Breve reflexão sobre o quadrivium: a pintura e o cinema

     No livro Quadrivium da editora Quadrante, que eu li há algum tempo, há uma ideia interessante de que o quadrivium se referia a ciências matemáticas: A aritmética eram os números em si mesmos, a geometria eram os números no espaço, a música eram os números no tempo e a astronomia eram os números no espaço e no tempo. É uma forma bem interessante de se pensar e aponta para uma sistematização mais abstrata do pensamento.

    Hoje estive pensando sobre o cinema, em como há certas convenções sobre a divisão do tempo das cenas. A estrutura de 3 atos em histórias é muito antiga (Aristóteles já apontava que uma história tinha começo, meio e fim). Há também a divisão da história em 5 atos, que foi adotada, por exemplo, por Shakespeare.

    Mas acredito que essa estrutura nem sempre refletia na duração dos atos. Uma história pode ter 3 atos, mas eles não têm mesma duração necessariamente. Talvez a forma artística que foi mais capaz de aplicar certa proporcionalidade aos eventos foi o cinema, pela direção ter enorme capacidade de aumentar ou reduzir as cenas. Não sei a porcentagem de filmes, mas sei que vários filmes seguem uma proporcionalidade precisa para certos eventos, como o "turning point" no meio da história. Há um evento que balança o equilíbrio de forças da história, como quando o herói que estava tendo certo sucesso sofre uma derrota pelo vilão começar a percebê-lo como uma ameaça. Esse ponto de virada muitas vezes é situado bem no meio da história; não só no meio da estrutura da história, mas no meio cronológico da história.

    Isso é matemática no tempo, e aplicado ao cinema. Mas o cinema também possui certos elementos espaciais, que começa pela distribuição dos elementos na tela, mas também pela perspectiva. É como a pintura em movimento, e a pintura segue certas convenções bastante geométricas.

    Isso pode nos apontar que se a música é a matemática no tempo, podemos pensar na pintura como a matemática no espaço e o cinema como a matemática no espaço e no tempo. Talvez essa associação hoje ajude a expandir a nossa forma de pensar no quadrivium. Geometria no quadrivium não é só a geometria "pura", mas guarda profunda relação com o desenho geométrico e com a pintura. O cinema controla espaço e tempo mais do que o teatro, porque o teatro é menos artificial, menos controlável. O teatro não tem um ritmo como a música, talvez com a exceção da ópera, pela música.

    São apenas reflexões breves que desejei compartilhar. Suas implicações práticas são ainda indeterminadas.

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