Halloween: de fantasias assustadoras para qualquer fantasia

    Tradicionalmente, o Hallowen é uma festividade relacionada à morte, tanto de memória dos mortos quanto da lembrança da nossa mortalidade. Aí temos fantasias relacionadas a esqueletos, almas penadas, fantasmas.
    Com o tempo, o Halloween parece ter priorizado o sentimento do medo, do terror, do horror. As fantasias não só se relacionavam com os mortos, mas incluíam vampiros, o monstro de Frankenstein, bruxas, depois mais personagens da cultura pop como Jason de Sexta-Feira 13 ou Chucky. Há um tom alegre das travessuras, dos cinemas, das festas, mas com a temática do medo, do assustador.
    Recentemente, tenho percebido que o Halloween tem se tornado uma festa a fantasia mais genérica. Apesar de ainda haver ainda de alguma forma a relação com o medo, as fantasias incluem personagens que não são assustadores, como pokemons não assustadores, Mário, presidentes e celebridades, Harry Potter, super-heróis.
    Parece-me que essa última mudança tem ocorrido de forma um tanto imperceptível, mas parece haver alguns fatores que ajudam a entender o processo.

    Hoje, parece-me que o Halloween deve ser entendido como contendo várias origens que se entrelaçaram. Havia festas celtas que foram cristianizadas, mas que mantiveram elementos pagãos. Ao ser levada para o Novo Mundo, tanto na parte anglófona quanto na parte latina entrou em contato com elementos autóctones como a abóbora (na Europa se escupia rostos com outros vegetais) ou com as flores do México. Mais recentemente, tem incorporado elementos da cultura pop, há uma rejeição da festividade por líderes religiosos cristãos e há algum tipo de imput vindo de religiões neopagãs.
    Antes, o significado espiritual se relacionava com a mudança de estações, com o fim da colheita, o fim de um ciclo. Também podia ter uma relação com os mortos em maior ou menor medida depenendo da época e da região.
    O nome Halloween vem do cristianismo, como a véspera da festa de Todos os Santos. Há um processo longo em que o paganismo local e o cristianismo interagiram. Costumes antigos foram preservados, às vezes ressignificados, às vezes alterados, às vezes sobreviveram como superstição. Aí vieram ou sobreviveram lendas como de Jack O'Lantern. Parece haver uma relação de memória dos mortos, de se lembrar da própria mortalidade e especialmente da possibilidade do destino do inferno. Parece-me bastante interessante pensarmos que as brincadeiras das crianças envolvem esses elementos espirituais profundos e mesmo serve como uma válvula de escape emocional para se lidar com tragédias de um modo alegre.
    Especialmente no meio protestante, e particularmente em solo americano, foi se desenvolvendo uma rejeição religiosa ao Halloween. Em parte, é verdade que os calvinistas e os puritanos (basicamente, calvinistas ingleses) rejeitavam as festas em geral, e também é verdade que o Halloween americano deveu muito aos escosses católicos, mas parece que aquilo que antes era uma brincadeira inocente foi sendo mal visto pela religião, em parte pela perda do significado espiritual e religioso anterior, em parte por algum tipo de mudança de mentalidade que via os monstros e os mortos como elementos malignos, diabólicos. Há também denúncias que parecem mais comprovadas conforme se aproximam do presente de que é uma data relacionada de fato com pessoas má-intencionadas, seja de seitas, mas mesmo de sequestro de crianças - pois é notoriamente uma data em que pessoas estão fantasiadas e que crianças andam sozinhas pelas ruas pedindo doces a desconhecidos, o que obviamente aumenta o risco de sequestros.
    Mas o embate religioso contra o Halloween também parece ser influenciado pela cultura pop do último século, em especial os lançamentos de filmes de horror, mas mesmo o uso da data para fins comerciais e de diversão. Com isso, o Halloween é ainda mais esvaziado de seu significado espiritual (não é sobre a morte, mas sobre filmes), mas também se torna uma brincadeira mais inocente (não é sobre o diabo, mas sobre filmes).
    No entanto, também parece que certos movimentos místicos e outros movimentos neopagãos recepcionaram a festa que foi em certa medida rejeitada pelas religiões tradicionais, voltando a certas noções panteístas celtas. Mas não foram e não são capazes de retomar a profundidade espiritual de outrora. A data se tornou mágica ou mística, mas não reflexiva, não teológica, não tem um significado ético-religioso.

    Apesar de haver certas iniciativas para a data voltar a ter algum significado espiritual, parece-me que na verdade as influências dos interesses comerciais e da cultura pop são mais relevantes para se entender socialmente o que é o Halloween atualmente: uma oportunidade para o comércio vender fantasias e enfeites, e para se lançar filmes temáticos, parques, revistas e histórias em quadrinhos, incapazes de atribuir à festa um significado mais profundo.
    

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