Sobre a necessidade de separar o horror do gore/slasher (filmes)
Há vários textos tratando da diferença entre o terror e o horror, tanto quanto a sentimentos quanto quanto a gêneros de filmes. Eu gostaria de apontar a necessidade de se diferenciar o horror de algo que chamaríamos de gore ou slasher.
Para contextualizarmos, vou abordar primeiro a diferença entre horror e terror. Tratando do sentimento, apontam a diferença entre esses dois termos; basicamente, o terror é o sentimento de medo antes de algo ruim, é a antecipação dos males. O horror é o sentimento mais próprio de depois de algo ter acontecido, é o choque psicológico diante de se presenciar algo ruim.
Stephen King considerou o terror como superior ao horror. Uma das vantagens do terror é a possibilidade de ser sustentado ao longo do filme. Eu discordo em parte, mas explico depois.
No cinema, se procurou dividir terror e horror com base no sentimento preponderante (ou seja, pode haver - e de fato há - um pouco de cada um no outro). Chmarei os dois aqui como subgêneros. O terror é um subgênero baseado no monstro aparecendo em vislumbres, em se explorar fraquezas dos protagonistas. Já o subgênero horror é costuma apresentar cenas fortes, muitas vezes com sangue e tripas.
No Brasil, parece ser comum falarmos de filmes de terror nos referindo ao gênero que inclui os dois subgêneros, mas num sentido mais técnico o nome correto do gênero que reúne os dois é horror, tanto por uma razão histórica quanto por algumas questões mais profundas. Assim, o termo "horror" pode se referir tanto ao gênero (que inclui o terror) quanto como subgênero (que é diferente do terror) - é uma palavra ambígua.
Eu trabalhei em outro texto sobre os histórias sentimentais, ou melhor, sentimentalistas, que podemos dizer como histórias apelativas. São histórias que em maior ou menor grau abdicam do enredo e do significado da história para enfatizarem os sentimentos no público. Digamos, não são histórias que querem ser boas, mas que querem chamar atenção. No extremo, são histórias vazias, são meras ilusões ou sonhos. Vou ilustrar isso ao tratar das histórias de horror e terror.
A forma mais elevada dessas histórias está dentro do horror, ou ao menso incorpora fortemente o elemento do horror. O elemento do terror é basicamente sentimentalista, basicamente trabalha com respostas emocionais diante de certos elementos que causam medo ou estranheza. Esse medo futuro do terror é, na verdade, um medo do desconhecido, uma insegurança. Se carrega algum significado mais profundo, é meramente psicológico, individual. Já o horror apresenta a reação diante de algo que já aconteceu, ou seja, você passou por uma experiência chocante, terrível. Esse tipo de experiência muda as pessoas, que podem ou enlouquecer ou "renascer" como alguém melhor. Essa experiência pode ser algo natural (como nas interpretações de que a história da Chapeuzinho Vermelho é sobre a puberdade), mas o valor mais profundo é se a experiência se refere a algo proibido, deshumano, ocultista, indescritível. É o caso de Frankenstein que se horroriza diante de sua criação, que é a alma humana tomando consciência de que violou um tabu, que cometeu um crime contra a ordem natural.
O problema do sub-gênero do horror é que ele passou também a ser sentimentalista pelos filmes de gore/slasher, que poderíamos chamar de filmes de sangue e tripas, massacre ou algo assim. Neles, se cria a emoção do horror por meio de cenas fortes de violência. A violência pode gerar esse horror, como se poderia retratar bem numa figura clássica do militar que volta de uma guerra sangrenta e carrega em si os traumas (nem sempre o filme é de horror, mas é um personagem que passou por uma experiência de horror). O problema é que esses filmes de horror sangrento criam um enredo fraco e possuem uma mensagem pouco relevante; tais filmes visam ganhar fama e público por meio de cenas cada vez mais brutais e chocantes, o que é um recurso rasteiro.
Essa é minha reflexão: eu gostaria que pudéssemos separar o gore/slasher do horror, mas acredito que hoje nos falta tanto uma terminologia apropriada quanto uma boa maneira desse tipo de distinção chegar bem ao grande público. Nessa classificação, talvez fosse até necessário rever a diferença entre terror e horror, pois de fato eles se comunicam bastante.
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