criar uma quarta categoria especial na classificação sobre o tamanho das armas.

    As armas de duas mãos têm alguns representantes bastante diferentes: há espadas de duas mãos (como a montante), lanças (como a pique), machados de duas mãos, alabardas e achas de armas, maças de armas.

    Agora vamos para a classificação de armas de uma mão. Acredito que as três classes que eu criei indicam estilos muito diferentes de combate.

    As armas pequenas são aquelas que que são tão curtas (às vezes, são armas um pouco maiores, porém frágeis) que não podem ser usadas para defesa. Na verdade, até poderiam defender, porém seria muito arriscado em um combate de verdade. O uso de armas pequenas envolve grande movimentação e o uso ativo da mão livre. É muito fácil atingir os braços dos combatentes com armas pequenas. Exemplo são facas, canivetes, adagas pequenas.

    Armas médias são aquelas cujo tamanho e peso permite que sejam usados para bloquear ataques. Esse bloqueio é ainda pouco eficiente, pois a arma média não é grande e pesada o suficiente para um bloqueio estático, aproveitando a alavancagem e inércia da arma. Armas médias são dinâmicas (menos que armas pequena), podem atingir os joelhos (embora seja pouco eficiente), exigem mais força física para causar danos profundos. Elas dependem muito do uso dos ombros e cotovelos para atacar e se defender (pois o movimento dos pulsos não geraria força o bastante para o impacto letal). Exemplo: bastões curtos, facões, machadinhas, adagas longas.

    Armas longas possuem tamanho e peso o bastante para permitir bloqueios estáticos. Podem movimentar apenas os pulsos para atacar, pois a massa da arma permite golpear com força suficiente. Movimentar os pulsos e não os cotovelos e ombros significa expor menos o braço a ataques, o que é um risco maior quando o adversário também tem armas longas. O tamanho da arma permite atingir o joelho com relativa facilidade, tornando-o um alvo mais comum. Armas longas também podem permitir técnicas com duas mãos de forma mais comum. Exemplo: espadas em geral, bengala.

    É comum dividir as armas longas em 3 partes, a parte mais próxima da empunhadura é mais usada para defender, e a parte mais afastada é usada para cortar. Armas médias costumam ser divididas em duas partes. Armas pequenas não costumam ser divididas.

    Seria complicado estabelecermos um limite muito estrito que separe as armas pequenas, médias e longas. Minha proposta é comparar a lâmina com o tamanho do antebraço. Menor que o antebraço seria arma pequena. Maior que dois antebraços seria arma longa. Mas a classificação não pode ser estrita, pois depende do nível de habilidade do lutador, o peso da arma, a resistência da arma (ou a percepção desta resistência). 

A) Armas especiais

    Por armas especiais, defino armas que não são nem bastões nem espadas ou facas/facões.

    Machados e armas que podem ter gancho são armas especiais, ainda que neles se apliquem as outras classificações.

    Mas há armas de combate corpo a corpo mais únicas, como as armas articuladas, os chicotes, a tonfa.

    Armas especiais são armas que possuem alguma característica que faz com que seu uso seja diferenciado. É o caso do machado, que a possibilidade de ser usado como gancho cria várias técnicas e táticas que são bastante especializadas.

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