Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte II
3. Versões sombrias das histórias
Aqui, vou tentar abordar de forma mais prática o significado das histórias e em como identificar as versões sombrias e suas variações. Aqui, haverá mais da minha interpretação.
3.1. Monstro - vencer o Ego
Significado resumido: o herói tem um potencial para o bem/equilíbrio/Self, ou para o mal/Ego. Para amadurecer como um personagem bom, ele precisa vencer sua própria tendência ao mal. Essa tendência do herói está representada no monstro, que também personifica não só a tendência, como esse mal em seu poder máximo. O monstro/Ego é apresentado como deformado, cego, incapaz de se harmonizar com o feminino, causador de males para a sociedade. Ao final, o herói vence o monstro sem se tornar um monstro, significando que dominou sua própria sombra e sendo apto para a princesa/sucessão.
Uma versão bastante sombria é a que o monstro vence o herói, ou, pior, que o monstro (morto ou não) consegue corromper o herói. Pode ser um caso de um filme de terror, por exemplo.
Uma versão sentimental é uma em que não há um herói, mas uma heroína. Histórias de monstro possuem em regra um herói e não uma heroína, pois é uma história mais própria do desenvolvimento masculino. Geralmente, heroínas são colocadas na história por uma fantasia e não por ser um tipo de história tão importante para o seu desenvolvimento. Não posso me alongar tanto nisso neste momento. É possível ser uma história boa, mas exigiria muitos detalhes certos que justifiquem porque a heroína precisa vencer a sombra do monstro para amadurecer e porque isso é bom.
Uma versão sentimental interessante é do Frankenstein: o monstro começa bom e é contaminado pelo herói. Na verdade, não é uma história tão ruim, é uma tragédia.
Outra versão sentimental é aquela em que o herói não precisa amadurecer para vencer o monstro. Ou seja, a história foi esvaziada de seu sentido. O herói neste caso pode ser um anti-herói que permanece egoísta no final da história e pode desfrutar das recompensas de vencer o monstro.
Perguntas:
- O monstro significa o Ego? Ou algum vício?
- Vencer o monstro significa que o herói venceu o Ego ou o vício que o monstro representa?
- O herói desenvolveu suas virtudes masculinas?
- O herói passou por uma transformação interna? Em geral, significa adquirir as virtudes femininas do afeto e da compreensão do todo ou uma particular abertura a elas.
- Qual a recompensa por vencer o monstro? Essa recompensa se associa com o Self, com um equilíbrio de valores masculinos e femininos, numa vitória do bem?
3.2. Transformação/sucessão - mostrar-se digno, maduro
A história de monstro enfatiza um elemento negativo: derrotar o Ego. O elemento positivo está implícito na derrota do negativo. As outras histórias focam elementos positivos de forma mais direta. No caso da história da sucessão, se enfatiza a mudança de um personagem imaturo para outro maduro.
Assim como o monstro é uma projeção de um elemento interior (o Ego) a ser vencido, na história de sucessão, a crise sucessória é a exteriorização da luta pelo amadurecimento. O mundo está perecendo pela falta de um herdeiro, como se pedisse ao herói para amadurecer para poder salvar esse mundo. A rigor, seria possível uma história de transformação sem a crise sucessória, como com um jovem querendo amadurecer e se incluir em um mundo dos adultos que já está no auge, mas a crise sucessória é simbólica para enfatizar esse aspecto.
Por outro lado, me parece que falar de uma história de transformação pode acabar sendo amplo demais, incluindo a história de viagem, por exemplo.
Essa transformação (amadurecimento) é algo interno, de virtudes, de atitude. Há formas de enfatizá-la: haver outros personagens incapazes de amadurecer ou que amadureceram mal. Pode haver um personagem com mais recursos externos, mas que não se desenvolve no interior. O auxílio de animais ou da fada madrinha representa a força inconsciente atuando, mas nenhum desses recursos é necessário, apenas útil.
Como é uma boa história de sucessão? Se mostra a aquisição ou a provação de boas virtudes, visando um equilíbrio entre o masculino e o feminino, mesmo que com ajuda da anima/do animus. Geralmente, o herói ou a heroína passa por uma provação final, em que precisa provar seu valor ou ser reconhecida apenas pelo seu interior, depois de perder elementos exteriores de glória e luxo.
