Rascunho sobre ética e honra

     Tive uma intuição que não pude fundamentar devidamente e acho interessante compartilhar agora - daí chamei de um rascunho.

    Hoje é difícil discutir o significado de palavras como honra e ética, pois há uma tendência ao subjetivismo: o que é honra para você não é honra para mim. Ainda assim, são algumas questões que me perturbam.

    Tomo como base a ideia aristotélica de que a honra é o prestígio que uma pessoa tem diante de pessoas boas. Não há honra entre bandidos, por exemplo. Devemos também notar que a noção de honra vai ganhando ao longo do tempo um sentido de consciência da própria dignidade: um homem honrado é aquele que conhece seu valor e compreende esse valor o faz agir de determinado modo (como ajudar o próximo). Com isso, a honra vai se dissociando da reputação (em relação aos outros) para se aproximar de algo mais objetivo e íntimo.

    Se a honra é a compreensão da própria dignidade, não posso deixar de indicar que a honra aparece como algo próprio da nobreza, e também especialmente democratizada pela concepção do valor infinito da alma individual do cristianismo. A propósito, no cristianismo, além do elemento da compreensão da própria dignidade, há também uma sublimação da noção de reputação: o que se busca não é a reputação dos homens terrenos, mas sim dos santos.

    Assim, aqui, diferenciamos a honra como reputação perante membros ilustres e a honra como a consciência da própria dignidade.

    Minha reflexão agora é a honra como um fenômeno associado à ética. Parece-me que só quando há uma ética clara, consciente, é que há propriamente a honra. O que é ética? É o modo de ser (ideal) de um determinado grupo. Uma profissão ou uma empresa podem ter um código de ética, que indica como os membros devem se portar, o que se espera que eles sejam ou façam. A honra indica a realização dessa ética, permitindo que a pessoa honrada seja vista como um modelo ético, um modelo de pessoa dentro desse contexto.

    Mas essa ética deve ter um certo desenvolvimento de suas regras internas. Primeiro, se as normas de uma ética forem muito incertas ou flexíveis, a honra seria menos valiosa, por assim dizer. Segundo, parece que uma ética desenvolvida possui mecanismos de autoafirmação, como uma empresa que tem o funcionário do mês, um código escrito, hierarquização dos membros, partilha de histórias que afirmem seus valores, mesmo formas de tratamento e respeito diferenciadas.


   Gostaria de ilustrar melhor esse segundo elemento. Será um caso interessante por ser uma ética que não é tão moral. Vamos imaginar que haja um clube de um esporte, como de esgrima. Nesse esporte, há uma hierarquia - formal ou informal - conforme a habilidade do praticante. Os melhores esgrimistas são mais bem vistos, enquanto os piores são não necessariamente mal vistos, mas são colocados na média. Existem certas condutas de "desprestígio", como um lutador mais habilidoso "pegar leve" contra um lutador menos habilidoso. Isso é perceptível mesmo que não haja nenhuma palavra ou provocação; qualquer iniciado na arte pode perceber que os esgrimistas avançados não se movem tão rápido, não aproveitam tanto as oportunidades, não comemoram tanto as vitórias ao disputarem contra esgrimistas menos avançados.

    Agora, imagine que nesse clube haja um esgrimista que é muito bom, mas que não é tratado "como um igual" dos mais avançados, mesmo lutando como um igual. Os esgrimistas mais habilidosos lutam mais sério contra ele, mas ainda se percebe que o esforço não é o maior; a postura é menos tensa, comemoram menos, podem perder com mais frequência para ele, mas tratam essa derrota como se tivessem perdido para um "café com leite". Neste cenário, podemos ver que há mecanismos éticos que valorizam certas habilidades, mas que podem também excluir alguém que se encaixaria neles. Isso é um a injustiça, mas creio que possa ilustrar como a honra tem um elemento subjetivo em muitos casos. Se houver um grupo de elite dentro desse clube, a honra também poderia ser expressa como ser visto como um igual entre os membros da elite.

    Os membros da Câmara dos Lordes do Reino Unido são chamados de "peers" (pares), como se fossem todos iguais em dignidade. É uma expressão interessante para indicar uma igualdade entre pessoas ilustres; mesmo que possa haver "superiores", mesmo o superior se sente como um par; ele é superior, mas não tanto a ponto de não pertencer ao mesmo grupo. A honra, assim, pode indicar não só a reputação de alguém perante pessoas ilustres, mas o pertencimento a um grupo ilustre.


    Tenho que aprender a me posicionar com mais clareza ao falar algo. Aqui não pretendo dizer que a honra nesse sentido é boa ou necessária. Acho algo muito valioso que, por exemplo, os mosteiros medievais se obrigassem a receber pobres peregrinos como se fossem altas autoridades, justamente pela dignidade de cada pessoa no cristianismo. Só acho que há um fenômeno ligado à honra e à ética que parece fazer parte da psicologia humana e que não pode ser desprezado. Acho que foi algo bem trabalhado pela Igreja Católica, por exemplo, não de forma meramente instrumental, mas com certa consciência de que é importante para a natureza humana.

    Só me parece que uma visão muito igualitária pode acabar corroendo a noção de honra e ética, e me parece que isso tem efeitos incertos. Parece-me que a honra ainda existiria, mas de forma mais velada e talvez até confusa descontrolada. Talvez gere um menor comprometimento dos membros. Mas esses perigos são mais possibilidades do que fatos para mim.

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