Por que não gosto dos filmes do "Frankestein" e qual seria uma boa história

     Houve um lançamento de um filme, a Noiva!, que contaria sobre a noiva do "Frankestein" (no filme, o monstro se chama Frankestein, sendo que no original esse é o nome do cientista). Eu vi o trailer e já fiquei incomodado a ponto de não querer assistir ao filme, assim como vi outros filmes e não achei que honram ao original.


Por que os filmes não fazem jus ao original?

    O filme do Frankestein a que eu mais gostaria de assistir é o primeiro, mas sem esperar que siga tanto o original. Ele parece ter marcado a imaginação coletiva com o cientista maluco conduzindo seus experimentos em um castelo sobre uma colina, usando um para-raios para dar vida ao monstro, e com a população se revoltando com tochas. Mas nada disso existe no livro original.

    No original, a história gira em torno do Frankestein, o cientista, com seu gosto pelo oculto, com seus desejos de substituir Deus. Ele cria o monstro (que não tem nome, sendo chamado apenas de monstro) e se horroriza com a própria criação. O cientista em seguida passa a viver seu inferno, como consequência de ter violado as leis naturais. Ele é assombrado pelo monstro, ameaçado. O monstro relata (e podemos não confiar 100% no que o monstro diz, já que é um relato dele e não um fato) que tentou viver uma vida normal mesmo sendo rejeitado por seu criador, mas viu que todas as pessoas se horrorizavam com ele, então ele queria ter uma parceira para viver com ele e ele aceitaria viver para sempre longe das pessoas, sem causar mal a ninguém - mas exige que o cientista crie essa parceira a ele, caso contrário o monstro irá matar (e realmente mata) pessoas próximas do cientista. Em um ponto alto da história, o cientista cede, e chega a criar o corpo do segundo monstro, mas ele não finaliza o processo, pois toma consciência de que criar um segundo monstro é algo horrível também, e destrói o segundo corpo. O cientista tenta viajar para longe, mas é perseguido pelo monstro. Acho que o cientista morre no final, mas não tenho certeza.

    O original é uma história de terror/horror. É chamado também de "o Prometeu moderno", pois Prometeu com seu irmão construiu o homem do barro e deu a ele o fogo dos deuses. É um horror pelo aspecto do monstro, pela sua mistura de inocência e selvageria (como se fosse uma criança egoísta com superforça), pelas aparições e ameaças do monstro. Também o cientista é assolado pela culpa e pelo medo. O livro trabalha com um dilema moderno do limite da ação e dos experimentos humanos em nome da ciência, sendo uma discussão atual como reaparece problemas como a clonagem, a inteligência artificial, o melhoramento genético ou o trans-humanismo. Veja que estes temas podem aparecer como histórias muito parecidas com a do Frankestein: e se meu clone for maligno, se passar por mim, agir por inveja e ressentimento? E se a inteligência artificial concluir que deve eliminar os seres humanos? E se um humano melhorado se revoltar ou querer criar mais de seus iguais?

    Os filmes tendem a tornar o monstro como protagonista (justamente porque é muito interessante), mas acabam errando em achar que ele é apenas um monstro, cujo lado da história pode ser mostrado, mas não entendem que o dilema moral, o coração da história, não está nele e sim no cientista, nos limites éticos, no desejo humano de ser Deus. Essa é o coração do horror. Tentemos a simpatizar com as vítimas, e Frankestein mostra a revolta da criatura contra o criador, daí é natural que se tente simpatizar com o monstro, mas acho que não podemos perder de vista que o monstro tem seu lado mau, egoísta, vingativo, ressentido. É como uma criança psicopata que quer que todos façam a sua vontade e que é capaz das piores atrocidades sem hesitar. Simpatizar em excesso com o monstro indica uma simpatia com os outros monstros, mais reais.