Uma versão sentimental é aquela em que o protagonista é bidimensional e inapto. Ele não muda no seu interior ao longo da história, e a história segue o desenrolar apenas exterior, apenas das aparências. Muitas vezes nesse caso o herói ganha apenas aquilo que o Ego deseja e não o que o Self costuma desejar. O Self deseja um casamento feliz, enquanto o Ego deseja várias mulheres bonitas. O Ego deseja mais riqueza e poder.
Uma versão sombria pode envolver não só o herói não melhorar, mas o herói pode ser realmente sombrio, egocêntrico, e usar meios ilícitos para alcançar o sucesso e o reconhecimento.
Perguntas
- No final da história, há um equilíbrio entre o masculino e o feminino?
- O herói ou a heroína se desenvolveram no processo? Ou, ao menos, passaram por provações de suas virtudes?
- Quais são as principais virtudes consideradas na história?
- Qual o prêmio a quem se provou digno?
3.3. Tesouro - conquistar o Self
Nesta história, há um objetivo, é o Self. Essa história tende a ser mais focada no objetivo que as outras, mais direcionada, mais consciente. Frequentemente, nessa história os heróis poderiam abandonar a busca, e são tentados a isso, e eles continuam porque querem. O tesouro tem um valor inestimável para eles e para o seu mundo. Para conseguirem o tesouro, devem se mostrar dignos, e são provados de forma mais direta e consciente do que na história da transformação.
Uma versão sombria ocorre quando o tesouro não é bom ou não traz o benefício esperado. É o caso da jornada dos israelitas até a Terra Prometida. Ao chegarem lá, encontram um local já ocupado, e Israel precisa lutar para conseguir seu lugar.
Uma versão sentimental ocorre quando o herói egocêntico no todo ou em parte não precisa passar por transformações ao longo da história. O público pode se divertir com os desafios, mas eles não passam de provas externas.
Parece que frequentemente surgem versões sentimentais do herói passar por desafios para conseguir o tesouro ou o local esperado, mas ele se decepciona. A história continua, com o herói descobrindo a lição de que o verdadeiro tesouro era o mundo que deixou, e pode retornar a esse mundo. Essa história pode ser boa se bem trabalhada - geralmente, se o tesouro almejado não era o Self, mas o Ego, e o herói percebe que havia se transformado durante a viagem a ponto do tesouro do Ego não ser valioso. Mas essa história pode ser sentimental num mau sentido também, com alguma carga ideológica.
Perguntas
- O que significa o tesouro? Se relaciona com o Self ou com o equilíbrio entre o masculino e o feminino? Obs.: Às vezes, o tesouro em si não é bom nem mau, mas as provas servem para selecionar os bons.
- Os heróis passaram por provações de verdade? Digo, que testam suas habilidades e virtudes não só exteriores, mas também interiores?
- O contexto se relaciona com os valores do Self? Ou com do Ego? Ou algum Ego disfarçado?
3.4. Viagem
Curiosamente, a Viagem tem muita semelhança com a história de Tesouro, porém elas são opostas quanto à manifestação do Self. O Self é explícito e consciente na história do Tesouro, mas é bem esparso na história de Viagem. Nesta, parece que o amadurecimento é mais natural, no sentido de ser menos guiado, mais espontâneo.
A viagem pode simbolizar a passagem para a vida adulta, em que se depara com um mundo novo e diferente, que força as pessoas a amadurecerem. Mas também pode ser alguma outra viagem em que se conhece outras pessoas e situações. Nos dois casos, ajuda a pessoa a expandir seus horizontes.
Como arquétipo, o importante dessa história é o herói ter contato com uma parte mais profunda de si mesmo. O contato com outros lugares, costumes, pessoas, é apenas um meio para isso.
Uma versão sentimental é aquela em que há a viagem e muitas coisas novas, mas em que o protagonista não muda no seu interior. Ele talvez só aprenda mais, mas se não conseguir expandir sua forma de ver, ser mais compreensivo, então a viagem não tem um significado profundo. Isso é comum em viagens que são apenas sonhos.
Versões sombrias envolvem uma viagem em que o protagonista perde alguém ou algo importante na viagem e não ganham nada,ou em que eles se corrompem na viagem.
Perguntas
- O protagonista teve contato com algo mais profundo?
- O protagonista teve contato com coisas diferentes? Ele expandiu sua perspectiva? Se tornou mais compreensivo?
- O protagonista amadureceu? Ele mudou para melhor depois da viagem?
