O mito do homem das cavernas

     Várias vezes, me deparo com uma explicação um tanto bizarra, que envolve uma história de um passado imemorial para explicar um elemento do presente. Vou dar alguns exemplos abaixo:

- O cérebro masculino e o cérebro feminino são diferentes, pois lá no início, quando viviam nas savanas, o homem era o responsável pela caça, precisando de um corpo forte, de um cérebro adaptado para percepção de distância e velocidade, para perceber mais os movimentos que as cores. Já as mulheres cuidavam das crianças, precisando ter bastante empatia, ter uma percepção global do ambiente, capacidade de se comunicarem no caso de um risco.

- O medo que nós temos de mudanças vem lá da pré-história, em que a mudança significava um novo risco, o abandono de um estado de relativa segurança e conforto para outro de necessidade de se adaptar, de risco de morrer, passar fome e sede, contrair doenças.

- O cachorro é o melhor amigo do homem, pois é um animal que convive com o homem desde o tempo das cavernas, em que os lobos mais mansos foram sendo domesticados, ajudando o homem nas caçadas e recebendo alimento e abrigo.

    Aqui, o importante não é quanto essas histórias são verídicas ou quais partes delas são verdadeiras e quais são falsas. Meu ponto é que fazem parte de um mito moderno, possibilitada e até mesmo criada pelas novas ciências tanto exatas quanto humanas.

    O que é um mito? Não é uma história inventada necessariamente. Há várias definições, mas basicamente é uma história em que o valor principal não é a veracidade, mas sim a sua capacidade em explicar com certos elementos simbólicos porque uma coisa é como é no presente. Geralmente se passa em um tempo "imemorial", que é um tempo encoberto com uma aura mágica, fantástica, sagrada - porque nesse tempo todos os eventos são altamente simbólicos, sejam verdadeiros ou não.

    Quando vemos certas explicações que remontam ao "tempo das cavernas" ou algo semelhante, eu tenho quase certeza de que é um relato místico. Veja: essas histórias não explicam a causa (no sentido de como as coisas se tornaram como são hoje), mas sim passam a ideia de que as coisas sempre foram assim desde os primórdios, ou que houve alguma mudança nesses primórdios que continua até hoje e deve continuar indeterminadamente.

    Veja que é um mito, porque, ainda que com algum fundamento em antropologia e com base em alguns registros antigos, a verdade é que descrevem um tempo que nenhuma ciência hoje sabe dizer como exatamente era. Existe algum documento (não necessariamente escrito) que comprove que como homens e cães se aproximaram, ou alguma fonte que demonstre como era a vida dos homens e das mulheres no começo da humanidade, ou como as pessoas lidavam com o medo desde o começo da existência humana? Não. Nós temos certas evidências e temos teorias sobre como ocorrem as mudanças nas espécies e nas sociedades, e, com base nelas, podemos fazer uma reconstrução de uma vida em certo momento histórico. Quanto mais voltamos no tempo, menos evidências temos e mais frágeis são nossas conclusões sobre aquele momento. O que esses mitos de homens da caverna contam não é a teoria científica, mas é uma reconstrução de tempos imemoriais em que prevalece não a verdade, mas a função simbólica e a capacidade explicativa do presente.

    Existem mitos semelhantes para o reino animal. Vou citar um exemplo: há vários vídeos de gatos domésticos pulando "de medo" ao se depararem com um pepino. A explicação é que existe um mecanismo biológico no cérebro desses gatos que serve para se afastar de cobras. O pepino parece uma cobra, então esse mecanismo é acionado e faz os gatos se afastarem. Até aí é uma explicação (e não acho que é uma projeção nós dizermos que serve contra cobras, não há como termos certeza científica de que é isso ou não), mas há um pressuposto (não necessário) de um mito evolucionista de que gatos que não pulavam ao ver objetos semelhantes a cobras morreram porque foram comidos por cobras ou algo assim, só sobrevivendo os gatos que pulavam ao ver cobras. É uma história que não pode ser comprovada, pois não há registros dessa época. É uma história inventada com base em certas interpretações da realidade dos gatos e em certas teorias biológicas. Pode ser verdade ou não, mas ela é contada não por ser verdadeira, mas pela sua capacidade explicativa, pela interpretação da realidade que carrega consigo.

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