Uma reflexão sobre o "civil ajuda civil"
Eu não gosto de comentar sobre atualidades. Minha crença é que só sabemos o que realmente aconteceu depois de já ter acontecido, ou até anos depois. Por outro lado, tenho percebido que eu tenho certas percepções sobre o que acontece que nem sempre é dito, ou que é dito de forma muito restrita. Eu geralmente espero para para expor essas ideias e vou trabalhando-as com o tempo. Aqui, gostaria de expor uma delas.
Nos recentes eventos das inundações no Rio Grande do Sul, se popularizou o jargão "civil ajuda civil", aparentemente opondo o civil ao militar e, de forma mais ampla, ao Estado ou à Federação. Houve ajuda do Estado e dos militares, mas há muitas reclamações sobre ela (ser ineficiente, ser tardia, ser muito insuficiente) e houve a popularização de vídeos mostrando problemas da burocracia e mostrando falhas até cômicas de tentativas estatais de dar ajuda. Por outro lado, os tais civis estão se esforçando para se ajudarem.
Fazendo uma ressalva aqui, eu não sei avaliar em que grau a ajuda estatal foi realmente ineficiente ou tardia. Talvez, ela tenha sido decente (dentro de uma comparação com outros desastres) e talvez tenha sido vítima de um descontentamento massivo da população. Talvez tenha sido realmente péssima, mas isso não importa para a reflexão aqui.
"Civil ajuda civil", pelo que eu entendi, quer dizer que a maior ou a ajuda mais importante vem por parte de pessoas locais e/ou voluntários, e não por parte das instituições que (discutivelmente) servem para dar o apoio nos cenários de desastres. Se é realmente isso, talvez não devamos estar tão chocados. Não posso dizer com certeza, mas sempre me pareceu que a ajuda local e de voluntários no caso de desastres é e sempre foi extremamente importante e extremamente louvável.
A nível local, não há como a polícia e bombeiros e as forças militares darem exclusivamente todo o apoio necessário para desastres de certa proporção. Inúmeras vezes vemos escolas privadas ou públicas e igrejas de diversas denominações abrigando as pessoas, vemos voluntários da própria cidade e associações ou pessoas organizando grande parte do apoio. Sempre foi assim.
Expandindo mais um pouco a visão, é comum a polícia solicitar filmagens de estabelecimentos comerciais e casas quando possuem câmeras apontando para a rua; é comum civis organizarem campanhas de arrecadação de bens diversos para instituições de assistência social; é comum haver bombeiros ou socorristas privados ou treinamento de civis para realizar primeiros socorros.
Certos serviços estatais funcionam bem dentro de certos limites. Os bombeiros têm uma capacidade de prestar seu serviço, e fazem um ótimo trabalho dentro desses limites. O Estado brasileiro mal dá conta de certos problemas do dia-a-dia, então quem esperaria que iria brilhar em um problema de escala maior? Eu não fiquei chocado em ver que a ajuda depende tanto dos civis. É claro que neste caso, o trabalho dos civis brilhou; eu vi uma notícia de uma academia que cedeu o espaço para a realização de atividades voltadas para crianças altistas. E também fiquei um tanto surpreso por mais de uma filmagem mostrando falhas dos militares ou do Estado, mas nada disso é novo.
Talvez a novidade esteja mais na proporção (ou na desproporção) entre a ajuda civil e a ajuda estatal, ou melhor, no quanto essa disputa foi politizada, em quanto as falhas do governo foram apontadas, demonstradas e repetidas. Mas há um filtro entre o que é divulgado nas redes sociais e o que realmente acontece. (E lembro que fake news não é notícia falsa, mas desinformação, notícia manipulada. A fake news pode até ser de fatos exclusivamente verdadeiros, mas podem ser desinformação por não dar o devido contexto, proporção, não dar outras informações relevantes)
Se há um ponto em que eu espero (ou deveria esperar) algo a mais do Estado em relação aos civis é na reconstrução. É no planejamento de como construir ou reconstruir estradas, pontes, barragens, canais. Em como fazer um planejamento urbano que possa lidar ou prevenir um evento tão grave no guturo. Também eu gostaria de esperar alguma ajuda financeira na construção, no retorno das iniciativas privadas. Acho que isso é esperar de mais, mas ainda é algo que eu espero do Estado e não dos civis.
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