Problemas no sistema mágico de Harry Potter

     Venho compartilhar certos elementos do sistema mágico no mundo de Harry Potter de que não gosto por motivos diversos. Devo começar dizendo que a autora fez um mundo gigantesco, com muitos mistérios e com regras interessantes, então minhas críticas não visam desmerecer sua capacidade criativa.

    Mencionarei sites da fandom com informações, pois nem tudo o que direi está nos livros. Será em inglês por ter informações mais completas em geral.


1) Artes das trevas são realmente das trevas?

    Apesar do nome, as artes das trevas não incluem apenas magias malignas propriamente. Por exemplo, envolvem feitiços para soltar amarras, empurrar alguém, causar coceiras. Existem subdivisões conforme a gravidade, mas me parece inadequado chamar todas de artes das trevas. No mundo real, seria como se incluísse esportes marciais com técnicas de tortura num mesmo grupo.

    Eu iria propor como critério usar o termo "Artes das Trevas" para magias que são especialmente antinaturais, danosas. O cruciatus (maldição para causar dor) seria arte das trevas não só por causar dor (dor ao ponto de poder enloquecer), mas pelo usuário precisar querer intensamente causar dor. A horcrux é arte das trevas não só pelo efeito antinatural de dividir a própria alma, mas também por exigir um sacrifício humano.

    Para mim, de alguma forma, a arte das trevas (no meu conceito) deve causar um dano ou uma mancha no usuário. O uniforme da escola de magia do Japão pode mudar de cor para branco caso o usuário use arte das trevas. Eu suponho que não seja qualquer magia das trevas, mas sim essas mais graves.

    Existem alguns pontos em aberto sobre artes das trevas que me parecem relevantes:

- Mesmo feitiços simples considerados artes das trevas podem corromper o usuário? Eu acho que não, mas seria um tópico interessante de discussão.

- Diz-se que as artes das trevas podem ser usados para o bem. Dumbledore disse que Snape não seria prejudicado por usar a maldição da morte para matá-lo, pois ele deu permissão (é possível que Dumbledore esteja errado). O imperius pode mais facilmente ser usado para algum propósito bom. Eu, pessoalmente, acho que há um espaço cinzento que considera a intenção, porém sou mais rígido ao considerar que certas ações sempre geram um dano na alma do usuário - por exemplo, acho que a maldição da morte sempre deve danificar a alma do usuário.

https://harrypotter.fandom.com/wiki/Dark_Arts

https://harrypotter.fandom.com/wiki/Mahoutokoro


2) A maldição da morte é "quebrada"

    O Avada Kedavra é um feitiço bastante desbalanceado. Se acertar alguém, a pessoa morre, e não há feitiço de proteção contra ele, exceto uma sacrifício (como da mãe de Harry, que se sacrificou para protegê-lo) ou uma horcrux. Seria possível se defender se esquivando, se protegendo atrás de algum objeto sólido ou por colisão de feitiços (o que é mais raro do que os filmes fazem parecer).

    Parece que a maldição da morte é muito letal, praticamente indefensável, sem custo significativo, sem necessidade de preparação. Pode ter um custo à alma do usuário, mas não parece ser tão danoso. Os aurores mesmo tiveram autorização para usá-lo.

    Formas de balancear um pouco o feitiço seria:

- Assim como crucio, exigir uma intenção forte e determinada do usuário e desejo intenso de matar. Não pode ser feito a sangue frio, exceto se o usuário estiver acostumado.

- Risco de sobrecarregar a varinha. Se for usado, pode causar um dano à varinha. Varinhas diferentes podem ter resistência diferente. Se for usado várias vezes seguidas, a varinha irá se desgastar mais do que se o feitiço fosse usado de forma esparsa.

- Apesar de não precisar de preparação, a forte intenção de matar do usuário dificilmente seria instantânea: ele carregaria consigo essa intenção. E pessoas mais empáticas ou certos feitiços poderiam perceber essa intenção (ainda que intenção não signifique ação). Pessoas acostumadas a usar o feitiço podem mais rapidamente mudar seu humor de forma inesperada, mas pessoas, por exemplo, com medo, não (enquanto estiverem com medo; a raiva pode suceder o medo rapidamente).

- A forte intenção tende a se manifestar de forma bastante explícita. O usuário deve ter que gritar o encantamento, fazer algum movimento bem amplo com a varinha. O usuário pode até ter certo sucesso para disfarçar a intenção e o desejo de matar, mas quando for realizar a ação ele deve conseguir expressar a intensidade de seu propósito falando bem alto e com gestos muito amplos. Essa necessidade de expressividade pode diminuir se o usuário se acostumar a usar a maldição. Isso também torna mais previsível quando o feitiço será lançado, e uma pessoa pode tentar se jogar para o lado para escapar.

- Após o feitiço ser lançado e, principalmente, se o feitiço acertar o alvo, o usuário ficará em um estado de excitação alto por vários minutos, sendo difícil disfarçar sua emoção forte e afetando seu psicológico temporariamente. O sentimento pode ser diverso: medo, coragem, ânimo, alegria, tristeza. O efeito muda conforme a pessoa vai se acostumando com o feitiço: quanto mais acostumado, mais a pessoa sentirá poder, coragem, entusiasmo, e por menos tempo.

