Sobre o gênero do horror

     Estou lendo um livro sobre os gêneros de histórias de John Truby (The anatomy of genres). O livro está sendo interessante, não tanto por conseguir distinguir bem e de forma reduzida e pontual sobre os gêneros, mas sim pelas inúmeras reflexões que apresenta. Há elementos que eu só devo ser capaz de entender bem depois de terminar o livro, de ter uma visão global da obra, mas já posso tecer algumas reflexões sobre alguns pontos interessantes.

    Aqui, pretendo trazer as ideias sobre o horror. Vou apontar o que aprendi com Truby e o que discordo.

    Vale notar que o autor não faz uma distinção entre terror e horror. Ele não mencionou isso até onde li no livro e não parece que irá mencionar ao menos na obra, mas eu tendo a concordar. Alguns apontam que a diferença é que o terror é a sensação de medo, enquanto o horror é a sensação após ter presenciado o evento, de repulsa, trauma, choque. Eu acho que deveríamos chamar de horror o gênero, sendo terror um sub-gênero. O terror, na verdade, deve ser visto como uma técnica que é muito usada no gênero.

    Truby reflete de forma muito interessante que cada gênero possui um significado. Aquilo que vimos da jornada do herói, em que o protagonista tenta encontrar seu lugar no mundo, é apenas parte do que se pode aprender nas histórias. Truby também faz uma hierarquia das histórias (o que até agora eu não concordo, embora louve a tentativa), sendo o primeiro degrau o gênero de horror (isso já faz sentido).

    Sou forçado a notar também que Truby entende os gêneros de uma forma um tanto diferente do que o senso comum. É por isso que inclui a queda do homem no começo do Genesis como gênero de horror, por exemplo. Isso fará certo sentido se analisarmos não tanto os sentimentos (principalmente hoje, depois que tudo foi repetido inúmeras vezes e muitas vezes sem querer trazer o sentimento de horror), mas pela ideia contida ali.

    Qual a ideia fundamental do horror? Truby considera que é o confronto com a morte, mas me parece que isso é uma metonímia. É a parte pelo todo. Truby toma a principal, mais impactante, parte do todo. E qual o todo? Vamos dar um passo para trás.

    O horror é acertadamente o primeiro gênero, pois ele traça um limite. Não achei uma única palavra que expresse sobre o que é esse limite. Vou exemplificar antes de tentar definir:

a) o limite pode ser psicológico - entre o são e o perturbador - há coisas com que as pessoas (de determinado tempo e cultura) não deveriam ter contato sob o risco de perderem a sanidade. Posso ilustrar com o horror de matar alguém - há literatura como "On killing" sobre como a guerra pode impactar os soldados: realmente matar alguém pode causar um trauma psicológico, pois a pessoa pode estar fazendo algo que foi ensinada que é errado (por mais que tente racionalizar), percebe esse lado sombrio dentro de si. A guerra traz outros elementos que apontam para a loucura, como a descoberta de como é fácil ou difícil matar alguém, ou do contato com pessoas morrendo e matando, ou com a percepção de que se sentiu feliz por matar o inimigo, ou triste, ou indiferente - nenhum sentimento parece ser certo ou o único aceitável.

Um jogo que ilustra isso bem é Call of Cthullu, um sistema de regras de RPG de mesa. Basicamente aos não iniciados, os jogadores interpretam um personagem dentro do jogo e possuem bastante liberdade em como criarão e interpretarão o personagem. Nesse sistema, há um nível de sanidade dos personagens. Quando estes entram em contato com coisas que pessoas normais não deveriam presenciar (como múltiplos cadáveres, ou uma assombração, ou um diário de um psicopata), eles vão perdendo o nível de sanidade. Um nível de sanidade baixo faz com que os personagens vão tendo danos psicológicos como terem pesadelos recorrentes, fobias, momentos de perda de autocontrole etc. Parece bem apropriado que seja considerado um jogo de horror.

b) o limite pode ser moral - entre a virtude e o pecado - "Obsceno" foi uma palavra usada no teatro antigo e significa algo que não deveria ser representado no palco. Esses elementos poderiam até ser falados na peça, mas não era de bom gosto que fossem representados para o público. Há tendências mais ou menos recentes que querem usar a arte para chocar e violam esse limite. O problema do obsceno não é uma questão de ser perturbador ou não (embora muitos o sejam), mas geralmente de ser imoral, ou ao menos gerar um sentimento muito próximo daquele com que nos deparamos com um fenômeno imoral. Aí entra uma peça em que matam um bebê em palco.