    Ler Frankestein é como olhar um pouco para o abismo. Como eu posso ver um filme que não entende minimamente isso e achar bacana? Nada contra quem não tenha essa visão, pois a cultura pop hoje não lembra como era a história original; o que digo é que eu tenho dificuldade em aceitar filmes modernos do Frankestein.


Propostas de como seria uma boa história

    Além da própria reprodução do original, a ideia central da história pode ser mantida em alguma continuação. É o que tentarei fazer abaixo.

    A ideia da noiva do monstro, que eu chamarei de Noiva em referência ao filme, já existia no original. O monstro se sentia solitário e achava que ter uma parceira ajudaria ele a ter uma vida normal, satisfatória. Eu sempre achei que era uma crença infundada, e pode ser nosso ponto inicial da história. O monstro pode conseguir descobrir pelos escritos ou por experimentação qual a forma de criar novos monstros, e resolve criar a Noiva. Inclusive pode aí haver uma referência bíblica como usando sua própria "costela" no processo.

    Tal como o seu criador, o monstro realiza o experimento sem compreender o que realmente estava fazendo, e, tal como o seu criador, ele se horroriza diante do experimento concluído. O monstro pode ter uma percepção de que o que está diante de si não é seu sonho se realizando, mas é seu sonho se transformando em pesadelo. Isso pode ser reforçado pela Noiva agir de forma estranha ao menos no começo, estando desabituada ao seu corpo, e nascendo do zero. Mas a Noiva pode perceber essa rejeição, ainda que o monstro tente acolhê-la. Com isso, estabelecemos um elo fortíssimo entre essa continuação e o original.

    Ela pode, assim como o monstro na história original, fugir e aprender mais sobre o mundo, mas aprende de uma forma distorcida, aí pode entrar aspectos do feminismo, mas mesmo de visões mais tradicionais, tudo num retalho de ideias sem muito nexo e profundidade. Ela volta ao monstro fazendo exigências ou trazendo ideias. Pode querer outro parceiro ou uma parceira, pode querer filhos, pode querer amigas. Nesse ponto, o monstro pode entrar em um dilema interno: ele também se sente solitário e sente que a nova parceira não amenizou sua dor existencial, porém ele está intuindo que a solução não está em criar mais seres como ele, pois ele já tentou isso e não deu certo. Agora, ou ela pode convencê-lo a lhe entregar o secredo, ou ela pode roubar o secredo de como criar outros monstros. Seria interessante que ela realizasse o experimento sem o monstro por perto, e quando ele descobre, ele a encontra em meio a vários corpos, de adultos e crianças, de homens e mulheres, todos que ela animou e depois destruiu, pois nenhum lhe parecia satisfatório. Isso mostra o aspecto criador e destruir da natureza e de deusas antigas, também mostra os extremos de amor e destruição, mostra em como ela não quer criar pessoas e sim coisas que a satisfaçam, mostra como ter poder demais (o poder de criar a vida) pode levar à loucura de querer escolher (como a vida que nascer será).

    Indo para o desfecho, imagino que o monstro pode querer consolá-la ou ajudá-la a entender a situação, apesar de asusstado e horrorizado. Mas ela aproveita para arrancar parte da carne dele, dizendo que ela lembrava que ela fora feita com a carne e os ossos dele, então que isso é o que poderia faltar para criar um ser perfeito. Aí podem entrar em uma luta em que ela ou os dois morrem.

    Outro desfecho que pensei, mas que seria difícil de executar, seria se ela não matasse a própria criação de imediato. Aí veríamos mais monstros como filhos ou como amigas dela. Ela poderia matar alguns deles caso a decepcionasse. Talvez depois ainda ela quisesse levá-los para a sociedade normal, gerando muita confusão, com cada um deles aprendendo conceitos deturpados e agindo de forma violenta. E eles poderiam em certo momento se revoltar contra o monstro original e sua noiva, e podem todos morrerem. Esse final pode trabalhar outros aspectos da construção de mundo, mas eu acho que perde o timing para um bom final.

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