3.5. Comédia
O significado da comédia é a possibilidade de alguém mudar após olhar para si mesmo, em geral se arrependendo. A comédia realmente boa como arquétipo não segue uma ideologia, mas trata da natureza humana, do Ego. É o Ego que precisa olhar para si mesmo para melhorar.
Eu acho que nas comédias há uma variação muito grande entre comédias boas. Depende não só em como a história se desenrola, mas em quão fundo ela consegue tocar nos valores do Self e do Ego.
Uma comédia sentimental pode enfatizar o aspecto cômico ao ponto de perder de vista a crítica ao Ego.
Também, a comédia sentimental pode só querer levar o Ego ao ridículo, mas sem propor uma reconciliação, uma possibilidade de equilíbrio ao final.
Uma comédia sombria pode tentar rir do Self. Essas histórias sombrias podem gerar mal estar entre certas pessoas, mas não entre as que estão mais alinhadas aos valores do Ego.
Perguntas:
- Qual a causa do conflito? (Isso ajuda a sub-classificar a comédia) É um mal-entendido ou uma sombra?
- Podemos dividir os personagens conforme se alinham ao Self ou ao Ego?
- O Ego é forçado a reconhecer algo sobre si?
- O Ego mudou após o reconhecimento? Foi redimido?
- No final, houve equilíbrio entre os elementos femininos e masculinos?
3.6. Tragédia
Se na comédia há muitas variações próximas, na tragédia há muitas variações bem diferentes. Vou tentar propor alguns modelos bons.
A - Tragédia da queda/do Ego - nela, um herói trágico grandioso, mas tomado pela sombra, vai se corrompendo aos poucos, ao ponto de se autodestruir ou ser destruído.
B - Tragédia do limite humano/da fantasia/sentimental - nela, o herói trágico não é tomado pelo Ego sombrio, mas sim por um Ego fantasioso, por um sonho tolo. E irá ser destruído por desafiar os limites da natureza. Foi o caso de Dédalo, mas pode aparecer em filmes de terror.
C - Tragédia da expiação/do Self - nela, a história não é do herói trágico se corrompendo, mas ele começa sombrio e vai sendo purificado até o momento de sua morte.
Essa divisão é mais didática. O que as une é a tragédia em si mesma, que é difícil de explicar. O livro mesmo não aprofunda. De forma bem resumida, eu diria que a tragédia envolve equilibrar dois sentimentos contrários: querer a vida do herói trágico (por admiração, por sua grandiosidade e importância, por seu passado, por seu potencial, pelo bem que faz) e querer a sua morte (pois sua morte é uma punição justa, pois ele é mau, pois sua morte é o único meio de haver paz); esses dois sentimentos não estão presentes sempre, mas atingem um certo auge no clímax da história, e pode mesmo ocorrer sobre a morte que já aconteceu. Há uma certa controvérsia, mas para mim a morte do herói trágico é necessário para haver tragédia - se houver um arrependimento e perdão, não é tragédia para mim. A tragédia ainda possui personagens obstinados (para o bem ou para o mal) gerando uma sensação de destino ou de falta de liberdade, embora seja preciso preservar a ideia de liberdade para haver um sentimento trágico.
Obs.: em várias histórias, uma má execução da história não afeta tanto os valores afirmados, mas no caso da tragédia parece que há uma importância muito grande de se trabalhar bem os elementos.
Quero notar que nas tragédias às vezes precisamos nos atentar no entorno, no ambiente, na sociedade. Vou dar alguns exemplos:
- Romeu e Julieta - Podemos ver como uma história do tipo A, numa inversão que levou a uma história boa, pois os protagonistas representam o Self, e sofrem por serem o Self, mas não é uma história sombria, pois a morte deles traz a paz no mundo. No entanto, se pensarmos no mundo, é claramente uma história do tipo C, em que o mundo é sombrio, mas vai sendo purificado até o "sacrifício" da melhor parte.
- Rei Lear - nele, o herói trágico é um claro exemplo C, porém o mundo é cada vez mais sombrio, seguindo o padrão A.
- A história de Jesus - na história de Cristo como redentor dos homens, Cordeiro de Deus, Ele toma os pecados humanos para serem expiador em seu próprio sacrifício. Cristo seria uma imagem do Self [mas não só], mas não começa sombrio. O que faz sentido como tragédia é nos atentarmos no mundo corrompido e piorando até a morte de Cristo, em que há um momento em que as trevas são redimidas.