Mas o limite moral no horror não precisa de atos obscenos. Ainda é preciso que seja um pecado de certa gravidade, mas geralmente se trabalha não com o aspecto objetivo do pecado e sim com a culpabilidade. O horror "moral" inclui, por exemplo, o anime Death Note, em que o protagonista recebe um poder mágico de matar e vai se corrompendo, perdendo sua bússola moral. Muitas das tragédias também são assim. Otelo enfatiza o aspecto moral (dentre outras coisas) pela pureza da vítima. Macbteh mostra também a corrupção de um herói ilustre, cada vez sendo mais sanguinário.

Para um exemplo mais clássico, vemos esse horror moral na queda do homem no gênesis, em que há a desobediência a Deus. Também a Paixão de Cristo (principalmente antes da Ressureição) há o elemento do horror, enfatizado por ser um homem inocente e bom, mas não só, o próprio Deus, sendo perseguido, torturado e morto.

c) o limite pode ser religioso - entre o sagrado e o profano - eu tendo a ver religião e moral como unidos profundamente, mas aqui acho válido fazer a distinção. A religião (incluindo até crenças menos institucionalizadas) possuem certas proibições que não são exatamente morais (eu sei que a distinção entre moral e pecado é posterior, mas aqui é necessária), por exemplo a proibição da comunicação aos mortos. Certas religiões proíbem a comunicação aos mortos e a necromancia de forma geral. É, de certa forma, imoral, mas me parece que o principal elemento é religioso, é por ser uma prática profana, por violar o descanso sagrado dos mortos ou por na verdade ser uma comunicação com os demônios sob a aparência do de cujus.

No livro e no filme Cemitério Maldito, vemos esse tipo de limite. Outra forma desse limite é em pactos com o demônio. Também a maldição do vampiro, de uma pessoa querer a imortalidade, envolve esse tipo de limite.

d) o limite pode ser o desconhecido ou o selvagem - como é o caso de não ir para um lugar, por lá ser perigoso como por causa de um animal do local, ou por ser um lugar desconhecido e assustador.

    Pois bem, não quero definir exaustivamente os tipos de limites que existem no horror (o próprio autor não faz essa distinção). Às vezes não sabemos bem como definir esse limite (como no anime Full Metal Alchemist), mas ele parece envolver várias dimensões. Uma história em que o horror é um elemento principal irá trazer esse limite moral/psicológico/religioso. Esse limite é uma proibição: pessoas comuns não devem cruzar esse limite, talvez ninguém possa. Essa é essência do horror. Truby parece indicar isso no livro quando seus exemplos não se explicam apenas pelo medo da morte.

    Mas não é que não possa cruzar esse limite, é que não deve. Na história de terror, por coragem, imprudência ou mesmo por desventura, se cruza essa linha, esse limite. Depois dessa linha há um barranco (ou um declive escorregadio) em que a pessoa cai cada vez mais fundo sem conseguir parar a própria queda.

    Depois de passar para esse lado sombrio, o mundo invertido, o mundo dos mortos, a casa mal assombrada, dificilmente há uma volta. Os personagens deverão lutar apenas para sobreviver - e por isso o horror é mal visto por muitos, por envolver principalmente os personagens tentando escapar de algo sombrio e maligno.

    Aqui devemos enfatizar algo que Truby mencionou en passant: no horror, o final é tipicamente ruim. O horror quer ensinar que nós não devemos violar certos limites, e a forma é negativa: é mostrando o que acontece com quem violar a proibição. No final típico, o protagonista do horror morre; se não morre, sofre ferimentos incuráveis e horrendos; se não se fere, então perde a sanidade. Com certa elaboração do pensamento, as histórias mudam em parte esse final, o que não significa que ele não é O final do gênero. É o final que mais se espera.

    Pode-se fazer certas mudanças no final. Na tragédia (e note que Truby ao menos até onde eu li não disse que a tragédia faz parte do horror - sou eu que penso que a tragédia deriva do horror, embora possa ser outra coisa, mas ainda mantém elementos do horror) temos algumas variações: o herói trágico morre porque sentimos que ele precisa morrer, pois está se tornando algo muito mau e muito poderoso; ou em certas tragédias a morte é uma libertação para suas dores. A história da Chapeuzinho Vermelho dos irmãos Grimm é com a menina morta e o lobo impune (um horror mais clássico), mas há histórias com menos horror, em que ela é salva - e aprende a lição de não falar com estranhos, o que é um final feliz.  Outras histórias terminam com o protagonista sobrevivendo, mas sem mudar nada em sua vida (o que poderíamos pensar ser um final sentimental - vide outras postagens minhas).

