Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte III

 Conclusão e muita reflexão minha

    Aqui, eu pretendo trazer várias reflexões mais pessoais logo depois de terminar a obra. Várias dessas ideias devem ser mais digeridas com o tempo ou mais organizadas.

1. Combinado com outro livro que venho lendo (Fascinating womanhood), existem várias dificuldades para se tentar definir valores ou qualidades femininas e masculinas. Eu pensava em complementariedade entre masculino e feminino de forma mais absoluta e até idealista: o masculino naturalmente tem as características A e B, e o feminino, C e D. E Elas todas são igualmente importantes para o todo.

Mas aí vem um ponto que ficou claro ao se falar de anima e animus. Vou tratar da anima, mas serve para o animus também. A anima é apresentada como o lado feminino de um ser masculino (pois o masculino não é totalmente masculino) [o que lembra certa mentalidade confucionista]. Por outro lado, nas histórias, a anima não é só o lado feminino do herói, mas é um outro personagem; e a anima não é só o lado feminino que falta ao herói, mas ela representa mesmo as virtudes masculinas que faltam ao herói masculino - por exemplo, o herói masculino preso e fraco precisa de uma anima que não seja só feminina, mas também forte e livre.

Assim, o feminino tem certos valores naturais (embora nem sempre presentes), mas também valores criados pela diferenciação e complementariedade ao masculino. E vice-versa. Aí a mulher não deve ser só feminina, mas deve ser aquilo de que o homem precisa. E o homem não deve ser só masculino, mas deve ser aquilo de que a mulher precisa. Assim, uma virtude que não é nem feminina nem masculina, pode se tornar masculina se a mulher precisar dela no outro. Isso não é tão evidente nas virtudes em si, mas, é mais na aparência: uma aparência pode ser mais feminina não por ser realmente feminina, e sim por se opor ao masculino.


2. Agora, devo apresentar uma discordância do autor baseado em um livro que li recentemente (A mulher - Edith Stein).

BOOKER considera que a tendência a dominar é própria do masculino. Quando uma mulher, por querer atenção e afeto, tenta dominar o filho, impedindo-o de crescer, o autor considera que ela é uma mulher-sombra, que, por ser sombra, possui a característica masculina de dominar o outro. Com isso, basicamente BOOKER nega a possibilidade de um feminino-sombra sem um elemento masculino, como se o feminino fosse bom e só se torne mal com o masculino.

Talvez isso faça sentido e seja necessário para o sistema dele, mas eu não considero assim. O que é masculino é o desejo de dominar o mundo e até de dominar o comportamento do outro (o que talvez possamos chamar de parte do mundo, por ser externo). Mas ainda me parece que é feminino e não masculino quando a mulher quer dominar o outro especialmente o interior do outro, especialmente seus afetos.

Não sei exatamente o motivo, mas BOOKER segue uma linha de idealizar o feminino, ou, pelo menos, supervalorizá-lo. A minha linha de pensamento é basicamente de que o pecado original afetou tanto o masculino quanto o feminino. Assim, me parece claro que há vícios femininos que não são masculinos.


3. Em possível conexão com o item anterior, eu mencionei que discordo da forma de apresentar o Ego e o Self. Em última análise, significa que eu discordo não de BOOKER, mas de Jung, por exemplo. Pode ser apenas uma diferença de perspectiva ou de método, mas vou apresentar o que me parece fazer mais sentido.

Uma importância da distinção entre Ego e Self é pela diferença entre consciente e inconsciente. Se idealizarmos a natureza, o inconsciente parece também idealizado, com poderes superiores, com uma harmonia interna baseada em uma lei natural pura; mas eu não idealizo a natureza, e vejo que ela tem tanto esse lado de um equilíbrio e de beleza quanto um lado da lei do mais forte e de autopreservação.

O consciente parece ter uma tendência forte ao desvio, por lhe faltar uma regra, uma lei moral. Por outro lado, a consciência humana não surge no vácuo, mas se desenvolve sobre a natureza - antes de termos consciência, temos um tempo recebendo cultura e em contato com certos princípios da naturais. Na verdade, a autoconsciência permite superar o Ego, pois o consciente consegue analisar a si mesmo e perceber seus próprios limites, que há algo além de si.

Assim, não me parece correto dizer que o consciente é a fonte do mal e que o inconsciente é bom, puro. De novo, o pecado original corrompeu os dois, e os dois também têm um potencial bom. Mas é realmente bom haver a integração dos dois, o que não me parece garantir que o resultado será bom.

A importância da distinção entre o Self e o Ego feita no livro me lembra do seguinte: "Dos amores fundaram duas cidades. O amor a si até o desprezo a Deus fundou a cidade dos homens. O amor a Deus até o desprezo de si fundou a cidade de Deus." Um cristão faz a distinção entre o amor a Deus e o amor a si/ao homem. Um humanista tem o homem no centro, e tentaria distinguir entre dois homens ou duas partes do homem, e aí entra a distinção entre o Ego e o Self. É por isso que BOOKER vê o humanismo renascentista sem tanta preocupação; eu vejo esse humanismo como uma fase que tenta equilibrar os dois amores, mas com a forte tendência a cair para o amor exagerado a si. O humanismo na verdade só surge do mundo religioso, na tentativa de valorizar o homem; mas tentar colocar a religião como parte do homem, Deus se torna relativo às outras partes do homem, e é fácil que perca espaço.