Agora, sobre versões sombrias (não é exaustiva):
- Uma versão sombria ocorre quando o herói simboliza o Self e permanece fiel ao Self até sua morte ou vai se aliando ao Self ao longo da história. Para ser uma versão sombria, é preciso que a morte do Self não se expiatória, mas seja simplesmente uma vitória das sombras. Ocorreu bastante com uma heroína que represente a anima, em que seu sofrimento é minuciosamente descrito para certos leitores que desfrutam disso.
- Outra versão sombria eu chamaria de apostasia, de traição. É uma história tipo C, mas em que o herói nega o Self antes da morte, sendo um apostata (que pode até viver) e não um mártir. É como a história de 1984.
- É difícil pensar em versões sentimentais, mas um bom exemplo são os Sofrimentos do jovem Werther. Nela, o protagonista é egocêntrico, mas é retratado como romântico, abnegado, disposto ao sacrifício. E a morte é apresentada como demonstração máxima de seu amor, mas é uma morte vazia, sem afirmar o Self (é diferente de Romeu e Julieta, em que há os valores do Self).
Perguntas:
- A morte do herói trágico ao final traz uma afirmação dos valores do Self?
- Os meios importam: Durante a história, o herói vai se obstinando ou se comprovando comprometido aos valores do Self ou do Ego?
- Há uma sensação de destino? De que o herói, sendo quem é, não poderia evitar o final? Ao mesmo tempo em que percebemos que ele é livre e responsável pelos seus atos.
3.7. Renascimento
Seria preciso identificar se o renascimento é feminino ou masculino.
4. A história e as histórias
O livro tem um precioso resumo da história do mundo, com especial atenção para os últimos séculos e seu impacto nas histórias. Podemos ver como as histórias refletem mudanças de mentalidade, que se relacionam com eventos históricos. Nesse sentido, há vários capítulos em que BOOKER faz uma análise da história, associando eventos e mentalidades com os mitos e as histórias contadas.
Brevemente, BOOKER aponta que algumas culturas, como a grega, têm um equilíbrio entre os elementos masculinos e os femininos, o que se revela, no caso, pela quantidade de mitos envolvendo heroínas em que elas têm papel principal ou bastante importante para o desenrolar da história. Mas há também culturas cujos mitos (e a cultura em geral) tende para o lado masculino: a romana e a judaica. A cultura romana é bem próxima da grega em seus mitos, porém os elementos femininos ficam minguantes, inclusive se perdendo a busca pelo equilíbrio entre feminino e masculino, e se valoriza o masculino sem o feminino (culturalmente, esses mitos se relacionam com uma cultura militar, hierárquica, de forte ordem). O mito judaico apresenta poucas mulheres importantes tais como na mitologia grega; frequentemente as mulheres hebraicas importantes são num sentido negativo, como uma tentadora. Também há um mito de guerra, desastres, punições, de bastante ênfase no exterior e menos nos sentimentos e numa visão integral.
O cristianismo traz à cultura judaica os elementos femininos faltantes. Mesmo que não haja uma deusa, as virtudes femininas estão presentes no "Deus", e encontram especial manifestação em Maria e no Espírito Santo [e nas santas, posteriormente]. O judaísmo teve um outro desdobramento, que foi a islamismo, que não conseguiu trazer o equilíbrio com os elementos femininos, sendo também uma cultura desequilibrada para o masculino.
Brevemente, o simbolismo imaginário medieval era basicamente o mesmo da Antiguidade, tendendo a um equilíbrio dos valores masculino e feminino. [Acredito que haja muito mais reviravoltas na história medieval, mas talvez o autor não tenha tanto conhecimento sobre isso; ainda assim, concordo com a visão geral sobre a Idade Média] Deve-se notar que Deus estava no centro da sociedade medieval, e isso estava presente na arte de forma muito mais intensa do que na cultura grega: estava presente na forma social hierarquizada, na arquitetura das catedrais, na literatura.
Vale a pena apontar para o Renascimento. O humanismo coloca o homem no centro, como "medida de todas as coisas", o que significa tirar Deus do centro. Colocar a percepção do homem no centro levou a tentar se retratar o mundo físico de forma mais realista e mais central. Colocar a ordem e a razão no centro levou a se recuperar valores antigos como a simetria e a harmonia, tendo o neoclássico que visava uma perfeição terrena (compare com o gótico, em que se aponta que a perfeição está no alto). O Renascimento significou uma revolução cultural, o homem colocado no centro era um homem pleno, ainda com bom equilíbrio de valores masculinos e femininos.