    Minhas propostas ainda deixam o feitiço poderoso e ainda é difícil de escapar, mas ele será mais fácil de ser prevenido e, depois de usado, do usuário ser identificado. Eu também trouxe efeitos caso o usuário esteja acostumado a usar a maldição: assim um vilão como Voldemort ou comensais da morte disfarçados ainda teriam meios para não serem tão prejudicados. Para alguém mau que tem fama de assassino os efeitos têm pouco peso. Para alguém disfarçado, seria importante ter prática usando o feitiço para apresentar menos sinais, mas eles ainda estariam presentes.

https://harrypotter.fandom.com/wiki/Killing_Curse


3) Falta de objetos bélicos mágicos

    Vimos certos objetos mágicos como a capa de invisibilidade ou o olho de Moody, mas na situação de uma guerra bruxa eu esperaria encontrar certos equipamentos mágicos como:

- Escudo de pele de dragão - pode ser um escudo como o das legiões romanas, revestido com pele de dragão ou de outra criatura resistente à magia. Ele seria um equipamento capaz de proteger contra diversos feitiços inimigos. Em regra, ele reflete ou deflete feitiços.

- Para-raios mágico - um objeto que tem a capacidade de atrair qualquer feitiços e descarregá-los. O feitiço atraído pode só desviar a trajetória também. Não significa que as pessoas estejam seguras dentro dele (diferente de uma barreira), pois um feitiço atraído irá em direção do centro do para-raios, podendo ferir quem estiver no caminho.

- Capa de couro de gigantes - Não é um escudo; é mais uma armadura, com um nível de resistência contra feitiços e contra objetos físicos.

- Canhões mágicos - Parece um canhão, mas vários bruxos o carregam com suas magias e uma pessoa mira e dispara. O tiro é muito mais poderoso do que o de varinhas comuns por ser concentrado. Lembra de quando os comensais da morte estavam atirando feitiços contra a barreira mágica em Hogwarts? Os feitiços pareciam causar dano, mas mesmo sendo muito eram insuficientes. Se houvesse uma arma capaz de concentrar vários disparos de feitiços em um ponto, o impacto poderia perfurar uma barreira.

- Armadura com materiais resistentes à magia - diferente de um material protetivo mágico, que repele a magia, deveria haver materiais que são anti-mágicos, que não interagem com a magia. A magia que os atinge não tem efeito algum, e não é defletida nem refletida. Pode ser, por exemplo, o chumbo. Assim, escudos ou armaduras de chumbo poderiam bloquear ataques mágicos.


4) Magia subjetiva ou objetiva?

    Criei esses dois termos para simplificar uma distinção entre dois tipos de sistemas mágicos. Ou a magia é subjetiva, ou seja, depende fundamentalmente da intenção do mago. Ou a magia é objetiva, ou seja, depende dos atos externos independente da vontade. Se uma magia pode ser realizada apenas com palavras mágicas mesmo que o mago não tenha consciência, é um sistema objetivo.

    Se a magia é subjetiva, então ela começa a perder seus limites, a ser difícil de ser ensinada e é menos confiável. Se a magia é objetiva, os rituais podem acabar enfraquecendo muito a magia, ou ela fica muito racionalizada.

    Em geral, tenta-se utilizar sistemas mistos para evitar problemas que a escolha de um dos sistemas puros levaria, mas geraria o risco de contradição interna e acho que esse é um potencial problema no mundo de Harry Potter. Obviamente, há feitiços que são principalmente subjetivos e há poções que são bastante objetivos, mas isso não é um problema de contradição ao meu ver. O problema aparece quando os feitiços são tanto subjetivos quanto objetivos, mas sem uma boa explicação da interação entre esses dois elementos.

    Devemos notar inicialmente que as palavras são ditas em latim por uma razão: o bruxo usa a palavra para ajudar a se focar no feitiço, o que ajuda a prevenir erros; e a palavra é dita em latim, para se distinguir das palavras em língua comum (de modo que alguém não lance um feitiço acidentalmente). Também me parece ser uma questão de tradição: o feitiço foi lançado há muito tempo em latim, e mudar o idioma poderia exigir mudanças de entonação ou sinônimos que exigiriam muito mais estudo para prevenir acidentes.

    Assim, parece que o feitiço é, no fundo, subjetivo: os atos externos ajudam apenas no foco. No entanto, ao menos no filme, há situações em que isso não se aplica. Quando Harry vai usar o pó de flu pela primeira vez, ele pronuncia a palavra errada e vai para outro lugar. Devemos imaginar que o ato objetivo neste caso é talvez até mais importante que a intenção (por exemplo, se uma pessoa diz Beco Diagonal, mas pensa firmemente na sua casa, ela ainda vai para o Beco Diagonal). Podemos pensar que a rede de flu funciona de maneira que a intenção não importe - o que eu acho que terá problemas (por exemplo: um trouxa pode usar a rede de flu?), mas não me parece a explicação mais simples. A explicação mais simples é que é uma magia objetiva - e, sendo esse o caso, eu tenho pena de pessoas gagas ou com sotaque forte.


    Essas são apenas algumas reflexões sobre problemas no sistema mágico do mundo de Harry Potter. Acredito que não afetem a fluidez da história, mas ainda são objeto de crítica. A autora criou um mundo gigantesco, cheio de detalhes e elementos, mas não é perfeito. Não é perfeito não pela falta de riqueza, mas por não explorar certos fundamentos do sistema.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher no tempo das catedrais

Héroi de Mil Faces (Campbell) - crítica

Resenha: The seven basic plots (Christopher Booker) - parte I