4. Sobre tipos de história x arquétipos

No livro, eu demorei para ter uma noção mais ou menos consistente do que é um arquétipo, que é um conceito bem amplo. Parece haver no livro como uma parte esotéria e uma outra exotérica. A parte exotérica são os tipos de história e a parte esotérica são os arquétipos. Eu não gosto desse tipo de construção, embora às vezes pareça se justificar.

Eu falei na introdução, mas eu preferiro uma estrutura mais organizada. No caso, até uma estrutura mais prática, que é a que tentarei fazer neste tópico. Cada letra apresentará um arquétipo. Apesar de haver inúmeros arquétipos (como os tipos de sombra, o trickester), eu usarei aqui os arquétipos característicos dos 7 tipos de enredo que o livro apresenta. Tentarei dar indicadores simples para saber se o arquétipo é bem trabalhado ou não.

A) Monstro

- Importância mais profunda: o monstro é importante se a) representa o potencial negativo do herói; b) exige que o herói tenha alguma virtude para superá-lo (mesmo uma virtude apenas intelectual, como no caso de Édipo contra a esfinge); c) bloqueia o ciclo da vida (aprisionando a anima, ocupando o trono, impedindo a sucessão de alguma outra forma)

- Elementos sentimentais do monstro (são elementos que são bons para gerar sentimentos intensos, o que é um ponto positivo): a) o monstro representa uma ameaça "cósmica", ou seja, sobre um mundo, mesmo que seja o mundo local (seja como destruidor, seja como tirano); b) o monstro aprisiona a anima; c) a vitória sobre o monstro traz glória e reconhecimento ao herói.

B) Tesouro

- Importância profunda: a) o tesouro simboliza o Self ou algum valor espiritual elevado; b) as provações até o tesouro tornam os heróis dignos ou os tornam dignos; c) a conquista do tesouro traz consequências cósmicas benéficas (como liberar o ciclo da vida).

- Elementos sentimentais: a) o tesouro realmente guiar a história como um objetivo onipresente; b) o tesouro ter um valor inestimável; c) a conquista do tesouro trazer glória e fama.

C) Sucessão

- Importância profunda: a) o mundo padece pela falta de um sucessor, significando o bloqueio do ciclo da vida; b) herói ter que se provar mesmo em uma situação de pobreza e humilhação; c) o herói gradualmente ter domínio de suas forças até se tornar digno

- Elementos sentimentais: a) o próprio casamento; b) a ascensão a uma posição de poder (o trono); c) reconhecimento e fama; d) uma princesa/um príncipe a escolher um par; e) uma cena de transformação, que enfatize que o herói pobre se tornou um sucessor maduro e rico.

D) Viagem

- Importância profunda: a) um herói começa com a vida vazia; b) o herói termina sendo senhor de si, maduro; c) o herói adquire uma visão mais ampla, mais compreensiva

- Elementos sentimentais: a) o mundo de maravilhas, de culturas diferentes, de animais diferentes; b) o aspecto da confusão, do mistério, de desafios mortais nesse mundo; c) a busca por voltar para casa ou d) a busca por sobreviver.

E-1) Renascimento feminino

- Importância profunda: a) a heroína representa as virtudes femininas, passando por provações ou não; b) na falta do animus, a heroína fica numa maldição paralisante; c) o animus tem que se mostrar digno para chegar à heroína, o que significa, no fundo, que tem sobretudo as virtudes masculinas, capazes de quebrar a paralisia; c) o casamento.

- Elementos sentimentais: a) a maldição da heroína recai sobre o reino; b) a quebra da maldição significa vida e prosperidade ao reino.

E-2) Renascimento masculino

- Importância profunda: a) o herói é tomado pela sombra, mas nele ainda há uma luz de esperança; b) o herói tem que morrer simbolicamente (ou seja, seu ego deve morrer) para ele poder renascer (como self); c) o herói precisa desenvolver especialmente as virtudes femininas, que são capazes de quebrar seu destino trágico; d) o herói tem ajuda da anima ou da criança.

- Elementos sentimentais: a) a maldição do herói tem um efeito cósmico; b) a quebra da maldição também tem um efeito cósmico.

F) Comédia

- Importância profunda: a) a história se resolve pelo reconhecimento; b) bloqueio do ciclo da vida; c) desconhecimento sobre a própria identidade ou sobre a dos outros; d)

- Elementos sentimentais: a) mal-entendidos; b) disfarces, máscaras, esconderijos; c) clima de otimismo e esperança, de que tudo se pode resolver pacificamente (embora não saibamos exatamente como); d) triângulo amoroso; e) coincidências inusitadas; f) crítica a incoerências dos personagens.

G) Tragédia

- Importância profunda: a) herói grandioso, mas egocêntrico; b) após um "erro" inicial, há um ciclo de escolhas e consequência que vão minando a liberdade do herói; c) temos um sentimento misto de querer e não querer a morte do herói; d) o herói impede o ciclo da vida e o Self e sua morte é se torna necessária para liberar o bem.

- Elementos sentimentais: a) o herói desfruta da vitória inicial, de glória e ama; b) tentação; c) morte dos personagens luminosos


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