Vão ocorrendo mudanças, como a Reforma, que tornou a religião mais individual. Há a descoberta dos continentes, o que amplia a visão do homem, havendo o perigo da cultura ocidental perder a ideia do homem integral. Mas também veio Shakespeare, cujas obras têm uma profunda compreensão do equilíbrio entre feminino e masculino, como apresentado no livro. Shakespeare pode ter vários estilos e histórias que aparentam com obras bem posteriores, mas uma grande diferença é que o bardo tinha uma visão unificada de mundo em torno de valores morais. Havia um centro, uma visão equilibrada e harmoniosa. Outra mudança importante foi a lei da gravitação universal de Newton, que trouxe uma ideia de um universo com mesmas leis, o que apontaria para uma ficção científica no futuro.
O período de principal atenção no livro começa em meados do século XVIII. A mentalidade da época está perdendo o maravilhamento. E há uma ruptura entre o mundo consciente do poder e ordem e o mundo subjacente de sentimentalismo e deísmo benevolente. Foi um tempo de grandes avanços tecnológicos, criando sociedades muito dependestes da máquina, com padrões rígidos e repetitivos de ordem, o que significa uma prepoderância do elemento masculino na sociedade. Também foi um período de enorme riqueza ao lado de classes des-humanizadas e miseráveis.
Ainda havia boas histórias, como de viagens, também obras otimistas e tons leves como comédias. Mas se deve reconhecer que a literatura e a pintura começam a perder o contato com a natureza humana mais profunda, e a última arte a manter esse contato era a música.
Nas últimas décadas do século XVIII, o Ego consegue influenciar mais as histórias. Inicialmente, o Ego vai aparecendo em histórias sombrias em que heróis egocêntricos não conseguem atingir seu objetivo. Depois aparecem histórias sentimentais sem transformação interna, mas apenas com entretenimento usando imagens que lembram histórias de criatividade.
No final do século XVIII veio da tumultuosa Revolução Francesa. Foi fruto de uma mentalidade racionalista, consciente, desejosa a substituir Deus pela razão e mudar toda a ordem no mundo baseada na racionalidade [aí vemos o Ego ganhando espaço]. Tem várias histórias bizarras sobre a Revolução Francesa, sobre enganos e tentativas de idolatrar a razão.
De qualquer forma, a Revolução Francesa teve suas contradições e seus problemas percebidos pelo mundo como o uso da guilhotina, o terror jacobino, o calendário de dez dias que logo abandonaram pelo caos causado. E o período que se seguiu também carregou essas contradições, com sonhos, desilusões e excessos, mas, de modo geral, sempre se distanciando do Self.
A diferença das gerações pode ser expressa da seguinte forma: "Beethoven acreditava em Deus; Brahms acreditava em Beethovem; e Wagner acreditava em Wagner", isso mostra os degraus rumo ao ego, que mesmo a música não escapou.
O século XIX teve ainda mais transformações com a revolução industrial, com mais riquezas e oportunidades, trazendo uma crença de progresso, reforçada pelo evolucionismo da biologia. Acreditou-se que a história era uma subida, e não se preocupava com a queda e a destruição. Foi uma era materialista [e burguesa] que se afastava mais da natureza do passado. A ascensão do imaginário burguês trouxe a popularização da heroína/anima como herdeira [hoje, podemos ver que inúmeras histórias que passaram pela era vitoriana ou foram reimaginadas no período têm a heroína como filha de um rico comerciante]. Mas não foi só de riqueza para todos, pois havia "mundo abaixo da superfície" a realidade dos trabalhadores, o que gerou os socialistas e revolucionários, desejosos de uma sociedade perfeita - mas eles mesmos não se livraram o Ego, e sim criaram uma ideologia coletivista do Ego. Também houve uma estranha obsessão com a imagem da anima sendo humilhada, maltratada.
BOOKER é muito crítico ao Romantismo, cujos efeitos continuam até hoje. O Romantismo não se preocupava com a realidade mais profunda da história, e sim com o sentimentalismo, com as emoções. Se buscava a intensidade das imagens e não o significado.