    Seria uma injustiça dizer que em toda boa história de horror precise haver um final ruim. O que digo é que o final apropriado para esse gênero, e a exceção é possível, mas deve ser bem justificada. Uma boa justificação são histórias de possessão do cinema; nelas há muitas vezes um contexto religioso que enfatiza a bondade e o poder de Deus, a conversão, a eficácia do arrependimento, então o próprio mundo em que se passa a história é propício para a vitória sobre o demônio - pois como todo cristão sabe, Cristo na cruz já venceu Satanás.

    Outro subgênero do horror em que um final feliz é mais apropriado é o de histórias de fantasmas. Aqui, por fantasmas, Truby (e eu) se refere não à entidade do fantasma como ser incorpóreo que assombra um lugar, mas sim a um evento acontecido no passado com efeitos no presente. Geralmente é o próprio fantasma de alguém que morreu mas não pode descansar em paz pelos vivos terem deveres em relação a ele, mas poderia ser também até de um descendente do falecido ou do injustiçado (que, por sua vez, também pode se passar por fantasma do antepassado). Nessa história, o final feliz é mais justificável, pois basta que se reconheça o dever pelo antigo. Em uma história bem construída, é difícil aceitar o desejo do fantasma, pois conflita com os interesses do protagonista (e ele mesmo pode ter feito o mal ao fantasma - se bem que, se o que o fantasma quer é a vingança, o final ruim passa a ser provável).

    Onde está o limite na história de fantasma? Peço paciência, pois o raciocínio dá uma volta, mas acho que não é um sofisma. Geralmente a proibição é socialmente ou psicologicamente aceitável (a proibição é: não falar com estranhos, não ressuscitar os mortos, não se comunicar com os mortos, não matar pessoas inocentes, não ficar obcecado com a imortalidade, não entrar na floresta à noite). Primeiramente, devemos considerar que a proibição (e o limite) não é apenas de vedar que algo seja feito, mas também pode ser a obrigação de fazer algo (se você matou alguém, você deve assumir a responsabilidade - não tanto legal, pois dificilmente uma proibição legal gera o horror - mas sim moral, psicológica. Você vai conseguir viver bem consigo mesmo se a pessoa que você matou injustamente era pai de família e agora os filhos passam fome? Ou se ao matar a pessoa você fez ela assumir o que você fez?). Ou a questão pode ser que você é herdeiro de uma família que enriqueceu pelo comércio de escravos ou explorando outras pessoas e mesmo o protagonista não seja individualmente o culpado, ele herda não só os bens, mas a responsabilidade ou a punição pelos crimes da família.

    A volta maior é em outra história em que o protagonista não tem nenhuma culpa, não cruzou nenhum limite. Em Invocação do Mal, a família é assombrada pelo demônio por ter o azar de morar em uma casa em um local em que havia uma bruxa. A família mesma é razoavelmente bem estruturada e não é culpada pelo que lhe acontece, e dificilmente assume ao longo da história qualquer participação em coisas ruins. Nesse caso, devemos observar o quadro geral. Entendemos na história que a violação não foi por essa família, mas pela bruxa. A família sofre os efeitos do que a bruxa fez (assim como a humanidade sofre pelo pecado do primeiro casal, ou que Cristo sofreu pelos pecados do mundo inteiro). O fato da família não ter tanta culpa é bem justificado pela base católica da história e pela família conseguir se salvar no final.

    Vimos no parágrafo anterior um bom exemplo de uma família se movendo para um local amaldiçoado, sem culpa nenhuma, nem mesmo herdada. O contexto religioso explica razoavelmente bem dentro da história, mas há casos de horror em que o mundo não justifica isso tão bem. Há simplesmente um espírito vingativo em uma casa ou há simplesmente um psicopata em um local. Nós podemos fazer vários exercícios imaginativos tentando pensar em outras explicações, como que há um limite de não confiar em estranhos, ou que há grupos que é melhor não se envolver (como não é bom se envolver com serial killers), mas me parece que não é tanto o ponto. O ponto é que há filmes de horror "sentimentais", sentimentalistas, sensacionalistas, que não precisam ser bem construídos, mas apenas se aproveitam de medos profundos na natureza ou na cultura humana. Quando muitos criticam os filmes de horror, na verdade estão criticando não o horror como um todo, mas sim filmes de horror que se popularizaram, mas que não têm qualidade literária.

