Insight: parâmetro de imparcialidade

     Vou expor algo que tenho pensando há algum tempo e que recentemente organizei melhor. Hoje posso dizer que é sobre a imparcialidade.

    Preliminarmente, é preciso abordar brevemente a questão de neutralidade e imparcialidade. Neutralidade significa não ter ou não agir conforme valores e convicções. Imparcialidade significa que, tendo ou não convicções mais favoráveis a um lado, se assume uma postura que trata igualmente os dois lados.

    A neutralidade pode ser uma postura de quem está abordando um conteúdo completamente desconhecido, ou que não se importa com o assunto. Costuma-se dizer que conforme se conhece o assunto, a neutralidade vai se tornando impossível, pois em regra a pessoa adota certa linha de raciocínio ou certo conjunto de valores.

    O importante, na verdade, não é a neutralidade de jornalistas, juízes, mas sim a imparcialidade. Significa deixar de lado preconceitos, dar oportunidade para os dois lados exporem suas ideias. O juiz irá assumir uma posição ao final, depois de ouvir os dois lados e dar a oportunidade de ser convencido. O jornalista geralmente não dá sua opinião, terminando o texto de forma imparcial.

    Costuma-se dizer que a imparcialidade absoluta é impossível, o que justificaria se abandonar a imparcialidade como ideal. O raciocínio é falso. Não é por algo ser impossível (como ser uma pessoa completamente boa) que se deve abandonar o seu ideal. Mas como concretizar a imparcialidade? No direito, é tendo regras claras para ouvir as duas partes, cada uma com um advogado qualificado.

    Antes de prosseguir, apesar de eu valorizar a imparcialidade em certas situações, não significa que não é bom haver lados. A imparcialidade é um valor para o juiz, mas a parcialidade é um valor do advogado.


    Meu insight é o seguinte: se queremos a imparcialidade, podemos visar o seguinte: expor o problema em um texto com que as partes relevantes concordam. 

    Isso significa apresentar os principais argumentos do vários lados. Se houver réplica aos argumentos de um lado, deve haver réplica aos argumentos do outro lado. Os argumentos podem ser melhores de um lado, mas são ainda insuficientes para o convencer o outro, pois há uma margem de convencimento.

    O texto final, ao meu ver, poderia até adotar uma linguagem de um dos lados (o que diminui a imparcialidade), mas se a outra parte (agindo de forma honesta) puder admitir que o texto descreve sua posição, então se atende a esse parâmetro de imparcialidade.


Exemplo de textos parciais e imparciais e explicação:

1 - "Católicos são idólatras por adorarem os santos"

    Essa afirmação não atinge meu parâmetro de imparcialidade, pois um católico não concordaria que é idólatra.

2 - "Calvinistas consideram os católicos como idólatras por adorarem os santos. Os católicos fazem uma diferenciação entre adoração a Deus e veneração aos santos, não considerando que são idólatras."

    Afirmação bastante imparcial.

3 - "Calvinistas consideram que os católicos são idólatras por adorarem santos. Os católicos fazem uma diferenciação não bíblica entre adoração a Deus e veneração aos santos para argumentarem que não são idólatras"

    A afirmação já tem elementos tendenciosos como "não bíblica", mas ainda assim católicos concordariam com o texto, de modo que se cumpriu o parâmetro de imparcialidade que proponho.


    Essa minha proposta de um parâmetro de imparcialidade é, no fundo, um parâmetro de justiça. Um texto ou pessoa pode ser parcial, defender um lado. O meu problema é se expor informações falsas ou sem um mínimo de profundidade que vão levando à falácia do espantalho, mesmo que não atinja esse nível de desonestidade.

Obs.: Eu propus um parâmetro e o expliquei, mas não defendo que deva ser um único parâmetro ou que a parcialidade se resuma a ele.

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