No final do século XIX e começo do século XX ressurgem as histórias de monstros. Algumas histórias não têm significado mais profundo, mas a sua popularidade significa algo, talvez a sociedade estivesse perdendo seu clima de otimismo e sentido falta de algo ou começando a se preocupar com o risco que as mudanças tecnológicas e culturais traziam. Enquanto isso, a revolução industrial continuava, com sociedades ainda mais dinâmicas. Einstein apresenta sua teoria física [que abalou a segurança do modelo newtoniano], também há mudanças controversas na época como a hipinose, o jazz, o sufrágio feminino, as campanhas comunistas mais intensas.
Nas artes, as mudanças iniciadas no Romantismo continuaram, numa desintegração das formas como o cubismo, o fauvistismo e o futurismo. Nas histórias, os personagens se tornaram cinzas, sem luz nem trevas, mas todos presos no Ego, sem um centro espiritual.
Veio a Primeira Guerra, em que pela primeira vez se empregou as tecnologias em conflitos violentos dentro da própria Europa. A guerra foi marcada por uma forte nacionalismo, pelo imperialismo. Ao mesmo tempo, se aumentava a tensão dos movimentos trabalhistas e feministas.
Nisso vemos o que BOOKER chamou da Era de Loki, que é uma época de certa ambiguidade. Significa o maravilhamento com o potencial da tecnologia e da cultura, mas em uma sociedade extremamente amoral e insensível, em que esse potencial é usado para os piores fins, para males "novos" como eram novas as tecnologias. [De certa forma, vimos isso na própria Revolução Francesa, mas a diferença é que a nela não houve um tom tão escatológico]
Após a Primeira Guerra, os EUA que assumiram o protagonismo, tanto político quanto cultural. Veio os Roaring Twentis, num frenesi materialista hedonista. A bolsa de valores trouxe a oportunidade única das pessoas comuns se tornarem ricas, Hollywood se tornou centro do entretenimento de massa. As mulheres tiveram uma grande mudança na aparência, usando saias curtas, cabelos curtos, cigarros. As mulheres também começaram a adotar modos masculinos enquanto os homens, os modos femininos.
Não só nos EUA foi uma época de individualismo utópico [da fantasia do Ego coletivista]: França e Inglaterra sonhavam com uma Europa unitária, a Rússia procurava criar o comunismo ideal. O Ego continuava sonhando ainda mais graças ao novo horizonte que a tecnologia e as mudanças traziam: se sonhava com a vitória sobre o autoritarismo, contra a repressão sexual, com vidas de fama e comodidades.
Veio outra mudança pela Segunda Guerra, que foi um balde de água fria para os idealistas. Logo ressurgiram valores masculinos luminosos como a valorização do heroísmo dos combatentes. E havia um inimigo, um monstro, a se combater. Curiosamente, rapidamente os homens retomaram a masculinidade e as mulheres, a feminilidade. Nesse momento, os filmes de ficção deram lugar a documentários, graças aos inúmeros casos de heroísmo e vários combates durante a guerra.
Foi um choque, que mostra o "espírito de Loki", a bomba atômica, que mostrou o potencial destrutivo das novas tecnologias. Mas essa preocupação não durou tanto, pois depois da guerra os EUA tinham um novo inimigo da liberdade e da democracia: o comunismo. Essa época logo depois da guerra conseguiu manter os valores do Self que foram recuperados: se apresentou a família idealizada, a masculinidade cavalheiresca, o feminino realmente feminino. Havia ainda o entretenimento sentimental, mas parecia ter recuperado alguma profundidade. Mas também começou uma preocupação com os riscos que essa nova era de domínio sobre a natureza trazia, na forma de filmes de horror de ficção científica, com monstros, aliens, mas a humanidade ainda sobrevivia.
Esse clima de recuperação dos valores do Self durou uma geração, pois a nova geração, que cresceu longe da guerra, e numa sociedade de prosperidade e de ordem, começou a se revoltar e a procurar por excitação. Aí veio a época de gangues, violência e rebeldes, tanto na vida real quanto no cinema. A cultura jovem também se associou muito fortemente com a liberação sexual e com a sociedade de consumo. Esses jovens cresciam com ídolos diferentes das gerações anteriores, e passaram a querer se libertar das heranças sociais e morais. Isso não trazia só ideias boas, mas muitas coisas problemáticas como a Playboy tornar socialmente aceitável a imagem pornográfica feminina, ou o grau de violência que aparecia nos filmes. Houve coisas boas como os protestos de Martin Luther King.