    Uma situação que está próximo dos filmes de horror ruins é quando há um local que é amaldiçoado, pura e simplesmente assim. Mesmo tendo alguma explicação na história, ela não é profunda. Isso tenderia a levar a histórias sentimentalistas, mas uma explicação é quando esse local tem certa justificativa. Por exemplo, a floresta em si pode não ser um local seguro, então faz sentido bastar ser perigosa para uma boa história de terror (talvez não tão profunda, mas ainda assim é uma justificativa válida, especialmente se trabalharmos os elementos culturais da proibição). Outra possibilidade é caso essa floresta simbolize camadas do inconsciente humano que pode não ser saudável nos atermos - a floresta é lar de animais brutais, e esses animais podem simbolizar a própria selvageria latente dos seres humanos, mas, de novo, tem que ser bem trabalhado.

    O horror é um gênero bastante simbólico. Pode ser que um protagonista não tenha relação com a família cujo pai matou a filha negligenciando-a, mas o protagonista é também um pai que negligencia a filha. Nesse exemplo, a família anterior simboliza o erro do presente. A questão não é tanto o limite violado no passado, mas o do presente.  Nesse caso, há possibilidade de vitória se conseguir corrigir o erro do presente.

    Sendo um gênero muito simbólico, grande parte dos monstros apontam para o que significam. Isso pode ser da aparência do monstro (um monstro animalesco pode representar o lado animal do ser humano), pela forma de agir (um monstro que só aparece no escuro pode indicar o medo pelo desconhecido ou pela solidão), ou por qualquer outro elemento particular. 


    Já mencionei que há filmes de horror que são sentimentais, ou seja, não possuem um significado profundo, e apenas exploram os gatilhos emocionais do medo.  Posso trazer uma reflexão que Truby não fez: seria os filmes de terror filmes sentimentais? 

    Eu não afirmaria que todos os filmes de terror (que exploram mais o sentimento do medo do que do horror) são sentimentais, pois o horror pode legitimamente fazer muito uso do terror. O horror em sentido estrito, no entanto, não se limita ao terror, mas consegue permanecer como horror, pois é algo mais profundo. Um filme que tem muito terror, mas pouco horror (como um filme que, quando o monstro aparece, ele deixa de causar tanto medo ou nos perturbar, e passa a ser um inimigo que pode ser morto) perde a profundidade do horror e vai para o gênero de ação, que é outra forma fácil de manter a atenção do público. Isso, no entanto, não é uma regra absoluta.


    Gostaria também de fazer uma outra reflexão que Truby não fez. No Herói de Mil Faces, Campbell apresenta elementos recorrentes em mitos. Um desses elementos é haver um guardião do limiar: há um ser que vem de um mundo mágico ou do mundo da aventura. Muitas vezes é um ser repugnante como um sapo. Parece-me que há aí algo semelhante ao horror: o limiar separa dois mundos, um é o mundo conhecido e seguro, o outro é o mundo desconhecido, de mudança, de perigos. No caso do mito, o mundo desconhecido não é tipicamente mau, mas é a puberdade, o amadurecimento, a vida adulta - assim, são gêneros diferentes.

    O guardião do limiar pode ter elementos de horror, mas se o tiver, parece que muitas vezes é um horror que deve ser superado. Como o caso da princesa e o sapo, que o horror do sapo deve ser superado para o sapo se tornar um príncipe (ou a Bela e a Fera, embora a Fera não seja o guardião do limiar). Talvez a puberdade traga certo choque ou repugância, como no sangue da menstruação, no crescimento de pelos, no suor excessivo, em cheiros fortes pelo corpo como nas axilas, ou mesmo pelo corpo em crescimento poder ter crescimentos estranhos e desproporcionais que poderão ser harmonizados quando a puberdade terminar - e que são mudanças que precisam ser vencidas.


    Gostaria de encerrar com algo mais prático. Vimos como analisar o horror, mas podemos fazer o exercício de criar uma história de horror, ou, pelo menos um esboço de uma história de horror.

