Reflexão: o Japão com seus 3 alfabetos e o Brasil com seus... 4?!

     Costuma-se falar de uma dificuldade da língua japonesa: ter que aprender 3 alfabetos. Também é normal dizer que a educação japonesa se beneficia disso, pois exige que o aluno desenvolva certa capacidade de memorização, o que não é tema.

    Para quem não sabe, o Japão tem 2 alfabetos silábicos e mais um terceiro alfabeto. No alfabeto silábico, cada símbolo representa uma sílaba. Compare com o nosso, em que cada letra é, grosso modo um fonema. Para nós, o som BA é representado pelas letras B + A. No Japão, há um símbolo para os sons BA, outro para BE, outro completamente diferente para CA. Para quê dois alfabetos silábicos? Grosso modo, um é para palavras japonesas e outro para palavras estrangeiras, mas, em termos de sons, os alfabetos se referem aos mesmos (não há um som que só exista em um deles).

    E o terceiro alfabeto japonês? É um alfabeto em que cada símbolo possui um significado próprio. Há um símbolo para flor, outro para água, por exemplo. Este terceiro alfabeto não é um tanto diferente e não é o tema da discussão aqui.

    O que eu gostaria de apontar é que nós precisamos aprender 4 alfabetos. Letra cursiva maiúscula, letra cursiva minúscula, letra de forma maiúscula e letra de forma minúscula.

    É verdade que uma pessoa costuma escrever ou em letra cursiva ou em letra de forma, porém, uma pessoa devidamente alfabetizada deve ser capaz de ler (e, portanto, conhecer bem) os tipos de letra.

    Pode-se objetar que o alfabeto maiúsculo e minúsculo é o mesmo alfabeto, o que eu posso concordar, mas aqui gostaria de enfatizar que nós precisamos aprender (grosso modo) 4 representações distintas para um mesmo fonema, e isso também exige certa capacidade no aprendizado.

    Uma obra objeção é que o alfabeto cursivo é basicamente o alfabeto de forma escrito de forma um pouco diferente, então não há um grande esforço no aprendizado. Eu considero isso parcialmente verdadeiro. Há letras que são realmente bem parecidas, mas há outras que são muito diferentes. E o fato de serem parecidas não significa que o esforço é tão menor - por exemplo, no grego antigo, há várias letras parecidas com as atuais, porém é outro alfabeto.

    O objetivo desta reflexão é pararmos para pensar que certas coisas que nos surpreendem não são assim tão diferentes de nós. Pensando assim, os os 2 alfabetos japoneses não são tão grande coisa em relação aos nossos 4 alfabetos em se falando de memorização.

    Bem, o Japão tem o 3° alfabeto, de ideogramas, que é bem mais complexo, pois tem um número gigantesco de símbolos. Sequer se pode exigir dos estudantes e dos adultos normais que conheça todos eles. Seria mais ou menos como exigir que um falante de português conhecesse todas as palavras do dicionário.

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