O assassinato de Kennedy precedeu vários eventos e mudanças traumáticos: mais brigas raciais nas cidades, a guerra no Vietnã. Surgiram uma nova "aristocracia" de cantores pop, modelos, designers, muitas vezes com mulheres sexualizadas, sendo uma classe atraente pela possibilidade de pessoas comuns serem estrelas, mas eram pessoas vulgares, sem qualquer comprometimento moral ou social. Também vieram movimentos pseudo-religiosos com líderes carismáticos obscuros. Os filmes continuavam cada vez com mais violência e sexo.
A década de 60 foi um dos períodos históricos de maior mudança cultural, talvez só comparável com a Revolução Francesa. Trouxe como legado a música de batida rítmica, a aceitação da promiscuidade sexual, as drogas como regra em grupos contra o "sistema". Os ídolos pop sofreriam pela vida de drogas e promiscuidade na década seguinte, mas aí já havia novas estrelas para os substituírem. Também a década de 60 trouxe a arquitetura de blocos de concreto, um bom símbolo da esterilidade da época, favorecendo certa nostalgia de um tempo mais quieto, ordenado, colorido e inocente - o que, por sua vez, favoreceu a fantasia estilo RPG e mesmo Star Wars (um universo tecnológico, mas com espadas, cavaleiros, princesas).
A década de 70 popularizou o movimento ambientalista, que se relaciona com a explosão populacional possibilitada pela medicina e agricultura. Também se relacionou com as imagens espaciais da Terra, vista como símbolo de completude, de união, de casa. BOOKER faz bem em apontar que mesmo o ambientalismo não conseguiu deixar de ser uma fantasia do Ego em se preocupar com valores mais elevados e em conseguir salvar o mundo de ameaças colossais.
A década de 70 também trouxe uma geração mais fraca, mais acomodada, mais infantil num mau sentido. Os políticos eram menos corajosos e mais preocupados com a própria imagem, eram mais indulgentes. Cada vez mais, os cidadãos se tornaram consumidores, com preocupações mesquinhas, sem responsabilidade direta e sem profundidade. A mídia se preocupa apenas com assuntos banais e perdia a coragem de realmente questionar e criticar.
BOOKER chama atenção para esse período materialista e hedonista nos EUA ser muito diferente da situação em outras partes do mundo, em que o comunismo trouxe tirania. Grande parte do Ocidente ficou cega à realidade de dentro do comunismo, aí vem o destaque para George Orwell em sua distopia de 1984.
Depois de 1980, continuava havendo mais sexo e violência. A ciência se tornava mais especializada, objetiva, o que também significou o abandono por questões mais subjetivas, pelo aprofundamento da psique. O movimento feminista se tornou mais agressivo em acusar os homens e em tratar mulheres como vítimas, também esse feminismo se distanciava mais da feminilidade e dos valores femininos, querendo que as mulheres tivessem qualidades masculinas exageradas. Uma contradição da época foi que as feministas não se alegraram com a eleição de Thatcher, como primeira ministra, sendo uma mulher forte, com qualidades masculinas até maiores do que seus pares homens, mas ela não era uma figura de mulher-sombra, que queria gerar dependentes para contentar seu próprio Ego, nem defendia uma permissividade moral inclusiva, mas sim afirmava valores masculinos como autoridade, ordem e responsabilidade.
Mas Thatcher não era a única figura contraditória. Regan foi um ator que ganhou notoriedade em histórias de ficção (e devemos lembrar que o mundo dos artistas era um mundo do Ego, das aparências, das banalidades).
Nos anos de 1990, vieram líderes fracos, mas sugiu também o politicamente correto, uma estranha forma de ortodoxia política de intolerância autojustifiável. Veio associado com a pressão para o Estado regular e proteger os cidadãos de qualquer risco, mesmo o imaginário. O Ego usou o politicamente correto como uma veste para se sentir moralmente superior e justificado a agir de forma fanática e intolerante.
Depois as questões de gênero adentraram mais nas histórias (o que já vinha acontecendo antes). Inicialmente, ocorreu pela mulher ser heroína em histórias de monstro [o que é bem atípico], mas também em outras histórias.
Outra forma artística importante são as novelas sentimentais.
Foi aqui que o livro parou na parte histórica.
(Continua)
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