    Pelo que vimos, precisamos encontrar um limite que seja psicológico, moral, cultural. Gostaria que fosse um limite que você acha que diga respeito a você ou à sociedade próxima com que você tenha contato. Tente ser criativo. Depois tente imaginar como esse limite pode ser expresso em uma história, em como seria o monstro ou quais suas características. (inclusive você pode procurar no próprio Youtube vídeos de pessoas desenhando seus medos, pode ser legal)

    Vou dar um exemplo histórico: Frankenstein é um horror mais moderno que reviveu o gênero. O Frankenstein parece fazer referência a uma pessoa específica, mas creio que fez sucesso não por isso (o que significa que é bastante concreto), mas também como um alerta para o otimismo exagerado da sociedade. Devemos notar que talvez nas gerações anteriores havia um forte clima de esperança de futuro, de progresso científico e social, mas quando o livro foi escrito parece haver essa aparência de otimismo, mas uma preocupação crescente no inconsciente das pessoas. Esse medo era primeiro do potencial monstruoso da tecnologia (como se revelou na Primeira Guerra), mas é também um temor humano - o monstro não deixa de ser um filho do doutor, um filho que não foi educado e talvez pudesse se tornar alguém bom. Parece claro que Frankenstein traça um limite da ética para a ciência, um alerta moral de que nossa criação pode nos destruir. Ou, de forma mais tênue, que nossos filhos podem nos destruir - que pode ser expresso na pergunta: você preferiria que seus filhos fossem inteligentes ou que fossem bons?

    Veja como o caso de Frankenstein é interessante. Mas veja também que depende do autor conseguir captar aspectos mais profundos da sociedade. Numa visão mais política, podemos enfatizar aspectos do horror para o livro 1984, por exemplo, em que o limite é político (livro em si não faz tanto uso do horror, mas creio que seria possível fazer uma releitura do livro para o horror).

    Recentemente houve a pandemia. Podemos pensar aí em um limite entre o sadio e o pestilento, e filmes como de uma contaminação que gera zumbis trabalha com esse elemento. Podemos olhar para a pandemia por outro olhar: daqueles que se chocaram mais com o controle do Estado e de organizações internacionais, ou com a capacidade de haver um terrorismo midiático.

    Mais recentemente tem estado em moda as inteligências artificiais. Pode haver aí algum medo ou algum limite. Não vou pensar tanto em robôs assassinos aqui, ou no nascimento de uma mente consciente, que já foram explorados (embora nem sempre bem). Aqui um esboço de um horror é caso a inteligência artificial consiga ter um processamento muito potente, mas com imputs errados, ou confundo correlação com causalidade, ou sendo programado para aceitar que pode mentir e enganar para obter certo bem. Um computador que administra uma casa pode administrar remédios de perda de memória, inclusive na caixa d'água da casa, e esse medicamento pode fazer mal para aquele morador (talvez por ele ter uma doença rara). O computador pode chamar um robô médico, que também pode falhar no diagnóstico e trazer tratamentos cada vez piores. No começo dessa história, o computador pode ser configurado pelo próprio usuário com ferramentas como que desliga as luzes em certo horário, ou bloqueia a internet, ou desliga qualquer forma de comunicação, ou que limita o tempo que pode usá-los, ou condiciona o uso de redes sociais a certos "bons comportamentos". Enfim, só um esboço.


    Talvez seja preciso de gênios que consigam compreender os medos e limites mais importantes de hoje e criar histórias de horror que ajudem a explicar esses medo. a alertar sobre esses limites. E é importante que esse gênio também consiga fazer bom uso da simbologia própria do horror, para que seja sutil. O simbolismo tem uma característica de conseguir ultrapassar o caso concreto e conversar com possíveis verdades atemporais ou ao menos mais profundos. O medo do escuro, por exemplo, é um símbolo, mas com vários significados possíveis, e trabalhar com símbolos pode ajudar a ter uma chave mais universal para alertar sobre limites mais universais.

    É mais típico da comédia dizer aquilo que ninguém ousa dizer. Com isso, a comédia gera um alívio da tensão. Talvez o horror possa fazer algo semelhante. Talvez se você olhar debaixo da cama você perca o medo do monstro. Ou talvez seja importante que a humanidade seja relembrada de que há limites, principalmente quando em momentos em que o mundo ou culturas ou subculturas caminham para o abismo com tanto otimismo.


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